Cabanagem, o passado esquecido do meu povo

Eu digo que tenho orgulho e vergonha de ser paraense. Orgulho por que amo a minha terra, amo o fato de nós sermos um pedaço da mata amazônica e amo o verde selvagemente escuro das árvores nas avenidas da cidade, amo meu sangue indígena e caboclo, amo até mesmo meu rosto, feio para os padrões estéticos sociais vigentes, mas puramente paraense, pelo menos, assim creio.

Pois é, aqui que eu moro...

Só que odeio do fundo do coração o fato de que, durante o período regencial, foi aqui no Norte, no Grão Pará, que tivemos a única república democrática e que absolutamente quase ninguém sabe disso. Digo quase ninguém por que, à exceção dos acadêmicos da região, o povo é terrivelmente desinformado desse acontecimento histórico tão importante.

Eu penso nas disparidades Sul-Norte e vejo que até nisso somos, apesar de todos filhos da mesma pátria, diferentes. No Rio Grande do Sul todos conhecem e comemoram a Revolta Farroupilha e todos, pelo menos aparentemente, são conscientes do passado histórico da região. Aqui no Norte, saia nas ruas para perguntar os nomes dos líderes da cabanagem e se ao menos uma pessoa souber, dê glória a Deus.

Claro que a ignorância popular não é totalmente voluntária, o Estado daqui nos aprouve com uma péssima educação, mas sendo clara eu acho que o povo e quando uso o termo, abranjo não só a massa, mas mesmo os mais, supostamente, cultos paraense é terrivelmente preguiçoso. Eu queria saber de onde vem a capacidade de, no único momento em que um rebelião popular [ainda que sim, admito, liderada pela oligarquia pensante do Pará, que almejava maior participação política] conseguiu chegar a tomar a capital da província e cidades satélites na Amazônia tão poderosas quanto, como Óbidos,  como, meu bom Deus, e isso não passa nessa minha cabecinha, como, como, COMO esse fato tão importante de nossas origens e formações, pôde ser esquecido tão facilmente.

Nem foi aqui, mas quando vejo as comemorações da semana farroupilha, sinto-me até orgulhosa também tenho conhecidos por lá, como minha adorada gaúcha Mariana por não deixarem morrer o fogo da contestação que uma vez juntou a massa sofrida do povo rio grandense e a oligarquia politizada. Outra região do país que me deixa orgulhosa é o Rio Grande do Norte e aqui, tenho testemunhas que esse povo tem o sangue arretado, vide minha grande amiga, Fabi onde são tantas e tão diversas as revoltas e movimentos de contestação, que se formos narrá-los um a um, talvez desse um livro. A Conjuração Mineira e aqui entra outra grande amiga, Cristiane também causa-me orgulho, apesar desta ter sido realizada pela classe mais abastada da então capitania de Minas Gerais.

O símbolo da Conjuração

Mas voltando ao centro do post, a Cabanagem. Não pensem que sou suficientemente crédula para ver de forma romanesca e romanceada o movimento. Sei que os cabanos eram terrivelmente violentos e eram ladrões, sei que bebiam e que não havia nenhuma moça loira dos olhos azuis e nenhuma história bonita e blá blá blá. Os cabanos eram o povo suado que vinha sendo miseravelmente tratado desde o começo da colonização, eram os caboclos, mulatos, negros e índios que não tinham direito a humanidade. Deixem-me ilustrar o meu pensamento sobre a cabanagem com trechos de uma leitura obrigatória magnífica, “O Rebelde”, de Inglês de Sousa.

[…] os cabanos! Uns pobres-diabos que a miséria levou à rebelião! Uns pobres homens cansados de viver sob o despotismo duro e cruel de uma raça desapiedada! Uns desgraçados que não sabem ler e que não tem pão… E cuja culpa é só terem sido despojados de todos os bens e todos os direitos.

[…]

Era como um protesto ambulante contra a civilização egoística e interesseira dos brancos, a miséria popular com todo o seu cortejo de vícios hediondos e de crimes heróicos.

[…]

Que o tapuio boçal, ignorante, era instrumento movido por sentimento nobre, habilmente manejado, o sentimento religioso e nacional, mas quem tinha a culpa disso era a raça dominante, pois queria conservar o caboclo na mais completa ignorância.

[…]

 A cabanagem não era mais do que um prolongamento sangrento e brutal, é verdade, mas lógico, da Revolução de 7 de abril.”.

Citadas as sábias palavras de Inglês de Souza, concluo o que almejei dizer: A Cabanagem não é nada romanesca ou bonitinha, não é matéria para globo mostrar, pois não beneficia quem a interessa, mas foi o movimento do meu povo oprimido e massacrado, esquecido e subjulgado, foi o grito dos excluídos, dos miseráveis e dos depreciados. Sim, foi brutal, matar, estuprar e roubar, não há nada de belo ou nobre nisso, mas, se olharmos para trás, será que os pereceram sob o julgo animal dos cabanos foram mais do que o próprio povo dos cabanas antes? Eu acho que a resposta é não.

Não estou justificando a violência, sem dúvidas os homens e mulheres que fizeram essas brutalidades não saíram impunes, nem perante a justiça dos homens, nem perante a de Deus, que, concordemos, é a que mais vale. Mas temos que encarar, o homem é o reflexo da sua sociedade, como Maquiavel dizia, e quem moldou o sentimento de raiva violenta e sanguinária dos cabanos foram as próprias vítimas deles, que impuseram anos de perjúrio e escravidão a quem o único diferencial foi ter nascido em uma etnia discriminada pelos portugueses.

Então, concluindo; a Cabanagem não é um sonho idílico nem uma bela utopia onde os caboclos, negros e índios deram-se a mão, giraram numa bela ciranda e confraternizaram com os grandes proprietários de terras do Grão Pará, em plena paz e igualdade. Houve sim, um dominío da massa, alienação e afins, mas se os burgueses controlaram a Revolução Francesa, como não controlarariam a Cabanagem a elite paraense?

Os cabanos

Mas, tenho orgulho desse grito de liberdade dado por meu povo, há tantos e tantos séculos atrás, que, apesar de um desfecho sem êxito, sinalizou que o povo do Pará, ao menos no momento, chegou a contestar a ditadura ao qual era acorrentado.

Ademais é bom saber que foi desenvolvido, pela Federal daqui, um jogo sobre a cabanagem unindo os estudantes de história e de informártica e também que eu comecei um projeto de vídeos que visa resgatar a cultura tão negligenciada dos paraenses, o primeiro vídeo, já sobre a Cabanagem, consta no YouTube:

Para encerrar, deixem-me mostrar-lhe o título que um estudioso deu à Cabanagem:

A hora da desforra

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6 comentários

  1. Delph · novembro 3, 2009

    Brasil teve tantas revoluções e nenhuma vingou. Pq só nos EUA deu certo?

  2. Lali · novembro 8, 2009

    Todo mundo recebe dois tipos de educação: a regular, que vem da escola, e a continuada, que vem do seu ambiente. O ambiente geralmente é dominado pela mídia (TV, internet, revistas, jornais), porque cada vez mais os pais não tem mais controle sobre a educação dos filhos fora da escola.

    Aqui no Brasil o grande problema é que a educação regular é muito fraca, e há uma espécie de “propaganda negativa”, que é feita à escola. É tipo senso comum que escola é uma droga e tudo o que ensinam lá é um porre e não vale a pena. Isso faz com que, mesmo os alunos que tenham acesso à boa educação, ignorem o que quer que o professor esteja dizendo lá na frente, porque afinal, “todo mundo sabe que ele é um chato”.

    Desse modo, a educação acaba ficando todinha na mão da mídia. E a mídia, atualmente, faz um verdadeiro culto ao futuro. Coisas boas são coisas do futuro: celular do futuro, computador do futuro, tv do futuro, moda do futuro. O passado é cada vez menos valorizado pelos jovens.

    É claro que o efeito colateral disso é muito feliz pros governantes: um povo sem memória, amnésico e idiotizado, que tá mais preocupado em fazer o que a TV manda do que pensar sua própria existência e função no mundo.

    É foda, mas… o mundo é esse e a humanidade é essa. (y)

  3. Mandy · novembro 9, 2009

    Nossa, q texto ótimo… realmente o que sei de Cabanagem foi o que me competiu a matéria do vestibular, e sinceramente, depois das Síndromes de Goodpasture, Waterhouse Friederiksen, Henoch Scholein e etc fiz questão de esquecer pra abrir espaço no HD.

    Mas realmente é algo que todos deveriam saber e se orgulhar. Não só da Cabanagem, mas da guerrilha do Araguaia (outra mto esquecida), por serem movimentos populares do povo contra seus opressores.

    Tenho um amigo da UFPA que foi um dos “elaboradores” do dito jogo, e realmente, fora alguns bugzinhos, o conteúdo histórico é mto válido e o jogo é bem divertido até! (joguei a 1ª fase na casa dele XD)

  4. Mandy · novembro 9, 2009

    resposta à Delph: pq eles tiveram apoio da tropas Francesas q queriam dar o troco na inglaterra. Só por isso u.U”

  5. Angel · fevereiro 15, 2010

    Oi Querida,
    sabe porque ninguem presta atenção a cabanagem?
    por que o que temos de história oficial e escrita, é história mal contada querem nos fazer engolir um conto de fadas que não existiu.
    sou de Óbidos e aqui todo mundo sabe a carnificina que foi e invasão cabana. O patriarca da minha família foi brutalmente assassinado e ele era um pobre açoriano emigrou para o brasil fugindo de uma situação de miserabilidade extrema que vivia de plantar cacau, nunca teve dinheiro para comprar um escravo. e ele foi esquartejado, isso é uma ferida aberta na nossa sociedade, eu não tenho orgulho disso acho que não podemos e não devemos negar nosso passado pois só assim aprendemos com nossos erros mais ” falsificar” fatos para torna-los aceitáveis tira a credibilidade e passa para o patamar das lorotas históricas. Prefiro ver esses “líderes heróis” na lata do lixo da história do que fazer apologia a tanta violência.

  6. MAURICIO · setembro 3, 2011

    Brilhante o seu texto ! nós não podemos deixar perecer a memória dos que morreram lutando pela liberdade, a mesma liberdade que hoje o governo, assim como o Império daquela época têm cerceado, com total abandono, sem direito à vida, onde as classes dominantes tentam apagar com mentiras A HISTÓRIA de um povo.

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