Meus heróis morreram de overdose…

“[…]

Meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver

[…]”.

 

 

Acho que quando a gente começa a ouvir Cazuza antes dos vinte com a maior vontade de chorar é por que o negócio tá grave. Se alguém tiver uma opinião diferente, pode manifestá-la, mas eu acho isso. Ou seja, o negócio para mim está grave.

Em primeiro lugar, antes de começar minha longa reflexão sobre o quase calamitoso estado em que estou, vou agradecer à Deus e a todos que torceram por mim, pois consegui me sair muito bem na segunda fase do processo seletivo da universidade estadual do Pará, então, apesar de estar num momento meio melancólico, também estou extremamente grata e extremamente feliz por ter conseguido passar. Aliás, os estudos para o vestibular também foram os responsáveis por meu periódico afastamento do blog.

Vamos agora ao post.

Bom, já faz um tempinho que eu me sinto numa espécie de Góbi para quem não conhece, Góbi é um deserto na Mongólia. Eu vivi muitas coisas esse ano, e acho que as que mais me afetaram foram a separação dos meus pais e perda de uma grande amizade. Posso dizer que perdi uma parte da minha alegria infantil, aquela que fazia meus dias todos serem repletos de novas descobertas e de felicidade quase initerrupta, que me fazia uma Yasmim criativa e persistente, sempre positivista e otimista. Perdi também algo do romanesco romantismo que me fazia ser esperançosa e me fazia uma fortaleza nos momentos difíceis. Creio que contribuiu para a perda desses dois elementos que eram fundamentais em minha pessoa  o fato de ver a pessoa que mais amo nesse mundo definhar num sofrimento quase lacerante e ver a outra que eu mais amava se transformar quase em um monstro irreconhecível.

Para quem achar que esse meu discurso é dramático demais, pode parar por aqui. Se alguém vier com esse papo de que “há problemas piores que o seu” vou mandar parar na hora. Eu sei que há problemas muitíssimo piores que o meu, sem dúvida, eu vejo a situação da África, vejo as pessoas paraplégicas e cuido da minha avó cega, e as tantas outras incontáveis desgraças do mundo. Mas eu não ignoro meus conflitos. Sei que talvez esteja “reclamando de barriga cheia”, mas não posso ajudar quando sinto que estou, aos poucos, me perdendo dentro de mim mesma, como se algo da minha essência estivesse sendo inevitavelmente esfacelado e, para evitar isso, vou tentar usar as armas que sempre me auxiliaram, minhas palavras.

No começo, eu acionei um mecanismo que parecia me anestesiar contra toda a angústia, mas isso começou a me fazer perder a minha sensibilidade e logo deixei todos os sentimentos me inundarem, e me vi quase afogada em magóa e desespero. Assim, lá estava eu, além dos enigmas da pubescência juvenil via-me na encruzilhada de escolher entre o sentir demais e o nada sentir… Como toda boa leitora de Alváres de Azevedo, como romântica subjetiva quase desde o exato instante que nasci, escolhi o sentir demais.

Em meio ao meu desenfreado “sentir demais” percebi, quase atônita, o óbvio; eu estava amadurecendo.

Aquilo sobre o que lia tanto desde a infância, sobre as disparidades da fase adulta e do começo tão mágico da vida estava se concretizando em mim mesma e eu, aos quinze anos, estava apenas começando a lidar com os conflitos que a vida dispõe para cada um de nós. O problema é que eu me sentia tão fraca e miúda diante da persperctiva de mudança que me afundei dentro de um casulo desconfortável e escuro, mas que ao menos vedou momentaneamente minhas dúvidas e medos.

“[…]

Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato
Que eu nem acredito
Ah! eu nem acredito…

Que aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Frequenta agora
As festas do “Grand Monde”…

[…].”.

Eu acho que esse trecho define bem o que sinto atualmente… Me sinto algemada, estagnada e com medo. Sinto que, daqui a pouco, todas as minhas cristalizadas ideologias e objetivos para modificar a sociedade em que vivo podem virar apenas mais uma balela de uma burguesinha depressiva. E Deus sabe que morro de medo de que isso aconteça. Deus sabe que quero botar às mãos na massa e fazer alguma coisa. Mas sinto como se estivessem envenenando lentamente minha resistência, minando pouco-a-pouco minha capacidade de sonhar e concretizar o sonho.

Honestamente, eu precisava escrever isso. Estava entalado aqui dentro há tanto tempo… Minhas amigas podem atestar isso melhor que eu, perguntem para qualquer uma delas. Talvez esse post pareça incoerente e talvez o seja, a autora dele está tão firme quanto gelatina nesse momento e, neste exato instante, enquanto ouço ideologia, me dá uma retumbante vontade de chorar.

Mas aqui está, eu pus pra fora. Vomitei tudo que, há meses, crescia dentro de mim como uma árvore de frutos malignos. Se esse post não servir de nada para quem o ler, ao menos serviu para mim… Pois como dizia Cecília Meireles;

 

“Eu canto porque o instante existe

[…]

 Irmão das coisas fugidias,

[…]

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

[…]”. 

 

Eu quero uma para viver

Eu quero uma para viver...

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1 comentário

  1. Luana · dezembro 2, 2009

    Sabe yas, sinceramente vc está escrevendo cada vez melhor.
    Este post foi tão tocante, que eu não sei o que comentar.
    Tudo parece muito estúpido comparado a isso.

    Ás vezes eu me pergunto se tudo que eu penso está certo, não existe mais certeza de nada. As pessoas são manipuladas, uma uma completa apatia. É frustante….

    Sem palavras

    Parabéns….

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