Helena de Tróia

Muito foi dito sobre Helena, pouco foi realmente concluído sobre ela. Li o magnífico romance de Margaret George, autora de ‘Memórias de Cléopatra’, e parei para refletir sobre a personagem central; Helena.

De fato, eu amo inexplicavelmente a Guerra de Tróia desde os dez anos, mais ou menos, quando comecei a estudar aprofundadamente a Antigüidade Clássica enquanto minhas colegas de classe, na sua grande maioria, só pensavam no primeiro beijo e em garotos. E, na sexta série, li ‘A Canção de Tróia’ e amei perdidamente Heitor e Aquiles. Quanto ao casal-problema Páris e Helena, detestei-os, para mim; um covarde e uma vadia. A sensação reforçou-se após os filmes, documentários, revistas que tive contato de lá para cá.

Até esses dias. Realmente, em uma determinada fase da vida tendemos a ser um tanto extremados e agora atribuo a isso o fato de tê-los odiado tanto… Mas após este livro, a sensação findou-se por completo, creio eu. Primeiro deixemos um ponto claro: Eu não acredito que a Guerra de Tróia limite-se ao poema de Homero. Nunca acreditei. Acredito em Aquiles, Heitor, Andômacra, Príamo… É uma convicção pessoal da existência de personagens que tanto significam para mim há muito tempo. E como a própria autora do livro diz, por mais que eles não tenham sido reais, são tão cheios de vida e personalidades próprias que é como se fossem pessoas que apenas tivessem tido suas certidões de nascimento e os registros de óbito, perdidos e que, no dia que forem encontrados, serão apenas mera confirmação do que já sabemos.

Os amantes em uma Guerra...

Os amantes em uma Guerra...

Vamos ao livro, então. A narração é em primeira pessoa e acompanhamos Helena desde menina, crescendo presa por uma profecia feita por uma sibila e por sua própria beleza, prosseguimos durante sua adolescência, cada vez mais revoltada e inconformada com sua prisão e crescendo curiosa com os tantos apelidos a própria Leda a chamava de ‘Cisnezinho’ e galhofas que cercam a si e a sua mãe. Aliás, uma pequena disgressão para explicar um ponto imporante, a mitologia é mantida, ou seja, os deuses são reais e ativos. Afrodite, Palas Atena minha preferida, Hera são realmente julgadas por Páris e Zeus é realmente o ninfomaníaco que faz filhos com qualquer mortal que lhe agrade. E ela descobre isso ao fugir com sua irmã Clitemnestra, quando sua mãe confessa após receber um castigo. Então ela passa a ter mais liberdade, mas o ponto que é abordado aqui é muito interessante… A beleza, no caso de Helena, foi uma prisão. Andava com véus para não chamar atenção e ao libertar-se deles tem de se acostumar as pessoas ficarem estáticas contemplando-lhe e bajulando-lhe.

Então Helena tem de escolher seu pretendente, e Menelau é o vencedor. Vivem um casamento que de início é agradável, mas logo desbota-se e deixa a ambos sufocados numa relação sem amor e por pura conveniência… Helena tem uma filha, Hermíone, que é o balsámo para sua desiludida vida. E conhece Gelanor.

*Deixem-me dar um berro para voltar ao post ok?*

Gelanor, Gelanor, Geeeelanor… Sim, eu o amo!! É parece exagerado, mas eu não sou nenhuma louca que larga namorado por causa de personagem viu? Mas é impossível não admirar e se apaixonar! Ele cuida de Helena quando ela está sendo envenenada, por uma mulher cuja filha foi derrotada pela própria Helena durante uma corrida. Ele a leva a Gíteos, uma ilha, apenas ele e ela com uma escolta real, para catar moluscos para extrair pigmentos, deixando de reserva para a humilde família dele. A viagem é algo lindo! E Gelanor a trata como… Um ser humano sabe?  Para ele, Helena não é um objeto de decoração vindo do Olimpo ou uma semi-deusa. É uma mulher. Alguém com quem ele discute sobre tudo sem reservas. Vou dizer logo: Gelanor ama Helena de uma forma um tanto platônica e os dois desenvolvem uma linda relação, onde ele a ajuda e está lá para ouvi-la… E eu prefiro mil vezes Gelanor e Helena do que Páris e Helena… Gelanor também é um grande sábio, um estrategista e que lida com plantas e animais para usá-los como armas se necessário.

Na mesma viagem a Gíteos, Helena recebe o toque de Afrodite, que lhe promete dar o amor verdadeiro, livrando-a das garras da fria relação com Menelau. Mas haveria sacríficios em troca. E Helena aceita, independentes de quaisquer que sejam estes…

Se ela soubesse dos sacríficios...

Se ela soubesse dos sacríficios...

Então eles retornam a Corte e lá está Páris. O primeiro olhar, segundo Helena, selou suas vidas. Amor fulminante. Nenhum dos dois resistiu às tentações de Afrodite e se entregam ao amor. Fogem com Enéias para Tróia, interrompendo a missão diplomática ao qual tinham vindo. A questão desse ponto é super interessante ao meu ver: Seria o amor de Helena e Páris verdadeiro ou uma jogatina dos deuses? Aliás, este tópico é bem interessante. A própria protagonista pondera sobre ele várias vezes… Conclui que o amor seria o mesmo independente de Afrodite ou dos outros deuses, mas Helena nunca soube qual o “suborno” oferecido pela deusa do amor a Páris…

Então deixe-me concluir sobre o amor de Helena e Páris que apesar de tudo, eu ainda não “engoli”! : Não é tão meloso. Não é um clichê batido e se torna belíssimo quando Helena fala sobre a parte metafísica dele, ou seja, como as almas dela e de Páris se completam… Quanto ao meu desagrado pessoal com Páris, não me perguntem se um dia o superarei, Páris não passa em minha garganta nem com todo vinho de Baco servido no cálice de Apolo! Essa é a expressão perfeita de meu desafeto pelo personagem.

Os outros personagens são incríves… Heitor e sua nobreza infinita que nos cativa da primeira vez que ele aparece até a última, em seu funeral que me arrancou lágrimas de gotas idênticas aos da chuva que caia sobre Belém, enquanto eu lia, Andômacra e seu amor infinito; sua fidelidade e lealdade ao marido e à família, seus modos nobres e sua elegância sem extravagância. Menelau com sua doçura e generosidade que chegam a ser exacerbadas, mas que poupam a vida de Helena… Aquiles com sua fúria, ferocidade e sua grandiosidade como guerreiro. Entretanto, achei o Aquiles desta obra muito agressivo, o que me desagradou um pouco visto que guardo um imenso carinho pelo guerreiro grego cof cof Brad Pitt em ‘Tróia’ explica muito desse afeto cof cof, mas eu respeito o fato que cada autor expressa um personagem a sua maneira. Outro aspecto magistral é o modo como conseguimos sentir a angústia daquele povo, pelo menos um ínfimo do que é incomensurável. A dor da guerra foi banalizada, pois sem dúvida, nenhum de nós a imagina e passa a subestimá-la, de tão ordinária que ficou nos meios de comunicação, usada como um velho clichê para ocultar idéais políticos pelas tantas emissoras que alienam nosso mundo. Mas a autora tranporta com eficácia, ao meu ver, a dimensão da destruição de um povo. De sua decandência, das mortes dos civis inocentes. E ver uma cidade grandiosa como Tróia foi durante a narrativa até o momento das primeiras invasões gregas ser lentamente corroída pelo cancêr da guerra doeu na minha alma, sinceramente e sem drama. Agora multiplique a dor de uma cidade apenas por todas que foram destruídas sem clemência pelas definições de homens sem coração e estão no rastros e nos alicerces do capitalismo selvagem que até hoje se esforça para sugar cada segundo de nossas vidas, transformando-nos em seus fantoches, como Helena foi dos deuses. Outra disgressão, na história que eu escrevo dois dos personagens tiveram suas vidas arrasadas pela guerra, um causou sua própria destruição, a outra foi vítima de ditaduras semelhantes a da África, que me inspirei para projetar sua história, antes do romance de Margaret, pensei em mudá-los, por achar que o clichê ficaria cansativo ao leitor. Mas não mudei. Mantenho esse passado de dor tão comum a meus personagens inspirada pela narração de Lestat, personagem de minha diva Anne Rice, da invasão dos cruzados a uma catedral na Espanha, de uma forma magistralmente descrita e que me fez ver o sangue escorrer dentre as lajes. E após ‘Helena de Tróia’ mantive minha convicção; ou seja, que as pessoa cujas vidas foram destruídas pelas guerras são, infelizmente, muito mais comuns que gostaríamos. Apenas fechamos os olhos para isso.

A história da Guerra de Tróia não é só uma simples narração de um extenso combate bélico; é a história de amores irresistíveis, e escolhas imutáveis; é a história dos valores de um povo; a nobreza de Heitor e a bravura de Aquiles, é também, e acima de tudo, um dos espelhos mais fiéis e  definidos da formação da cultura Grega em todos as suas definições; seja quanto a religião, concepções, economia… Portanto, as diversas narrações da Guerra de Tróia, constituem a base da formação de toda Civilização Ocidental.

E pra quem quiser conferir, meu vídeo de Helena e Gelanor:

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3 comentários

  1. Delph · maio 26, 2009

    “Brad Pitt em ‘Tróia’ explica muito desse afeto ” [2]

    Pudera, né?
    Eu já tinha te dito que o máximo que eu conhecia da Guerra de Tróia era por causa dos desenhos animados e o filme. Eu nunca li nada concreto, confesso que eu gosto mais da história do Jasão (adoooooooooooooooooooro) buscando o Velocino de Ouro navegando no Argos. É sensacional.

    Mas essa sinopse me deixou curiosa. Vou ler Helena assim que puder.

    *Tenho que ler a Cleópatra primeiro, claaaro!*

  2. Ane · junho 16, 2009

    *Levanta da cadeira, quase derruba o PC de tanto entusiasmo*

    CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP (som de palmas)

    Aah! Muito bom o post! (-adoreiapartedo”eunãolargonamoradoporpersonagem”,seráporque?*.*-) Deu vontade de ler “Helena” também \o Páris, ah, eu também não engulo. Heitor, *-*

    Tudo bem que eu prefiro ler sobre Napoleão e Revoluções _a, como amo!_, mas Tróia sempre me interessou muito!

    “Brad Pitt em ‘Tróia’ explica muito desse afeto ” [3]

    Muito bom! \o/

  3. Lara · abril 4, 2012

    queria sua ajuda!

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