Watchmen – O Filme

 Esse texto contém SPOILERS sobre o filme

Fui ver Watchmen domingo, um dia antes da prova de física. Meu pai e minha irmã como sempre não entenderam e nem gostaram. Mas eles não entendem basicamente nada de ficção-científica e nem de HQs, ao contrário de mim, que amo ficção e traduzi já mais de seis HQs da marvel, de “The Long Road Home” e as primeiras de “Treachery”, portanto eu não ficaria indiferente a Watchmen, de modo algum; até por que, amei 300 e Sin City cuja continuação aguardo até hoje. E, como esperava, amei. Depois de ver Watchmen, me senti até mais calma e vi um bofe lindo do Companhia da Pizza Paulista, que trabalha depois dos filmes que vejo e tem olhos cor de âmbar maravilhosos e um sorriso bem sexy, mas isso são outros quinhentos.

O incrível de Watchmen é o âmbito filosófico extremamente profundo. Há filosofia em tudo que o ser humano faz, o ato de respirar já levanta imensas questões de profunda reflexão que dirá as obras do ser humano, como livros e filmes. E Watchmen não é uma excessão, é uma verdadeira obra prima. Para começar, peguemos a abertura com os créditos, magnífica… Quando uma hippie coloca uma flor no cano da arma do soldado, é de chorar, sério.  Depois, o Comediante, um homem duro, um cruel… Aparentemente. Quem percebeu, viu o apartamento dele cheio de fotos da Sally, mãe da Laurie, e a primeira Espectral. Aliás, esse é um casal muito polêmico, pois o Comediante tenta estrupá-la e anos depois, Sally e ele fazem amor, que gera Laurie. É um casal que eu adoro, se alguém se importar em saber. E cuja relação é chave para um dos momentos mais emocionantes do filme no qual eu quase chorei, aliás. O Comediante mata uma mulher grávida do próprio filho, mas é esse mesmo homem que depois senta na cama do seu arqui-inimigo e chora medos e fracassos. O mesmo homem que diz após praticamente cada ato seu “Perdoe-me, Mãe”. Como ele diz: “Os inimigos, às vezes são os únicos que nos deixam flores.”.

Agora vamos aos Watchmen. Serei direta e começarei com meu amado Rorschach… QUÊ ISSO, EU CASAVA COM AQUELE HOMEM!!! Deixando o momento um tanto fan-girl-totalmente -histérica de lado, eu realmente amei-o Tá, eu confesso! Ele parece um pouco com o Roland, mas não amei-o por isso Ele é considerado sociopata, maluco, extremamente violento e o caramba a quatro. Mas o Rorschach é um homem realista ao extremo, um homem de passado conturbado como tantas crianças por aí, um homem que viu o pior da vida e das pessoas e que se nega a demagogias baratas, um homem que vai direto ao ponto ou seja, um homem de verdade que é o que falta por aí. Ele é violento sim… Mas, perdoem-me o palavrão, ora até eu deixei meus preceitos humanistas de lado ao ver aquele filho-da-puta que matou a garotinha e deu os ossos para os cachorros comerem… Ele se nega aquela “paz forçada” do Veidt, e eu fiquei absolutamente do lado dele e é realmente um milagre eu não odiar o John, após matá-lo. Eu só não chorei com a morte dele pq foi muito súbita.

A Espectral, Laurie, adorei-a! A única guria da equipe não perde em nada para os homens e se mostra muito nobre ao perdoar Sally por não ter contado o segredo de quem era seu verdadeiro pai. Ela é forte e, ao mesmo tempo, mostra necessidades de qualquer mulher real, como a busca pelo Amor, após a turbulenta relação com John, e encontra Daniel. Ele não é perfeito, ele não é sarado, ele é gordinho, ele não tem o penteado da moda, mas ele a ouve, ele a faz rir, ele leva ela com o guarda-chuva até o carro, ele abre a porta pra ela, ele oferece abrigo e ajuda quando ela está mal. Quem não queria um homem desses?

Daniel, falemos dele. Bom ele é um pouco demagógico sim… Ia contra o Rorschach no começo e isso me emputecia, mas depois ele se solta, perde os medos, ele se torna um personagem e tanto, a evolução de Daniel é uma das mais visíveis dentre os personagens. Ozzymandias é um tanto… Bundão e psicótico, pelo menos foi o que eu achei… Dr. Manhattan ele é o grande X do filme e é com ele que chegaremos ao âmago do filme, o ápice, o clímax, chame do que quiser… Mas é Manhattan que nos leva ao centro.

Ele era um homem comum que foi vítima de um processo físico através do qual adquiriu poderes que deixariam Clark Kent cagando nas calças Clark, I love you, mas é verdade! Ele manipula a matéria em qualquer que sejam suas formas. E, com poderes que o levam a transformar-se numa verdadeira máquina do governo americano, ele vai aos poucos perdendo sua humanidade… Como Laurie diz, John enxerga através de uma névoa e como seu pai diz, John aos poucos vai deixando de se importar com a humanidade. Ou melhor, enxergava, pois é através de Laurie ah eu shipo eles dois 😀 que ele vê a magnitude da Vida. Numa parte que para mim é o ápice do filme, Laurie e ele em Marte… E ele revela a ela quem é seu pai, Laurie cai aos prantos… Mas Manhattan mostra ela que Sally tinha todos os motivos do mundo para odiar o Comediante, só que, ao contrário, ela o amou e do caos disso, do amor e do ódio, que envolve uma tentiva de estupro, emerge Laurie, do caos do ódio e da confusão emerge a Vida. 

E há também a questão final: A paz é aceitável a qualquer preço? Até o preço de milhões de vidas ceifadas? Isso é compreensível? É compreensível uma paz global através de uma farsa? Há quem concorde, mas eu discordo e fico totalmente ao lado do meu amado Rorschach nesse ponto. E se formos avaliar bem, essa é mesma questão de Hiroshima e Nagasaki, as bombas atômicas, até o hoje os tripulantes do avião se consideram heróis, pois o governo americano dizia que só com o ataque o Japão se renderia e a guerra cessaria, evitando a morte de mais pessoas. Mentira furada e dolorosa, todos sabem. E é aí que Watchmen está próximo da realidade… Explorando a barbárie humana, a brutalidade, a beleza da Vida e o preço da Paz, além de outros sub-dramas…

Concluindo, é um filmaço! Quer ter uma aula de filosofia? Veja Watchmen. Sem contar os “por-menores” como a trilha sonora F-A-N-T-Á-S-T-I-C-A é tudo soletrado, mesmo, virei até fã de Jimi Hendrix após o filme, toca “All Along the Watchtower” numa das melhores partes, com Rorschach e Dan, os efeitos especiais de tirar o fôlego e as cenas de porrada… Veja, você definitivamente não vai se arrepender.

“Há muitos aqui entre nós,
Que pensam que a vida é mais uma piada,
Mas você e eu, nós passamos por isso,
E este não é nosso destino,”

All Along the Watchtower – Jimi Hendrix

” “Tolos,” digo eu, “vocês não sabem
O silêncio como um câncer cresce
Ouçam as palavras que eu posso lhes ensinar
Tomem meus braços que eu posso lhes estender”
Mas minhas palavras
Como silenciosas gotas de chuva caíram
E ecoaram no poço do silêncio.”.

The Sound Of Silence – Simon & Garfunkel

 

 

 

Esse post é especialmente dedicado a Fabiana, minha amiga, que há um ano atrás, numa conversa sobre Muse, me indicou Watchmen. E há um ano eu esperei pelo filme e a espera valeu a pena.

 

 

 

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4 comentários

  1. fabi fernandes · março 13, 2009

    Yasmim, queria que todos os chatos que se dizem fodas-fãs de watchmen lessem isso aqui!

    Você que pouco ou nada conhecia da HQ entendeu exatamente a essência da história,assim como questionou quase tudo que a obra nos faz questionar!

    Tow passada!!! Você faz inveja a qualquer crítico de cinema!

    Tá muito lindo seu texto, muito muito mesmo! Você escreve melhor do que muito doutor em Comunicação!

    Você precisa saber mais do nosso amado Rorschach, porque ele é nacionalista ao extremo e achava certo o presidente Truman jogar as bombas no Japão!

    Também shippo o Jon e a Laurie e a Laurie e o Dan!!!

    Eddie Blake e Sally são meus xodós!

    Muitíssimo obrigada pela dedicatória, é uma honra saber que fui eu quem te proporcionou o primeiro contato com essa trama fodásticamente incrível!

    Trilhas que marcaram nossas vidas, cenas Unforgettables (lembrando da cena do assassinato do Comediante), imagens de babar, questionamentos filosoficamente profundos, dramas reais, heróis perfeitamentes imperfeitos em sua humanidade, polêmicas…

    Isso é Watchmen, o filme do ano, e sabe, estou loucamente apaixonada por aquele maluco do Snyder!

  2. S. Vampirate · março 16, 2009

    Yas, eu pensei que vc tinha baixado! Se o filme era tarja preta (minha forma de dizer que o filme é pra +18), como foi que vc conseguiu entrar? Eu fui em dois cinemas só ontem pra ver se meu irmão conseguia assistir e nada! Tive que chamar duas amigas, largar ele em ksa e ver no cinema aqui perto.

    Largando minha epopéia de lado (e tudo na minha vida se transforma em epopéia), vejamos o que eu achei:

    “Eu vi um pinto azul” – by minha amiga que foi.

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    “Vc não viu só um. Viu quatro.” – by me.

    Eu não conhecia a HQ, nem tinha idéia de nada que rolava, pra mim era algo do tipo “mataram o cara, vamos investigar quem foi”. Achei que o trailer não revelou muito do enredo não. O filme é de uma crueza extrema e foi a primeira vez que eu tapei os olhos vendo um filme no cinema (nem em Sweeney Todd eu fiz isso).

    Tô chocadaaaa demais. Ele é super violento sim, e os super-heróis pareciam uma facção terrorista urbana. É realista? Claro. Realmente se existissem super-heróis eu acho que seria daquele jeito ali.

    Essa é minha opinião de espectadora, eu não gosto de filmes muito apelativos, mas não chego a ser uma Meyer, sabe? Pra mim, foi uma mistura da série Oz, com V de Vingança e Um Drink no Inferno.*embora tenha chegado em ksa correndo pra terminar de ver “Em busca da Terra do Nunca”, um antídoto*

    O legal foi que eu nunca ri tanto indo ao cinema com minhas amigas, isso foi bacana. E nem era pra rir, mas a situação foi cômica ao extremo.

    Minha opinião de crítica: daria nota 9, pq é estéticamente perfeito, e segundo dizem foi fiel ao quadrinho.

    Minha opinião fan-girl: eu levo o Danny/Coruja pra casa na hora que ele quiser. xD

  3. S. Vampirate · março 16, 2009

    Detalhe: Toda vez que eu ouvir “Hallelujah” eu vou ter uma crise de riso incontrolável.

    Pensar que minha mãe quase viu esse filme…

  4. Dimitri · março 22, 2009

    Bem é a primeira vez que leio algum post por aqui. E tenho que admitir que a sua crítica sobre Watchmen, mas falando não só sobre o filme em si, mas sobre sua essência, foi a melhor que pude ler até agora.

    Realmente concordo com a decisão tomada por Rorschach, sobre o preço da paz, embora isto tenha levado sua vida como pagamento. De fato a paz não pode ser paga com milhões de vidas.

    Um filme para se refletir.

    Gostei daqui e espero poder ler mais textos interessantes.
    Até lá…
    Dimitri

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