Matinta: A bruxa amazônica saindo das trevas.

Ou o  despertar da minha identidade amazônica.

Uma sessão despretensiosa com minha mãe rendeu uma paixão arrebatadora e fulminante por esse curta-metragem extasiante.

matinta

Segue um breve resumo com spoiler: Matinta é sobre a lenda da bruxa amazônica que se transforma em pássaro ou porco. Os registros da Matitnta variam muito na tradição paraense, mas sem dúvida, os elementos que unificam a lenda são a mulher enquanto feiticeira que se transmuta em bicho e de natureza, dúbia, mas geralmente maléfica (devido a forte influência cristã na colonização paraense). A versão do conto é mais para a visão do interior do Pará, onde a matinta ainda é uma figura extremamente forte e protagonista maléfica do jogo maniqueísta cristãos para os caboclos amazônicos. No curta em questão, a Matinta (Dira Paes) lança uma teia de sedução e feitiço ao redor de Felício, destrói-lhe a família induzindo a morte da esposa dele por feitiço. Matinta é destruída pela mãe de Felício, mas durante a sua morte, ela copula com o homem cobiçado e lhe passa a maldição de ser Matinta.

Meu texto vai ser concentrado nas cenas da Dira Paes como Matinta e na leitura feminista, pagã e não-maniqueísta da personagem Walquíria/Matinta Pereira.

bruxaria

Matinta se apaixona por Felício, que é casado. E faz feitiço para obtê-lo. Vejam bem, sou bruxa e não estou falando da abominação que é matar alguém por feitiço (e dá para ser feito, tendo os Senhores e Senhoras para isso), mas o feitiço de Walquíria é uma forma de exercer o poder e alterar a realidade dela. Acima de tudo, a Matinta é uma mulher com agência. É o que bruxas em geral são e isso as vincula fortemente ao feminismo, mas no contexto interiorano paraense, a Matinta é a antítese dos valores tradicionais. Walquíria/a Matinta é independente e trabalha para si mesma, é sensual e jovem e independente, ela não põe rédeas na sua luxúria. Ela é uma ruptura na sociedade interiorana amazônica, é a força primitiva da sexualidade feminina paraense que se contrapõe a colonização cristã. Ela é mais que uma mulher apaixonada ou uma bruxa perversa, ela É a Floresta, ela é a sexualidade mágica e a magia sexual que faz parte de cada pedaço de chão da floresta, da terra pulsante e vibrante e pagã na qual eu nasci. A cena final atesta isso:

final

Essa cena é uma sequência fantástica na qual Felício persegue Walquíria pela mata enquanto a mãe dele esconjura um feitiço para matar a Matinta. É uma cena de apoteose, de união de Eros (sexo) e Thanátos (morte), é a cena em que Walquíria se mostra como Matinta na árvore, em que ela se animaliza em um pássaro-humano de trajes rubros, é a cena que Felício, mesmo viúvo chorando luto, se entrega a Matinta que todos tanto temem. E isso tudo no meio da selva. A cena do homem amazônico (Felício) seduzido por uma bruxa-pássaro no meio da selva amazônica representa, ao meu ver, a sublime vitória do paganismo sobre o civilizado, sobre os valores ocidentais. Não interessa se ela é má ou não, a Matinta é da floresta e a floresta é dela, e lá, mesmo na morte, a Matinta é erótica, morre não de preto, mas num vestido vermelho pulsante e carnal, morre no meio do sexo, da cópula, é a suprema feiticeira amazônica, a força abissal que mesmo na morte traz a cantante vitória da vida. Para mim, uma metáfora da libertação da força sexual da mulher amazônica.

E sim, ela vence no final. Em todos os sentidos.

Afinal de contas, bruxas não podem ser subestimadas.

Muito menos as bruxas amazônicas.

E para quem quiser conferir:

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Para que servem os seus Deuses? ou pela Defesa de um Estado Laico.

Brasil em que vivemos me assusta.

Muito.

A onda conservadora encabeçada pelo líder do congresso, Eduardo Cunha juntamente com as bancadas da bala e evangélica, vem representando um retrocesso para as vitórias dos movimentos sociais no país. A PEC 215 e a PL 5.069 são apenas os dois projetos políticos badalados pela grande mídia e nas redes sociais. Mas eles são só a ponta do iceberg. A sombra da privatização das universidades públicas, a falta de uma legislação que foque nas causas LGBT e também o constante aumento de preços e impostos por governo federal se juntam a cena para mostrar um Brasil que está no olho do furacão. Eu não digo crise, eu digo momento de impasse, porque é o momento em que o conflito nos leva a resistência e a busca por melhorias. Embora, infelizmente, essa onda conservadora encontre respaldo no povo brasileiro, não é todo o povo brasileiro que concorda com o que está acontecendo. E é nessa pequena parcela que reside a esperança, pois uma fagulha pode levar a uma explosão, dado o momento certo.

Decidi escrever isso após essa revoltante notícia: A PEC que dá as igrejas evangélicas o direito de questionar o Supremo Tribunal Federal. Essa não é a única forma de expressão dessa bancada em busca de mais poder para os religiosos dentro do contexto político. Os usuários de drogas e os detentos são atendidos socialmente por igrejas, o que fere absurdamente o princípio do Estado Laico. O que me incomoda profundamente é ver a força que essas expressões religiosas cheias de ódio estão tomando e ver pouca ou nenhuma resposta dos outros movimentos religiosos.

Eu sou neopagã, politeísta, no meu altar doméstico estão os meus Deuses de sangue, os africanos e japoneses, e os meus Deuses de alma, celtas, hindus, egípcios e de outros tantos panteões que admiro e com os quais estou em contato quase que diariamente. Mas eu, acima de tudo, PRECISO de um verdadeiro Estado Laico. O Estado Laico não é contra religiões, mas contempla todas e não beneficia nenhuma especial. No entanto, quase todos os locais públicos no Brasil tem um crucifixo. Nossos feriados são católicos. Nossas universidades têm igrejas. Mas eu, enquanto pagã, não posso faltar trabalho ou aula para celebra um sabbath. Tenho que fazer isso aos fins de semana. Eu não paro minha vida pela minha religião, mas paro pela dos outros. E o que eles fazem pela minha e pelas outras? Eles riem. Debocham. Tentam me converter. Ou, então, jogam pedras.

Eu preciso de um Estado Laico para democratizar a discussão sobre religião. Eu preciso de um Estado Laico para que os meus sobrinhos tenham um ensino religioso democrático, que os ensine sobre Jesus tanto quanto sobre Ogum, Xangô, Buda, Kali, Morrighan, Benzentai e Zeus, para que as futuras gerações tenham direito de escolha. Para que os filhos de santo possam andar com suas guias sem medo. Para que os ateus possam ser ateus sem serem julgados ou rotulados como pessoas ruins ou de má fé.

Então, esse texto é um desabafo. Desabafo da dor e da ira que me enchem de ver minha nação desabando e retrocedendo para a idade média.  Do medo que é amanhã ter sido aprovado uma lei na qual seja autorizado os exércitos da Universal entrarem na minha casa, arrombarem meu altar e matarem meu gato, para depois me queimarem na fogueira.

Então, digo, neopagãos, umbandistas, budistas, espíritas e todos os não-cristãos dessa nação: Uni-vos. Para lutar pelo Estado Laico, que não é de nenhum de nós e pertence a todos. Vamos nos manifestar nas ruas e incomodar os que não querem nos ver.

Lembrar que não, NÃO EXISTE UM ÚNICO DEUS SUPREMO QUE NASCEU PRA REINAR SOZINHO SOBRE OS HOMENS. Qualquer Deus vai ter que aceitar os Outros para viver em paz e harmonia.

Nasci sob a sina das Deusas da Face Negra. São as Deusas da Guerra, da Morte e da Vida. Nasci sob Morrighan, nasci sob Kali, nasci sob Oyá, nasci sob Sekhmet. Nasci para a intensidade, para viver e morrer pelo que eu acredito.

E minhas Deusas, minhas Grandes Rainhas, senhoras da Guerra, me forjaram na paixão africana e na resiliência japonesa para uma única coisa: Lutar.

Seja no tatame.

Seja com palavras.

 

A Deusa Canta entre Nós: Paganismo em How Big, How Blue, How Beautiful.

Florence Welch

Há uns tantos anos atrás, em 2010, eu estava aleatoriamente vagando pelo YouTube, procurando fanvídeos sobre The Tudors, e vi um vídeo sobre a Ana Bolena da Natalie Dormer ao som de uma tal de Florence. Foi amor primeiro a essa tal de Florence.

Acho que já narrei antes aqui no blog e em diversas mídias sociais sobre meu amor pela Florence e sobre como ela me conectou ao paganismo e aos Deuses, mas nunca parei realmente pra refletir sobre isso de forma mais profunda.

Eis que a mesma, dona Florence, me lança uma oportunidade na cara, e eu não poderia deixar passar.

How Big, How Blue, How Beautiful terá seu lançamento oficial dia primeiro de junho, mas claro, foi vazado antes. E eu baixei sem culpa no coração porque vou comprar depois e porque eu passei quase 4 anos esperando essa mulher.lançar alguma coisa.

Eu realmente fiquei muito emocionada ao ouvir o CD, minha pressão baixou e eu comecei a tremer, inclusive chorei em uma das faixas. Acho que ouvir Florence é um daqueles raros momentos em que me sinto realmente compreendida e totalmente arrebatada, é inexplicável, é espiritual. Como eu disse no twitter, é como se eu fosse realmente despedaçada e arrastada pra outro plano, outra dimensão.

Duas músicas que me capturaram de forma profunda e interpretei de forma muito pessoal foram: Mother e Which Witch, sobre as quais eu pretendo analisar abaixo, mas de forma muito pessoal e conectada a minha vida enquanto mulher pagã.

  • Mother:

mother

Na minha interpretação, Mother é totalmente sobre a polaridade entre a divindade feminina e a masculina, sobre o Deus Pai do Cristianismo e a sociedade patriarcal e a busca pela Deusa, a Mãe do título. Como anteriormente frisei, é algo que está profundamente relacionado com a minha vida. Eu passei quase 20 anos como uma mulher pagã em uma sociedade cristã que me culpava pelos meus mais básicos instintos, que tentava me castrar sexualmente e me apresentava uma divindade masculina que no final acabou sendo pra mim tão opressora e distante quanto o pai que abandonou aos 15 anos e me destruiu emocionalmente de uma forma que acho que nunca haverá reparação material ou psicológico suficiente.

Oh lord, won’t you leave me

Oh senhor, você não vai me deixar?

Leave me on my knees

Deixe-me de joelhos

Cause I belong to the ground now

Porque eu pertenço ao chão

And it belongs to thee

E ele pertence a ti.

And oh lord, won’t you leave me

E, ó senhor, você não vai me deixar?

Leave me just like this

Deixe-me assim

Cause I belong to the ground now

Porque eu pertenço ao chão, agora

I want no more than this

Eu não quero mais do que isso.

Nessa primeira estrofe, senti muito do que eu sempre senti em relação a Divindade Cristã e ao meu próprio pai, aquela vontade imensa de fugir e aquela inevitabilidade de não escapar do julgo daquela figura paternal (Eu pertenço ao chão agora/E ele pertence a ti), também vejo muito da questão do materialismo pagão versus o transcendentalismo cristão (Porque eu pertenço ao chão, agora/ Eu não quero mais do que isso), que também foi um conflito particular anterior a minha volta ao paganismo, eu sempre achei e senti que era profundamente errado esperar e ansiar por uma vida pós-morte que fosse melhor que essa vida, quando o nosso mundo material é tão divino, tão sagrado.

Nunca consegui ver o sexo, por exemplo, como algo profano. Não! Pra mim sempre pareceu a mais sagrada expressão da animalidade humana. E essa animalidade não é algo negativo, mas algo primal, algo que nos reconecta a nossa ancestralidade, a vida, a terra. Hoje em dia, é fácil expressar isso, mas aos 12-13 anos vivendo a puberdade e cercada por toda a culpa cristã profundamente embutida na sociedade e profundamente conectada a toda a repressão sexual feminina no ocidente, foi difícil, foi psicologicamente árduo resistir até perceber que não era eu quem era louca, mas a sociedade que era aprisionadora. Ver a Florence expressar algo tão profundamente particular que nunca eu fui capaz de botar em palavras foi absolutamente libertador.

Mother

Enquanto os primeiros versos retratam essa figura paterna, o Deus Cristão mesmo, os versos seguintes parecem falar da figura materna, a Mãe, do título, que para mim parece ser a Deusa do neopaganismo e presente nas Deusas dos panteões das diversas vertentes do politeísmo moderno:

(..;)

Mother, make me

Mãe, faça-me

Make me a big tall tree

Faça-me uma grande árvore

So I can shed my leaves and let it blow through me

Então poderei perder minhas folhas e deixá-las voar para longer

Mother, make me

Mãe, faça-me

Make me a big grey cloud

Faça-me uma grande nuvem cinzenta

So I can rain on you things I can’t say out loud

Para que eu possa chover as coisas que eu não posso voiciferar

(.;;)

Mother, make me

Mãe, faça-me

Make me a bird of prey

Faça-me um pássaro de rapina

So I can rise above this, let it fall away

Para que eu me erga sobre isso, deixe tudo cair

Mother, make me

Mãe, faça-me

Make me a song so sweet

Faça-me uma doce canção

Heaven trembles, fallen at our feet

O Paraíso treme, caído aos nossos pés.

(…)

Acho que não consigo expressar o quão exata são essas partes sobre a minha relação com a Grande Rainha Morrighan, ou a Grande Deusa Mãe, a quem eu cultuo de uma forma bem livre. Eu sou uma coisinha selvagem e desorganizada, mesmo no paganismo e me considero pagã livre. Tento não estar atada a Wicca ou qualquer outra vertente, porque incorporo elementos muito sincréticos, de outras religiões e de origem relativa as minhas ancestralidades africana e japonesa, na minha vivência pagã. Também não tenho muito definidas essas questões teológicas, porque gosto de viver a particularidade, do reconstrucionismo celta, e a universalidade da Wicca de igual forma. Sou uma criatura estranha.

Mas voltando a Mãe, que eu chamo de Morrighan e que tantos outros chamam de outros nomes, mas vamos ficar em consonância com a Florence e chamá-la de Mãe. Eu recebi o chamado da Mãe aos 12 anos, quando eu comecei a ler As Brumas de Avalon. Embora meus amigos e família pensassem nisso só uma fase pagã-bruxa que quase toda jovem tem, não era. Eu sempre discordei, desde criança, de muita coisa do catolicismo e do cristianismo em geral, apesar do meu profundo apreço pela figura de Jesus e sua história.

Encontrar tão cedo mulheres tão magnificamente fortes e livres como eu sempre quis ser foi algo profundamente impactante na minha psique juvenil. A Divindade por qual Morgana, Viviane, Nimue e as outras filhas de Avalon lutavam, não era a severa figura paterna do cristianismo, mas sim uma Mãe disposta a ouvir e falar com suas filhas, disposta a guiar-lhes mesmo pelo mundo em transição e na crise de Camelot. Era um Mãe de braços abertos, que não as condenava pela sexualidade, mas dava liberdade para vivê-las, era uma Mãe que não via nada de errado em uma mulher querer ser guerreira, literal ou conotativamente, e que dava valor aos sacrifícios daquelas mulheres. Claro que, essa Mãe era ríspida e severa, mas mesmo nos piores momentos de Morgana, eu conseguia sentir a Mãe amando-a de uma forma que eu nunca tinha me sentido amada pelo Deus Cristão.

Então, ao ouvir a Florence gritando por essa Mãe, para que salve-a, que transforme-a numa árvore, num pássaro, significou demais para mim. Também vejo a Mãe na música como aquela que salva, aquela que o eu-lírico busca para encontrar alívio, ao contrário do Senhor Deus anteriormente mencionado, de quem o eu-lírico parece querer fugir. Morrighan e eu vivemos vários momentos assim, momentos difíceis que eu quis ser salva, ser levada para longe. Nos outros excertos da música a Florence fala de um romance, que provavelmente é a causa do conflito da música. Eu também passei por (MAIS UM) amor platônico que envolveu altas doses de paganismo que quase me enlouqueceu de dor e a minha relação com Morrighan foi fundamental para que eu não me despedaçasse sob o peso disso.

Mother é absolutamente linda e com um significado muito profundo, para mim.

Mother

Mother

  • Which Witch
Which Witch

Which Witch

 

Which Witch é uma música sobre a qual eu carrego muitos sentimentos, mas não consigo expressá-los nem que eu ficasse eras dissertando sobre. É a música mais pagã da Florence, sem dúvida. Carrega tambores e um instrumental que definitivamente nos evoca sentimentos pagãos intensos.

Acima de tudo, pois é uma música que fala sobre um julgamento; é dúbio, pois parece ser um eu-lírico em conflito num relacionamento tortuoso, mas a letra carrega também um paralelo direto com os julgamentos das bruxas.

It’s my whole heart

É todo o meu coração
Weighted and measured inside

Pesado e medido por dentro
And it’s an old scar

E é uma cicatriz antiga
Trying to bleach it out

Tentando se purificar
And it’s my whole heart

É todo o meu coração
Deemed and delivered a crime

Atribuído e entregue como um criminoso
I’m on trial, waiting ‘til the beat comes out

Estou em julgamento, esperando até a batida escapar

 Definitivamente, não consigo ouvir a música sem traçar imediatamente um paralelo com filmes, livros e séries que assisto desde a infância. De bruxas sendo queimadas, perseguidas e julgadas. Pode parecer muito antigo, mas não é. Até hoje, a mulher pós-moderna sofre julgamentos em todos os níveis. Dentro de relacionamentos, dentro da família, pela mídia, pelo padrão estético social inatingível, pelas religiões patriarcais sempre prontas a montar uma fogueira. Esperando uma bruxa para queimar.  Somos julgadas e queimadas a todo momento, seja literal ou figurativamente.

A letra, porém, traz um viés de resistência interessante:

And it’s my whole heart

E é meu coração
While tried and tested, it’s mine

Usado e testado, mas meu
And it’s my whole heart

E é meu coração

Trying to reach it out

Tentando escapar
And it’s my whole heart

E é meu coração
Burned but not buried this time

Queimado, mas não enterrado dessa vez
I’m on trial, waiting ‘til the beat comes out

Estou em julgamento, até a batida escapar

Essa estrofe me faz lembrar, que apesar de tudo, apesar de todo julgamento e todas as fogueiras, nós resistimos. Nós, mulheres, nós, bruxas, bruxos e pagãos do mundo todo, nós estamos aqui, queimados, mas não enterrados. Nós seguimos em frente. Pois nossos corações ainda são nossos, assim como nossas crenças. E vamos continuar aqui, resistindo e lutando.

which witch

E Florence continuará, conosco. Cantando por nós. E pela Deusa. E pelos Deuses.

Until the beat comes out.

“Clímax”, de Chuck Palahniuk: Uma resenha (e uma reflexão sobre gênero e a sexualidade pós-moderna, com possíveis spoilers).

“Clímax”

A princípio, o livro é uma mistura insana de “Barbarella” com uma paródia ácida de “50 tons de cinza”. O que parece de uma comicidade trash acaba se revelando uma obra cheias de reflexões sobre gênero, sexo, mercantilização do sexo e vícios da sociedade pós-moderna, que Palahniuk parece saber criticar como ninguém e vem nos mostrando isso desde “Clube da Luta.”.

“Clube da Luta” e “Clímax” são bem diferentes, mas parecem trazer um tema que Chuck domina: Instintos primitivos e animalescos versus a psique e a vivência do ser humano e da sociedade pós moderna. Se na obra de Tyler Durden, o foco é em um dos maiores e mais controversos instintos que nos acompanham desde os primórdios, a violência, e seu aspecto enquanto a catarse-libertação que acaba descambando num projeto distópico de reconstrução mundial (através da violência, mas cobrando o preço de vidas inocentes); nesse, Palahniuk escolhe dissertar sobre uma das nossas pulsões mais antigas e reprimidas: O Sexo.

A trama começa com uma paródia de “50 tons de cinza” e  do gênero chamado mommy porn. Penny Harrigton, uma aluna recém-formada em Direito, pobre e interiorana, está tentando a vida em Nova York, e acaba por se envolver com o milionário Cornelius Linus Maxwell (cujo acrônimo dos nomes e sobrenomes forma “CLIMAX”, que dá título ao livro em português) e se descobre cobaia de apetrechos sexuais baseados no conhecimento tântrico, que serão lançados em larga escala como sex toys para mulheres do mundo todo. Porém, os brinquedos sexuais são tão viciantes que Penny logo percebe a iminente catástrofe e o maligno plano de Maxwell: Dominar o mundo através do controle do prazer e da mente femininos. A partir daí, nossa heroína decide lutar contra o vilã e salvar suas irmãs de gênero.

Como leitora, eu fiquei desconfiada. Homens escrevendo sobre mulheres e sexualidade feminina é algo que eu, como feminista e pesquisadora, não dou muito crédito. Há marcas fortes da imaginação masculina na narrativa de Chuck, porque ele ainda é um homem escrevendo sobre algo que ele jamais vai experimentar, mas a partir do momento que eu relaxei e aceitei como uma paródia de uma obra/um gênero de literatura, as coisas começaram a fluir melhor. Tão melhor que eu li em menos de 24 horas.

“Clímax” me atraiu sobretudo pela ideia da distopia de um mundo que caiu sob o domínio do prazer sexual, e do prazer sexual feminino. Por razões particulares, o assunto me interessa demais: Sou uma pequeno-burguesa filha de pai japonês que cresceu em um lar conservador, nunca ouviu uma palavra dos pais sobre sexualidade ou gênero, era altamente controlada em termos de horários e companhia. O Sexo, para a filha mais nova de uma família burguesa conservadora, era o meu Santo Graal. De um lado, via meus irmãos gozando de uma liberdade sexual excessiva e sem censura desde cedo, por outro, eu não podia passar de uma da manhã na festa com meus amigos. Por isso assim que sai de casa e perdi minha virgindade, confesso que adoro transar e o faço com frequência – com toda a devida proteção. Minha libido é incontrolável. Além disso, adoro ler e ver pornografia (da boa, feminista de preferência, estilo Anaïs Nïn), gosto de ir em sex shop e comprar apetrechos pra usar na cama com meus parceiros. Então, a ideia de um mundo caído sob domínio do prazer sexual feminino me pareceu bastante louca e eu quis entender a crítica mordaz que Palahniuk fazia sobre isso.

Indo adiante na narrativa e superando as desconfianças iniciais, Palahniuk desenvolve uma obra que critica o feminismo liberal (o “feminismo” da grande mídia, casado com valores capitalistas neoliberais, voltado para mulher branca e abastada que dita o consumo pós-moderno material e cultural, responsável por popularizar obras como Crepúsculo 50 tons de cinza. É o “feminismo rico e branco” que estimula a mulher a ir no sex shop só no dia dos namorados, faz matérias sobre como você deve se comportar sexual e socialmnte nas revistas como Cosmopolitan Marie Claire e nunca vai promover autoras como a Anaïs Nïn, cuja vida é uma odisséia sexual intensa usando do sexo para a descoberta e libertação de si mesma), apontando-o como fator que contribui na zumbificação de mentes femininas e impulsiona o capitalismo pós-moderno e industrial. Palahniuk também critica a mercantilização do sexo e a superficialidade das relações sentimentais entre os vários personagens, e, consequentemente, como ela se dá na sociedade pós-moderna.

Um fator surpreendentemente bom do livro é que Palahniuk critica os próprios colegas de gênero. A crítica ao anacronismo do papel masculino e a falta de tato do homem com a sexualidade feminina (que é o que abre as portas do sucesso para o plano de dominação de Maxwell) são intensas. Mesmo ao verem o domínio do Beautiful You, os homens fazem o que os homens sempre fazem: se juntam em alcateia e começam a destruir tudo, ao invés de tentarem ajudar e libertar suas parceiras escravizadas. E ao invés de se voltarem contra Maxwell, os homens querem queimar Penny em público.

Palahniuk também aponta o quanto o mundo é dominado pelas mulheres, mas o quanto nós não temos noção disso e acabamos por ser subjugadas por diversos aparelhos de repressão, no caso do livro, os sex toys tântricos da Beautiful You, mas na vida real temos várias revistas femininas e a grande mídia patriarcal e machista para controlar e ditar nosso comportamento. Chuck joga sal na ferida ao mostrar a necessidade das mulheres lutarem contra isso e se libertarem dos produtos produzidos pela cultura de massa do feminismo liberal; não, que eles não possam existir, mas devem coexistir com outras formas de pensar. Eles deviam ser uma via, não o único caminho.

Como forma de oposição ao protagonista e a doentia sexualidade pós-moderna, Palahniuk traz Baba Barba-Cinza, ex-mentora de Maxwell e feiticeira sexual do Tantra. Palahniuk recorre a uma fórmula que ele gosta: buscar no conhecimento ancestral uma forma de combater/canalizar os males pós-modernos. Baba é uma figura poderosa, cuja história dramática termina na sublimação através do domínios das práticas sexuais primais e do sexo tântrico. Baba é a esperança de Penny e traz a ideia do Sexo e do Prazer como formas de viver que devem ser usadas para libertação e aperfeiçoamento do ser humano e não para sua escravidão. Confesso que vou pesquisar sobre o Tantra depois, com mais calma, por causa do livro.

Por fim, pode-se dizer que a crítica de Chuck é em relação a própria obsessão humana com o prazer e em como isso é explorado e usado pelo capitalismo para escravizar pessoas e acaba se tornando uma forma de controle social. Até eu parei para refletir sobre as minhas possibilidades de estar sendo escravizada pela minha libido, espero que conhecer o Tantra ajude na canalização da minha energia sexual.

É um livro fantástico, de uma crítica sensacional e inigualável. Absolutamente merece ser lido por todos os públicos. Vou encerrar com uma das partes mais poderosas do livro:

“A cultura em geral vinha usando o sexo displicentemente para atacar os cérebros jovens e masculinos havia tanto tempo que a sociedade incorporara essa prática maligna como se fosse algo natural.
Talvez tenha sido por isso que o mundo aceitara tão rápido o sumiço das mulheres caídas no mesmo abismo. A superestimulação artificial parecia ser a maneira perfeita de sufocar uma geração de jovens que queria mais em um mundo em que havia cada vez menos. Fossem as vítimas homens ou mulheres, a dependência de estímulo parecia ter se tornado a nova normalidade.”.

Paganismo, Feminismo e o Outro em “Malévola”. [COM SPOILERS]

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Depois de eras, a boa filha a casa torna. Se eu não tivesse mesmo amado o filme, eu não estaria escrevendo sobre agora, visto minha falta de tempo de escrever qualquer coisa fora do ambiente acadêmico.

Bem, eu fui ver Malévola (Maleficent) numa despretensiosa sessão com minha mãe e minha sobrinha, que é bem pequena e foi quem quis ver o filme. Apaixonei-me totalmente. Eu achei interessante por ser duplamente uma sessão para crianças e adultos e por apresentar duplamente aspectos que agradam ambos os públicos.

Mas, especificamente, eu vou falar o que o filme significou pra mim com meu background pagão, feminista (via porradas da vida e Simone de Beauvoir) e desconstrucionista (via leituras pro pré-projeto do Mestrado).

Primeiramente, um breve resumo do enredo: O filme conta a versão de Malévola, a vilã do clássico Bela Adormecida da Disney. Malévola é uma jovem fada que se apaixona por um humano, Stefan, que a abandona, mas anos mais tarde volta para supostamente recuperar seu amor. Stefan, entretanto, rouba-lhe as asas em forma de vingar o antigo rei, a quem Malévola havia ferido em batalha. Stefan vira rei depois do feito, Malévola enfurece-se e comparece ao batizado da filha de Stefan, Aurora. Essa parte vocês conhecem, a maldição que só poderia ser quebrada por um beijo de amor verdadeiro. O plot twist acontece por que Malévola na verdade se apega a Aurora e ajuda a criar a menina, indiretamente, junto com seu corvo Diaval.

Vamos a análise.

O paganismo é onipresente nos contos de fadas, mas o que me encantou em Malévola é como isso foi explorado em detalhes minuciosos.

Primeiramente, os chifres.

 

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Não preciso lembrar que o chifre não é bem visto na nossa cultura. O chifre simboliza a traição, o diabo usa chifres na mais popular caracterização cristã do vilão bíblico. Para os povos pagãos da Europa, porém, eles tinham um significado profundamente diferente e oposto. Vou explorar alguns pra vcs aqui. Temos o Deus Celta, Cernunnos, Deus da fertilidade e encarnação da masculinidade;

O Deus Cornífero é o Deus fálico da fertilidade. Geralmente é representado como um homem de barba com casco e chifres de bode. Ele é o guardião das entradas e do circulo mágico que é traçado para o ritual começar. É o Deus pagão dos bosques, o rei do carvalho e senhor das matas. É o Deus que morre e sempre renasce. Seus ciclos de morte e vida representam nossa própria existência.

Na verdade, o chifre está ligado a masculinidade em muitas culturas:

O Sagrado Masculino existe também sob muitos nomes, entre eles Pan (Pã), Dionísio, Baco, Quíron, Hermes, Moisés, Baphomet, Amom-Rá, Mitra, Odin, Wotan e Cernunnos. Ele é uma representação masculina da divindade, e é mais conhecido como o Deus Chifrudo.

Contudo, isso mudou:

Hoje em dia, os chifres são vistos como símbolos da traição, do “babaca”…
Ninguém sabe o motivo. Aliás, a grande variedade de teorias já levantadas a respeito só vem confirmar o mistério dessa modificação no significado atribuído aos chifres, a partir da Idade Média européia. Antes disso, os cornos não eram o símbolo da pessoa que é traída pelo(a) parceiro(a), mas representavam energia, comando e potência sexual: todos os sátiros da mitologia tinham chifres, e os guerreiros vikings, bem como os gauleses da aldeia de Asterix, portavam-nos orgulhosamente em seus capacetes. Ovídio, no Canto XV das Metamorfoses, descreve, sem a menor ironia, o episódio em que Cipus, o famoso pretor romano, acorda certo dia com um portentoso par de cornos na cabeça, simbolizando o glorioso papel que desempenharia no futuro de Roma – história que não poderia ter sido narrada por um escritor medieval ou renascentista sem um inevitável sentido burlesco (fico só imaginando o efeito que esta passagem de Ovídio teria no meu tempo de ginásio, em que desatávamos a rir maldosamente só porque mencionavam a Cornualha, na Inglaterra, ou as famosas jóias de Cornélia …). Além de símbolo da força, os chifres eram – e são, até hoje – considerados uma poderosa defesa contra o mau-olhado e a feitiçaria, seja na sua forma córnea natural, seja no conhecido sinal que se faz com a mão fechada, deixando o indicador e o mindinho estendidos.

 

Bom, só daí temos um grande paradoxo: uma fêmea (fada, não mulher em exato) com chifres. Uma fêmea que carrega em si masculinidade e a capacidade de liderar. Coisa que aliás, ela faz mesmo. Malévola lidera seu povo, os Moors, contra os humanos. Mulheres liderando povos oprimidos contra um reino maior e liderado pelo lado fálico não é nada inédito na história pagã. Ao contrário, primeiramente temos a rainha icena (antigo povo celta da Bretânia, atual Inglaterra) Boudicca que liderou os celtas (povo pagão e extremamente conectado com a natureza, como os Moors) contra Roma (povo centralizado e liderado pela figura masculina de um imperador). É uma das primeiras cenas do filme e eu me lembrei da Boudicca na hora. Aliás, na história, não foi um caso único, Elizabeth I, rainha Tudor, liderou a Inglaterra contra a Espanha, império liderado por um homem, vestida em armadura e com um discurso que em muito remetia a Boudicca e sua trajetória. Boudicca e Elizabeth I também usavam os mesmos chifres que Malévola, mas eles eram invisíveis.

Um pouco sobre ambas:

Ao coincidirem ambas as notícias – a destruição de Mona e a traição aos icenos -, a reação dos bretões foi realmente selvagem. A grande rebelião organizada em seguida terminou em um autêntico derramamento de sangue nos territórios sob controle romano e, à frente da mesma, foi colocada Boadicéia ou Boudicca, a vitoriosa, seu verdadeiro nome em gaélico.

Os icenos lideraram o levante, já que, ao fim de tudo, continuavam sendo uma das tribos de maior peso na Bretanha e tinham sede de vingança. Frente à incapacidade demonstrada por seu marido, Boudicca reclamou e obteve seu direito de liderar o exército – algo impensável entre os romanos; o patriarcado machista do qual o elemento feminino ocidental suportou por tanto tempo se deve em termos à idéia greco-romana do mundo e ao pensamento semita a respeito.

Como ocorreu em outras ocasiões, a visão da enfurecida Boudicca guerreira é impressionante para amigos e inimigos. Ela é descrita como uma mulher alta, de compleição física forte, dotada de uma vasta cabeleira vermelha e capaz de mudar seu rosto com gestos e contorções típicos de qualquer guerreiro celta. A isso, somam-se seu poder para reunir um exército, sua audácia e sua decisão.

Todos os povos bretões levantaram-se em armas para segui-la. Os fatos mais destacáveis dessa reunião foram a destruição de Camulodunum, que havia sido reconvertida em cidade romana, e a fuga do promotor Decânio, obrigado a abandonar precipitadamente a ilha. Outras cidades como Verulamium (atual St. Albans) e Londinium (atual Londres) também caíram em suas mãos e nunca houve nenhum tipo de abrigo para os invasores.

 

ImagemClique para ver o discurso de Elizabeth I para as tropas inglesas vestida como homem  em The Golden Age.

 

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Outro aspecto pagão sutil é quando na luta final entre Stefan e Malévola, feminino versus masculino, os homens batem os escudos no chão. Isso era recorrente em grande parte dos povos bárbaros, antes das lutas e até influenciou a música celta. O dragão que surge nessa luta final é extremamente pagão visto que grande parte dos povos não-cristãos enxerga no dragão uma força imagética positiva, representando poder, ferocidade e etc. Os orientais foram ainda mais longe e consideraram o dragão divino, inclusive o deus Shenlong tem forma de dragão.

O conflito Moors versus humanos não é nada atípico e na academia é muito explorado nos estudos pós-coloniais; o encontro do Self (Eu) com o Other (Outro), foi introduzido nas teorias de Jacques Lacan e em seguida usado por Derrida, para definir Desconstrução. Você não é nada sem o Outro, o Outro define identidades, individuais e nacionais. Não somos aquilo que somos por sermos simplesmente, mas por que temos pessoas diferentes com quem nos moldamos e nos comparamos. Os Moors são Moors por que não são humanos e vice-versa. Segundo Karbaka, usando Derrida:

 

Na “sua aventura de sair de si e encontrar com o Outro,(…) o Eu tem que encarar a impossibilidade de voltar a ser o que era antes.

 

Ambos os Moors e os humanos são profundamente impactados pelo conflito e isso molda toda a história.

 

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E o Feminismo?

Está espalhado por todo filme. O fato de ser a história recontada do ponto de vista da bruxa já é um grande avanço. O modo como as fadas e Aurora são retratada também o são, a personalidade e a liderança de Malévola, que é apresentada tanto como heroína quanto como vilã, são coisas totalmente inimagináveis para a Disney até um pouco tempo atrás. Vemos conceitos ali da terceira geração feminista. Diferentes feminilidades, forças diferentes. Malévola e Aurora não se excluem, mas se completam e tem espaço para ambas no filme.

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Acima de tudo, eu vejo Malévola como uma grande alegoria sobre a jornada da feminilidade e do feminino, a chegada a maturidade, principalmente por que me lembra muito She de Robert Johnson, baseados em conceitos jungianos. Através da lenda de Eros e Psiquê, ele divide os arquétipos da feminilidade em dois: o agressivo, primal e feroz que é Vênus (no caso Malévola), mãe superprotetora de Eros, que estaria relacionado justamente aos (áureos) tempos do paganismo. Por outro lado, temos a Psiquê (no caso, Aurora), amada de Eros, o lado doce, emocional e delicado que estaria conectado a mulher na modernidade. Johnson tenta mostrar que ambas as feminilidades ao mesmo tempo estão em conflito e se completam. Tal qual Aurora e Malévola.

Aliás, o filme aniquila a necessidade de um príncipe. São mulheres lutando pelos próprios interesses e ajudando umas as outras. E isso é muito bom visto a grande massa de meninas de tenra idade que vai assistir ao filme. Uma mudança ideológica e tanto para Disney.

Por fim, e mais simplesmente, sem base acadêmica nenhuma, o filme é a jornada de uma menina que se tornou mulher através da dor, teve que apanhar e cometer erros para amadurecer. Numa conotação adequada, o amadurecimento de Malévola veio através da perda das asas, arrancadas pelo homem que amava. O amadurecimento a tornou sádica e sombria, cheia de ódio e dor, mas Aurora a a ajuda a recuperar a fé no amor verdadeiro. E iconicamente é Aurora quem lhe devolve as asas. Quando se livra do ódio, Malévola consegue voltar a voar.

Essa é, no final, a jornada de todos os seres humanos. Perdemos nossas asas, mas, até o fim de nossas vidas, tentamos consegui-las de volta. Por que todos, como Malévola, apenas queremos voltar a voar.

 

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Referências:

DECONSTRUCTING IDENTITY IN POSTCOLONIAL FICTION ~ KARBAKA, Cherki

QUEM É O DEUS CORNÍFERO? – http://www.emporiowicca.com.br/deus.htm

O PODER DOS CHIFRES – http://oeditor.osupremo.com.br/esoterismo/120-o-poder-dos-chifres

BOUDICCA, A RAINHA VERMELHA – http://www.templodeavalon.com/modules/mastop_publish/?tac=Boudicca%2C_a_Rainha_Vermelha

SHE: UM RESUMO – http://www.anyara-menezes-lasheras.psc.br/texto_resumo_baseado_no_livro_sh.htm

20 anos sem Bukowski

Buk

Buk

 

Acho que apenas o Bukowski pra me fazer voltar a escrever aqui.

Nesse dia tem exatos 20 anos, no ano em que eu nasci, 1994, o velho safado partiu (pra uma melhor ou pior? Apenas a Deusa sabe).

Bukowski  foi o primeiro escritor que eu comprei com meu primeiro dinheiro das aulas de reforço, tem uns 4 anos. Acho que Bukowski foi fundamental na minha “entrada” pra vida adulta. Eu lembro de ter captado toda a putaria e toda a crueldade da vida de “gente grande” pelas linhas  do Buk.

Uma das coisas que eu adquiri fortemente do Bukowski foi a mania de falar putaria escancaradamente, sem medo ou vergonha de ser feliz. Espero conservar isso pra sempre, embora mesmo homens tenham reclamado disso.

E acho que meu apego ao Buk e sua escrita escancarada se deve ao fato de que o conheci subsequentemente ao abandono do meu pai, a quem eu era extremamente apegada. Buk, mesmo que involuntariamente, assumiu esse posto paterno pra mim, gerando um carinho sem igual.

 

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Mas por que ler Bukowski?

Por que ele escancara o lado fodido do sonho americano. Por que Bukowski responde a um principio pagão básico, o dos sentidos. Sem ideologias, Charles viveu seus sentidos – o de comer, beber, trepar e regojizar isso.

Ao mesmo tempo, Buk sempre se posiciona de forma sombria, criticando tudo que pode ser considerado comum e mainstream. Buk não foi feito para quem se posiciona de forma politicamente correta. Buk é cru, visceral, cruel.

Nada santo, um pecador convicto que escancara cada um de seus pecados – e quem sabe mesmo se orgulha deles? – Bukowski é na sua escrita dois sentidos opostos da vida: o pulsante, violento e selvagem lado do homem que quer muito mais do que aquela sociedade em que vive lhe oferece, mas que ao mesmo tempo se encontra acorrentado por ela.

Mas Buk transcende a vida material e seu legado vai ser pra sempre único.

Pra fechar, deixo-os com as palavras dele mesmo:

 

não deixe as pessoas serem
seu alicerce.

Ao invés disso
construa na areia
construa no lixão
construa na fossa
construa nos túmulos
construa na água,
mas não construa nas
pessoas.

Elas são uma aposta ruim,
a pior aposta que você pode fazer.”.

 

 

"I want the whole world or nothing"

“I want the whole world or nothing”.”

 

Florence in Rio – sobre como eu atravessei o Brasil pra ver essa mulher e faria tudo de novo.

Flo

 

 

(Dedicado aos meus irmãos em Dali: Botan, Priscila, Alexandre, Bruna Cristina)

 

Acho que desde o momento que a minha amiga Bianca me mandou o link dizendo que a Florence viria ao Rock in Rio eu sabia que ia ver essa mulher, de uma forma ou outra. E assim o fiz.

Desde a compra do ingresso (que foi desesperadora e eu tive que comprar um pacote super caro da CVC), até enfrentar minha família e contar a verdade (depois de muita mentira) e bater o pé dizendo que foda-se se eu era uma mulher sozinha numa cidade desconhecida e enorme, eu iria ver a Florence e ponto final, tudo valeu a pena. Valeu a pena cada segundo e cada centavo (custeados do meu salario de monitora na UEPa, pq esse sonho era meu e ninguém além de mim poderia bancar isso). Por que se a minha banda preferida de todas e meu vocal preferido, The Doors e Jim Morrison, eu nunca poderei ver ao vivo, eu nunca poderia me permitir perder dona Florentina e sua machine, que vem no segundo lugar de bandas que amarei pra sempre.

Por que a viagem  em si foi perfeita. Tudo graças aos meus amigos do Rio (especialmente grata a Lali, que me hospedou, e ao marido e filha – lindos – dela <3; a Lu que atravessou a cidade pra me ver, a Flora que eu conheci no hotel onde me hospedei e foi uma super companhia durante os breves momentos que ficamos juntos) e a essa cidade divina, extremamente tropical e sensual que me acolheu super bem.

Mas eu quero falar sobre o show. Eu preciso falar sobre o show.

Quando a Florence entrou e eu a vi foi um choque muito grande, foi como ver algo sublime se materializando. Eu fiquei em choque durante toda a primeira faixa que ela cantou. Apenas absorvendo o impacto de ver ao vivo aquela mulher que havia anos eu acompanhava pelos CDs, pela internet e que, de uma forma ou outra, esteve presente em momentos chaves da minha vida com sua obra sublime.  Ela parecia uma deusa. Ruiva, branca, magnética e esvoaçante, cantando com a alma e uma voz assombrosa e falando, gritando, pulando e correndo como uma criança.

Ao meu redor, mulheres choravam e homens balbuciavam que ela era perfeita, que ela nem pertencia a esse mundo.

A sensação geral foi a de estar de volta (?) aos tempos primitivos em que os celtas se pintavam e saiam para caçar o gamo Rei, estar de volta aos primitivos cultos a Deusa primal em círculos de pedra, ou aquela sensação que eu tive ao ir na Praia da Joaquina em Floripa, ano passado, e me deparar com aquele mar assombroso, furioso e voraz; a sensação de ser minuscula e de que com certeza tem algo maior, algo muito essencial, sob o véu da existência nesse mundo. Florence me transmiti, e no show foi ainda mais forte, essa sensação de voltar e resgatar essa essência mistica, pagã, primitiva e visceral. Essa mulher tem um toque da Deusa e transmite isso magnificamente em sua obra.

Dois momentos mais divinos (de um show ultra perfeito e transcendental): What the Water Gave Me e No Light, No Light. Em WTWGM, eu olhei pra cima e vi a lua brilhando muito intensamente e bateu um vento muito forte, o que deixou tudo ainda mais surreal. Em NL, NL; acho que foi a melhor de todo o show, e o povo cantou junto e a Florence elevou o agudo dela a um nível que transcende a vida. Foi extremamente sublime.

Encerro esse texto aqui por que me faltam adjetivos pra exprimir o que foi aquele show.

E nunca foi, para mim, Rock in Rio. Foi Florence in Rio.