A Última Tentação

A dualidade da natureza de Cristo – a necessidade, tão humana, tão sobre-humana, do homem de atingir Deus – tem sido um mistério profundo e insondável para mim. Minha principal angústia e a fonte de todas minhas alegrias e sofrimentos desde a juventude tem sido a incessante, impiedosa batalha entre o espírito e a carne… E a minha alma é a arena onde estes dois exércitos têm lutado.

 
Nikos Kazantzakis

 

A ti, Senhor, gritei que estava puro
E na natureza ouvi a tua voz.
Pássaros cantaram no céu
Eu olhei para o céu e cantei e cantei.
Senti a alegria da vida
Que vivia nas flores pequenas
Senti a beleza da vida
Que morava na luz e morava no céu
E cantei e cantei.

 
Purificação – Vinicius de Moraes

 

Como beber dessa bebida amarga;
Tragar a dor e engolir a labuta?
Mesmo calada a boca resta o peito.
Silêncio na cidade não se escuta.
De que me vale ser filho da santa?!
Melhor seria ser filho da outra;
Outra realidade menos morta;
Tanta mentira, tanta força bruta.

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue…

Cálice – Chico Buarque

 

Esse texto seria uma resenha sobre o filme A Última Tentação de Cristo.

Mas seria impossível escrever sobre um filme que mexeu tanto comigo sem escrever sobre a minha trajetória espiritual ao longo da minha vida, logo farei um tipo de confissão para que possam entender a relevância desse filme para mim.

Por ser uma criatura passional, eu nunca consigo lidar muito bem com algo que me é imposto. Eu preciso genuinamente me interessar, para conhecer, para explorar, para poder amar de verdade algo.

Agora imaginem o quão difícil foi para eu, quando criança, aceitar o catolicismo. A sociedade em geral e a mídia em particular impuseram-me um homem-deus crucificado perfeito e inquestionável. Eu nunca consegui sequer aceitar, quiçá amar a figura de Jesus durante minha infância – apenas sentia, no mais íntimo de mim, medo e desconfiança.

Na pré-adolescência virei pagã após o contato com As Brumas de Avalon. Sim, eu louvei a Deusa – isso gerou enormes conflitos com minha melhor amiga. Aos quinze anos eu já havia largado o paganismo, entrado em contato com o espiritismo e também com a umbanda, agreguei muitos dos valores de cada uma dessas religiões para mim e sei que há beleza e sabedoria em cada uma delas. No entanto, o fato de não ter uma religião definida a seguir me desnorteava bastante. Foi então que decidi voltar ao catolicismo da infância.

Claro os dogmas por ventura tornaram esse retorno fracassado, mas algo de extremamente bom eu tirei dessa volta: Finalmente confrontei minhas dúvidas e hesitações em relação a Cristo – consegui assumir que todo meu conflito era porque eu não conseguia aceitar aquela imagem pronta, inquestionável. Eu precisava muito mais, precisava, no mínimo, buscar entendê-la.

E foi assim que eu decidi, apesar de não ter vingado na minha volta ao catolicismo, buscar por Jesus Cristo da única forma que eu, com minha mente inculta e limitada, poderia: através da humanidade – o ponto comum, entre todos nós, pecadores falhos, e Ele. Por que o milagre do sacrifício de Cristo não seria tão grande se ele não fosse, também, de carne (“este pão…”) e sangue (“este vinho…”).

Então comecei com o livro “Jesus, o maior filósofo de todos os tempos”. Apesar de também ser recheado de dogmas, muitos dos quais discordo veementemente, esse livro teve o mérito imprescindível de me fazer enxergar, pela primeira vez, o Amor em Jesus. E eu comecei, também, de uma forma discreta e vaga, quase sutil, a amar a Cristo.

Comecei a rezar o Pai Nosso – algo que eu nunca fizera com freqüência – toda noite antes de dormir – eu sempre rezara Ave Maria, sempre amei Nossa Senhora, apesar de minha controversa relação com seu filho. Li então, numa manhã sem aula na faculdade, algumas palavras de Nietzche sobre Deus – não sejam ignorantes e não interpretem-no mal, Nietzche desprezava a Igreja, mas não Deus tampouco Jesus – e fiquei encantada, a visão do pária alemão em muito correspondia a minha.

Daí continuei avançando no meu conhecimento sobre Jesus, despi-me de muitos preconceitos em relação ao Novo Testamento, li algumas de suas parábolas e me encantei totalmente com a retórica de Jesus – que superou até a de Sócrates, algo que eu sempre pensei ser impossível para qualquer um – até que cheguei ao livro de Saramago, O evangelho segundo Jesus Cristo.

A obra é incrível – tão cru e realista quanto qualquer conto de Objecto Quase, mas com um lirismo tão profundo e inesperado que encontrar a poeticidade filosófica e espiritual do texto é delicioso como provar o ardiloso sabor do chocolate com pimenta. Foi essa narrativa surpreendente que me motivou a ver um filme que eu a muito engavetara, após comprar ao mero acaso nas lojas Americanas, A Última Tentação de Cristo. E aqui começarão os SPOILERS.

A fotografia já me pegou de cheio, é algo totalmente avesso do típico padrão perfeccionista hollywoodiano; é cheio de cores quentes e variações abruptas entre luz e sombra, dando ênfase a ruídos – dando a surreal impressão de que as cenas do filme são, em certos momentos, do ponto de vista do próprio Jesus, o que é reforçado pelos curtos pensamentos Dele que ouvimos irrompendo de forma súbita no meio de cenas.

E depois vem aquela imagem totalmente atormentada, totalmente decomposta de Jesus, quase como olhar o filho de Maria por dentro, para ver um calidoscópio de sofrimento e dúvidas – era ele o messias? Ou só mais um tentado pelo demônio?

E a medida que ele se fortalece e purifica, ele assume sua posição como filho de Deus. E a primeira cena em que isso acontece é quando ele salva seu amor impossível, Maria Madalena, do apedrejamento. É uma cena fantástica – que evidencia a química entre os atores que protagonizam Jesus e Madalena – e tem uma fala marcante: “Eu senti ódio quando os vi apedrejando Madalena, mas quando abri minha boca falei sobre amor.”.

O filme segue o curso “normal” até a crucificação – Jesus encontra João Batista, chega a Jerusalém, instrui Judas a traí-lo, confronta-se com Judas, é preso e torturado, recebe a coroa de espinhos e é pregado a cruz. Uma cena fantástica nessa sequência que obedece aos evangelhos é quando Jesus, num exílio voluntário no deserto, enfrenta tentações – a cobra (o egoísmo), o leão (a ganância) e o fogo de Lucífer (o falso poder).

Mas então um anjo resgata-o.

E ele se casa com Maria Madalena e suas chagas são curadas por ela, no que se sucede a polêmica cena de sexo entre Jesus e Madalena, algo de infartar qualquer católico mais ferrenho – mas não é uma cena vulgar, muito ao contrário, é bela e cheia de amor totalmente favorecida pelo romance platônico que precedia a história de ambos.

Madalena morre, grávida. O anjo guia Jesus a outra mulher, Maria, a irmã de Lazáro. Jesus se casa e tem filhos, vive uma vida normal com família e filhos. Até que ele encontra o, agora, apóstolo Paulo pregando sobre a vinda, a crucificação e a ressurreição de Jesus Cristo. Jesus corre até ele revoltado e diz que ele é um mentiroso, mas Paulo apenas responde dizendo que não importa se ele era Jesus ou não; o Cristo era a salvação e o acalento para milhares de pessoas que Nele acreditam.

Essas palavras incomodam profundamente o filho de Maria, trazendo a tona todo o arrependimento de ter abandonado a cruz.

Jerusalém é atacada e Jesus, já um ancião tanto quanto o Batista que conhecera, fica a beira da morte. Os seus antigos discípulos vão encontrá-lo – Nataniel, Pedro, João e Judas. E segue-se o que talvez seja esse o discurso mais emocionante do filme; Judas chama a Jesus de traidor por ter escapado do sacrifício e diz que ele fora covarde ao recusar o papel de redentor, de caminho para união entre Deus e a humanidade.

Jesus, prostrado a cama, começa a sangrar nas mãos, como se pregos perfurassem suas mãos. Ele tenta explicar a Judas que um anjo o salvara, mas os apóstolos mostram-no que o tal anjo é, na verdade, o mesmo Satanás que o tentara anos antes no deserto.

Jesus sai rastejando da cama e vai até um monte, pede perdão ao Pai e ganha a segunda chance. A próxima cena é a volta a crucificação. Jesus olha aos dois ladrões, as pessoas pedindo pela morte dele e para as quatro mulheres – dentre as quais sua mãe Maria e sua amada Madalena – ajoelhadas de preto próximas a sua cruz.

Ele fecha os olhos e sorri.

E diz “Está feito.”.

O filme não é meramente uma produção cinematográfica… É uma obra de arte! Explora o conflito, o drama, a Paixão, o amor impossível, a tentação, a vida e a sublimação de Jesus Cristo, de um modo incrivelmente humano. E essa é a grande vitória do filme, trazer o Jesus humanizado e atormentado para perto do telespectador, fazê-lo confiar naquela figura tão atormentada quanto qualquer um de nós, imerso na aura do eterno conflito entre carne e espírito.

Sem dúvida, genial. Para agradar fiéis e ateus.

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2 comentários

  1. Catarina · abril 26, 2011

    Explanação brilhante! Não esperava menos de você!

  2. cybermagnetik · maio 19, 2011

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