Sobre realezas, música e destruição

Eu estava conversando com minha amiga Raíssa pelo telefone quando ela falou que Michael Jackson havia morrido. Eu ri. E disse “Meu Deus, pensava que ele fosse imortal.”. Eu realmente não acreditei, realmente pensei que fosse brincadeira. Nós nunca esperamos que relevantes ícones mundiais venham a falecer. Por que eles estão idealizados, eles estão marcados, é como se estivessem numa grande marquise de algum grande palco mundial e estando lá essa é garantia de que eles vivem para sempre.

Mas não é assim.

E quando chega a morte vem o circo junto. O circo da mídia, das pessoas  que aproveitam a relevância do falecimento de um grande astro para deitar e rolar sobre ele. Sinceramente, eu não senti nada nos primeiros momentos, o interesse só se despertou em mim hoje, no quinto dia póstumo de Michael Jackson. E resolvi escrever isto sobre como a realeza da música pode ser apenas um peão da mídia, dos próprios fãs, sobre a natureza humana, a sede pela fama, pela beleza e um pouco também sobre a própria música.

Vamos ao que atualmente vemos. Ligue a TV, qualquer horário, qualquer emissora e estará lá o rosto de Michael, quase sem dúvida. Seja sobre a herança, sobre a guarda dos filhos, documentários sobre a vida turbulenta, velhas acusações de pedofilia sendo desmentidas após mais de uma década… Seja o que for, se estiver relacionado a Jackson, estará lá.

Qual a imagem dele que ficará para posterioridade? Será a de grande inovador e ídolo ou de excêntrico que caiu em decadência após uma carreira incrível? Apenas o tempo responderá.

Uma mente genial, um revolucionador, alguém que mudou, que ajudou… Eu não vou mentir, Michael é um grande ídolo sem preâmbulos. Mas como o homem que conseguiu mudar o rumo da música pop em proporções tão gigantescas e conseguiu até mesmo mudar preceitos da sociedade americana de forma extraordinária viu-se transformado em alvo de galhofa geral e acusado de ser pedófilo? Como o “rei” virou o Peter Pan preso pelos próprios sonhos? O Peter Pan da câmara de oxigênio, como dizem.

vocalista dos Jackson 5 com infância turbulenta

vocalista dos Jackson 5 com infância turbulenta

Simples, Michael foi rei enquanto era útil para um tabuleiro. Michael era idolatrado enquanto era produtivo para um grupo seleto de pessoas da industria fonográfica. Mas quando o rei não serve mais o que você faz com ele? Você dá xeque-mate. E não foi diferente com este. Todos os reis caem, vide o Absolutismo. Luís XVI e Maria Antonieta tinham fama, poder e glamour… E perderam a cabeça. Ana Bolena; bela, lasciva e desejada… Seguiu o mesmo curso. No fundo nunca é diferente com ninguém que esteja no controle, o poder é uma faca de dois gumes.

Questionar-me então alguns vão: “Mas ele sempre foi muito lucrativo?”. Foi até certo ponto. Foi até os escândalos, foi até mudar de cor, foi até começar a ser cunhado como pedófilo e molestador por onde quer que passasse. Foi até balançar o filho de meses na sacada. Até o Datena, da Band, o criticou por isso.

Quem ia querer um ídolo com tanta polêmica ao redor? Ninguém. E quase todos voltaram-se contra Michael. A dona Grobo leia-se GLOBO que agora mostra-se muito solícita cobrindo a morte do cantor e todos os tramitis que se seguem foi uma grande carrasca anos a trás, se a memória não me trai. Então nos EUA bairros param para homenageá-lo… Onde estavam essas pessoas com todo o seu amor quando Michael foi acusado de pedofilia por todos os cantos do mundo? Eu posso apostar que estas mesmas pessoas antes de sua morte o chamaram de monstro.

E vamos enveredar a diante neste post não só pela vida e morte de Michael, mas pelo curso da própria música.

A morte de Michael não foi a morte de um grande ícone foi a morte da qualidade musical, provavelmente. Mas vejam bem, eu não afirmei que fosse a morte da música, provavelmente é a morte de uma qualidade musical que nunca veremos novamente, pois a música é imortal. Enquanto uma nota que for emitida de um instrumento tocar o coração de alguém, enquanto uma voz cantar uma canção e conseguir, ao menos infimamente, comover  quem ouve, a música não morrerá. A música está em você. A música marca, muda e sobrevive. Pode demorar, mas ela fará como a fênix, e ressurgirá das cinzas, mesmo sem nunca ter de fato fenecido.  Mas retornando, a morte de Michael foi um marco, foi a consumação de que os anos 60,70, 80 e 90 feneceram.

Vamos frizá-los. Vamos fechar os olhos e imaginar aquelas gerações cantando suas líricas, ousadas e melodiosas músicas contra a Guerra Fria pelos quatro cantos dos mundo. E se vocês me permitirem eu “viajarei” um pouco na minha linha de raciocínio, mas esse fato, jovens cantando e escandalizando com suas músicas, não nos é um crédito para acreditar na raça humana? Por que uma guerra se travou através da música, na minha opinião, uma guerra contra a Guerra. Era a guerra dos cantores que inovavam, seja as duas meninas pedindo um homem depois da meia-noite que a tirassem das trevas ou a “ninfeta” loura se declarando uma garota material por que vivia num mundo material e assim ironizando o hedonismo e materialismo tão evidentes e mascarados na nossa sociedade, seja pelo garoto magro dizendo que nossa piscina está cheia de ratos e o tempo não pará ou seja pelo vocalista sensual, de longas madeixas rubras como um crepúsculo suave e totalmente orgástico gritando a plenos pulmões o refrão de uma música chamada “Sympathy for the Devil” onde o próprio príncipe das trevas conclamava, em primeira pessoa, que quem havia matado um presidente dos EUA era ele próprio e todos nós. Seja Elvis, Cazuza ou Jim Morrison, ou o próprio Michael, eles lutaram. Creio eu que sem derramar nenhuma gota de sangue eles abalaram muito mais qualquer sociedade a qual se fizeram sentir do que o tão duro Stalin ou o podre Nixon. Mesmo com as drogas, a exposição pública, tudo o mais, eles lutaram.

E isso que importa.

Jim Morrison - the Legend

Jim Morrison - the Legend

Vou usar das palavras que minha diva Anne Rice eternizou através do meu perfeito e tão amado Lestat, sobre o rock, de uma forma restrita, mas que se aplica a toda a música, creio:

“Estava encantado com o mundo da música de rock — o modo como os cantores podiam gritar sobre o bem e o mal, se proclamar anjos ou demônios, enquanto os mortais se levantavam para aplaudir. Às vezes, pareciam a pura personificação da loucura. E, no entanto, era de tecnologia fascinante a complexidade de sua apresentação. Era selvagem e cerebral, de uma maneira que não creio que o mundo tivesse algum dia visto em épocas passadas.

Claro, era metafórico o delírio. Nenhum deles acreditava em anjos ou demônios, por melhor que assumissem seus papéis. E os atores da velha comédia italiana tinham sido igualmente chocantes, inventivos, obscuros.

No entanto, eram inteiramente novos os extremos a que chegavam, a brutalidade e a provocação — e a maneira como eram aceitos pelo mundo, dos mais ricos aos mais pobres.

Havia também algo de vampiresco na música de rock. Ela devia soar sobrenatural mesmo para aqueles que não acreditam no sobrenatural. Refiro-me ao modo como a eletricidade podia sustentar uma única nota para sempre; ao modo como harmonias podiam ser sobrepostas a outras até você sentir-se dissolvendo-se no som. De tão terrivelmente eloqüente que era essa música. O mundo não tinha visto nada semelhante antes.”.

 (Rice, Anne – O vampiro Lestat – prólogo)

Retornando a morte de Michael em si… Talvez vocês tenham sentido falta da miséria e da natureza humana que prometi explorar aqui. Mas ela está tão onipresente em toda trajetória que talvez seja reduntante mencioná-la claramente. O “rei” do pop teve sua vida almejada por isso, perdeu-se o ser humano em prol do ídolo, Michael enlouqueceu nisso. Perdeu a distinção do pessoal e do público eu creio nisso. Queria desesperadamente riqueza, fama, beleza e atenção, evidente em tantas polêmicas.

A face de um ídolo.

A face de um ídolo.

Sobretudo, e para finalizar o post, o que Michael representa para mim? O mais claro e infeliz símbolo de como os holofotes, alienação pessoal e a mídia corrompem um gênio fabuloso.  E a partir de agora tentarei lembrar Michael pelas músicas como a que agora ouço, ‘Billie Jean’, e pela genialidade de modificar a música em extremos impressionantes. E concluo também, nunca digam, por favor, que a música morreu. Ela nunca morrerá. A música é um instrumento tanto de alienação como de luta, mas prefiro ressaltar que ela é um instrumento de luta e uma das mais belas formas de manifestação cultural oriunda da raça humana.

Este post foi inspirado pelos seguintes textos:

“King of Pop” – Cristiane Perpétuo – http://delphinevampirate.wordpress.com/2009/06/26/king-of-pop/

“Michael Jackson. Veja como a indústria do entretenimento constrói mitos e destrói pessoas!”  – Super Interessante – http://inblogs.com.br/news/musicanews/michael-jackson-como-a-industria-do-entretenimento-constroi-mitos-e-destroi-pessoas

Vamos encerrar com um trecho muito – considero eu, pelo menos – “fofo” da música mais famosa de Michael.

“(…)

Eles estão lá para te pegar
Há demônios chegando por todo lado
Eles vão te possuir
A menos que você troque o seu número
Essa é a hora
Para nós ficarmos juntos abraçados
Por toda a noite
Eu vou te salvar do terror na tela
Vou fazer você ver
Que isso é terror, noite de terror
Eu posso te assustar mais
Do que um fantasma ousaria tentar
Garota, isso é terror, noite de terror
Então deixe eu te abraçar forte
E dividir uma noite de Terror
Assassina, arrepiante, assustadora.”.

 

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7 comentários

  1. fabi fernandes · julho 1, 2009

    [Como o “rei” virou o Peter Pan preso pelos próprios sonhos?]

    Realmente Yasmim, nos perguntamos sempre isso!
    Depois que morre é que os “fãs” saem do armário para homenageá-lo?
    É deprimentoe como vemos os fãs instantâneos falando merda e nao agregando nada em relação à aura divina que este ser magricela e intrigante tinha.
    Agorinha mesmo, na Record, estão falando que Michael não será enterreado em sua Terra do Nunca.
    Não realizarão o sonho dele de ser enterrado lá.
    Ele como uma eterna criança carente nunca teve toda a atenção e carinho que merecia. Nem mesmo com milhares de fãs o amando incondicionalmente, ele não tinha o bastante.
    Amei seu texto, muito rico, rico demais, demais, como ele foi e sempre será.
    Termino esse comentário bíblia, com um trecho da música do Billy joel, Vienna Waits for you:

    “Slow down, you crazy child.
    You’re so ambitious for a juvenile.
    But then if you’re so smart, tell me why are you still so afraid?

    Devagar, sua louca criança.
    Você é tão ambicioso para um jovem.
    Mas se você é tão esperto, me diga
    porque continua com tanto medo?”

    […]

    (E a parte que sempre me faz chorar horrores por ser uma das maiores verdades que sempre negamos existir e sequer queremos pensar)

    “Dream on, but don’t imagine they’ll all come true.
    When will you realize Vienna waits for you?

    Sonhe, mas não pense que todos os sonhos se realizarão
    Quando você perceberá? Vienna espera por você.”

    Por mais que tentemos correr de nosso destino, ele nos encontra e nos faz cumprir nossa missão, mesmo que tudo o que sonhamos não teha passado de uma doce ilusão.

    Michael sempre será um exemplo pra mim, do que fazer e do que não fazer pra ser imortal na memória das pessoas. Eu sempre o amei, sei disso mesmo antes dele morrer.

  2. Delph - Cris · julho 1, 2009

    Assino embaixo de tudo que você disse, Yasmim. Sofri muito quando soube da morte dele, quem quiser saber detalhes, vai no link do meu blog que a Yas postou (obrigada, Yas). E a sensação que a gente tem mesmo é de que o Michael era imortal mesmo, não no sentido figurado.

    Agora com esse estouro de informações da mídia ficamos sabendo que não era bem assim, a saúde dele era frágil, no fim da vida ele estava com apenas 51 Kg. Essa novela sobre herança, CDs vendidos, vida difícil ainda vai encher a mídia de assunto por muito tempo, muito mesmo.

    Particularmente, acho que Michael é como aquele discurso do Getúlio antes de se matar: “saio da vida para entrar pra história”, ou algo assim.

  3. Lau · julho 1, 2009

    *pula da cadeira e aplaude de pé*

    Yas, sempre me surpreendo com a sua eloquencia! Qdo vc for famosa, eu vou poder me gabar que te conheci antes da fama! Acho que vc está completamente certa; perde-se a pessoa em favor do idolo. Outro big exemplo? A minha fofa e amada Brit, que nunca teve tempo de descobrir quem ela era no meio do circo e foi ficando cada vez mais apertada, apertada, até que explodiu e quis se livrar de tudo – até da calcinha….

    O mundo de hj parece q ñ tem mais limites!

  4. Evelyn Wagemacher · julho 2, 2009

    Yasmim,
    Eu particularmente não gosto de Michael Jackson, mais eu li todo o seu coméntario sobre esse grande rei pop, e concordo com o que você falou nele.
    Parabéns bichaa!!!

  5. Mariana · julho 4, 2009

    Nossa, Yas! Simplesmente amei esse seu post!
    Demorou alguns dias para cair minha ficha. Não era possível que ele tivesse morrido. Sabe quando você não se preocupa em pensar como seria o mundo sem uma certa pessoa? Pois é. Eu nunca tinha parado para refletir sobre a morte de Michael Jackson. Parecia algo muito distante da realidade. Mas aconteceu, e eu ainda estou lamentando isso.

    A música nunca terminará, mas que um pedacinho dela morreu, isso sim. Uma lacuna foi aberta, e eu duvido que seja preenchida novamente, porque as pessoas são únicas; e, no mundo da música, não é diferente.

    Morreu o cara que andava pra trás. Jamais existirá outro alguém que faça um Moonwalk tão… Michael Jackson. Jamais.

    O corpo de MJ pode não estar enterrado no seu tão amado rancho, mas certamente sua alma descansa em Neverland. Porque ele era Peter Pan, mesmo que no coração.

  6. Gustavo · julho 12, 2009

    Yasmim hu hu ! fico besta como tu escreve bem XD
    e michael jackson nam foi nada pra mim XD nem gostu das musicas dele
    quando ele morreu nam fiquei triste como todo mundo fala que ficou so ahcei uma pena pq ele tinha talento pra dançar ahauahuahau
    aahauh
    E o blog ta mara
    bjao linda sucesso!!

  7. Ane · julho 18, 2009

    Queria comentar algo que fosse mais que um “Parabéns, o post está ótimo!”, mas não sei o que dizer. Simplesmente, estou sem palavras. Parece que, no post, estava exposta a minha opinião sobre Michael Jackson. Nunca gostei ou odiei Michael, mas sempre o respeitei. Michael sempre será um grande ídolo, morto ou não. Há pessoas que o odeiam, porque mudou o tom de pele – Ana que o diga -, mas, há pessoas que o odeiam, por causa das polêmicas mundo a fora. Eu não consigo acreditar que ele abusou de um menino, não consigo. E também, aquilo que ele fez com o filho, bem, ele estava segurando-o firmemente.

    Well, Michael sempre será “rei”.

    Odiando-o ou não, sempre será “rei”.

    ” (…)

    Então acabe comigo se isso te faz se sentir bem
    E me odeie agora se isso te mantém bem
    Você pode acabar comigo se isso está em seu poder
    Pois eu sou muito mais do que todas suas mentiras (…)”

    Breakdown, Seether

    Aliás…

    PARABÉNS, YAS!

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