What the Water Knows

Um estudo sobre o significado místico da água nas músicas de The Doors e Florence + The Machine

A terra é o berço e o sepulcro final para nós, pois dela vivemos, dela viemos e para ela retornaremos. Mas o que dizer da água?
Semelhante a Terra, ela é um berço, mas um berço maior, mais abrangente, se for verdade o que os cientistas defendem tão veementemente que a vida começou na água.
Para Arte a água assume uma intensa conotação espiritual, alguns dos referenciais mais fortes talvez sejam, na ficção, o suicídio icônico de Ofélia em Hamlet de Shakespeare e, na vida real, o suicídio de Virginia Wolf. A água que trouxe a vida é a mesma que trás a morte, o nêmeses tão desejado para certos seres atormentados.
Na religião, a água é louvada universalmente – seja a água benta para cristãos ou o rio Ganges para o hinduísmo – e assume de forma ainda mais forte a idéia de conectora – em algum nível – com o divino.
Na música, foram duas canções que amo que me despertaram a consciência para essa forte conexão entre a água e a alma, ou pelo menos a parte lírica da mente humana, que são Yes, The River Knows da banda norte-americana The Doors e What the Water Gave Me do grupo britânico Florence + the Machine.
Em linhas gerais, ambas as músicas têm essências semelhantes. Falam sobre sacrifício, sobre passagem e sofrimento, embora possam assumir outros sentidos dependendo da interpretação.
Na canção dos Doors, o trecho de abertura é o seguinte:

Please believe me
Por favor, acredite em mim
The river told me
O rio me contou
Very softly
Muito de leve
Want you to hold me, ooo
Que quer que você me abrace

Pelo modo como Morrison canta, dotado de uma suavidade fatalista, parece um apelo. Apelo por clemência, por uma última chance ou, quem sabe, apenas por um pouco de afeto.
No começo da música da britânica Florence Welsh, nota-se uma leve semelhança:

Time it took us
O tempo nos levou
To where the water was
Para onde estava a água
That’s what the water gave me
Foi isso que a água me deu
And time goes quicker
E o tempo passa mais rápido
Between the two of us
Entre nós dois
Oh, my love, don’t forsake me
Oh, meu amor, não me abandone
Take what the water gave me
Leve o que a água me deu

Embora a abertura seja mais longa que na música do Doors, percebemos também o mesmo apelo. Talvez mais desesperado e intenso, enquanto o eu-lírico também declama sobre o que a água lhe deu. Também vemos por essas primeiras estrofes que para Jim Morrison & Cia, o rio adquire uma faceta ligeiramente mais personificada, como um ser com vida própria. Para Florence, a água está funcionando como um elemento com conotações transcendentais.
No seguimento da música composta por Jim, vemos o entoar de algo que se assemelha a um mantra, não que as palavras sejam litúrgicas, mas pelo fato de o cantor as pronunciar como se estivesse orando, com uma cadência incrivelmente suave:

Free fall flow, river flow
Fluxo da cachoeira, fluxo do rio
On and on it goes
sempre em frente
Breath under water ‘till the end
Respire embaixo d’água até o fim
Free fall flow, river flow
Fluxo da cachoeira, fluxo do rio
On and on it goes
sempre em frente
Breath under water ‘till the end
Respire embaixo d’água até o fim
Yes, the river knows
Sim, o rio sabe

É quase impossível, para mim, não pensar numa metáfora suicida nas palavras acima – principalmente em “Breath under water ‘till the end” – de alguém que aceita entregar o corpo e a vida ao rio – “Free fall flow, river flow/ On and on it goes” – e que acredita na supremacia do Rio, que parece agir como uma entidade que aceita um sacrifício – “Yes, the River knows” embora também possamos assumir uma referência espiritual ou até mesmo existencial, com o fluxo do rio representando a passagem das experiências nas vidas ou sobre o amadurecimento da alma.
A coincidência do verso seguinte que o refrão da música de Florence seguir a mesma linha é quase irônica:

Lay me down
Deite-me
Let the only sound
Deixe que o único som
Be the overflow
Seja o transbordamento
Pockets full of stones
De bolsos cheios de pedras

A própria cantora declarou que a música foi inspirada pelo suicídio de Virginia Wolf – que se matou na manhã de 28 de março de 1941, entrando com os bolsos cheios de pedras no rio Ouse. Nas palavras de Florence, não há metáfora nenhuma, a referência do suicídio é clara e onipresente.
As partes posteriores de ambas as músicas parecem sair do elemento aquático para se focar nos sentimentos dos eu-líricos de cada canção, majoritariamente focados no desespero. Na música dos Doors, há o seguinte trecho:

Please believe me
Por favor, acredite em mim
If you don’t need me
Se você não precisa de mim
I’m going, but I need a little time
Estou indo embora, mas preciso de algum tempo
I promised I would drown myself in mystic heated wine
Prometi que iria me afogar em vinho místico aquecido

Aqui há um pedido de postergação do abandono. A voz da música – a rouca, sensual, cavernosa voz de Morrison – clama por mais algum tempo, apenas poucos momentos – seja para aproveitar a companhia do outro que será abandonado ou para se preparar para o sacrifício. Aqui o Rio se transforma, a substância da água se torna mais que meramente o líquido transparente e adquirindo uma conotação claramente mística – “I promised I would drown myself in mystic heated wine” – e tornando-se um veículo do transcendental ao promover a passagem do eu-lírico para um outro nível, aquém da angústia.
Os versos de Florence Welsh seguem dessa maneira:

And don’t pour at us
E não derrame sobre nós
The world’s beast of a burden
O fardo selvagem do mundo
You’ve been holding on a long time
E você já está aguentando há muito tempo
And all this longing
E toda essa saudade
And the shields are left to rust
E os escudos ficam para enferrujar
That’s what the water gave us
Foi o que a água nos deu

Na voz da fada ruiva da Bretanha, há uma expressão semelhante, a demonstração de alguém desgastado por várias experiências e que se vê longe da paz tão almeja, junto de alguém – se você tomar o verso “You’ve been holding on a long time” numa óptica intimista, ou seja, do eu-lírico falando por si, mas com alguém –, diferente dos versos Morrisonianos, porém não há a evidência clara de um abandono iminente, embora também haja sugestão de infelicidade.
Há duas estrofes a mais na música da britânica:

‘Cause they took your loved ones
Porque eles levaram nossos amados
But returned them in exchange for you
Mas os devolveram em troca por você
But would you have it any other way?
Mas você faria de outra maneira?
Would you have it any other way?
Você faria de outra maneira?
You could have had it any other way
Você poderia ter feito de qualquer outro jeito

 

‘Cause she’s a crueller mistress
Porque ela é uma senhora cruel
And the bargain must be made
E a barganha deve ser feita
But oh, my love, don’t forget me
Mas oh, meu amor, não se esqueça de mim
When I let the water take me
Quando eu deixar a água me levar

Na primeira parte, parece haver uma reflexão mais geral sobre as pessoas que morreram na água – evidenciando a natureza ambígua do elemento; capaz de trazer redenção em sua tranqüilidade tanto quanto destruição em sua fúria – e a segunda parte torna-se novamente pessoal, enquanto dissertando sobre um sacrifício – “And the bargain must be made” sobre a dama cruel do verso anterior, que parece ser uma referência a Virginia Wolf – tanto quanto sobre a entrega pessoal “When I let the water take me”, que parece dialogar diretamente com o verso de Jim “I promised I would drown myself in mystic heated wine”.
A finalização da música da britânica é a repetição do mantra subaquático;

Lay me down
Deite-me
Let the only sound
Deixe que o único som
Be the overflow
Seja o transbordamento
Pockets full of stones
De bolsos cheios de pedras

O encerramento da canção da banda norte-americana também é uma repetição das suas três primeiras estrofes, com algumas diminuições:

Please believe me
Por favor, acredite em mim
The river told me
O rio me contou
Very softly
Muito de leve
Want you to hold me, ooo
Que quer que você me abrace

I’m going, but I need a little time
Estou indo embora, mas preciso de algum tempo
I promised I would drown myself in mystic heated wine
Prometi que iria me afogar em vinho místico aquecido

Free fall flow, river flow
Fluxo da cachoeira, fluxo do rio
On and on it goes
sempre em frente
Breath under water ‘till the end
Respire embaixo d’água até o fim
Free fall flow, river flow
Fluxo da cachoeira, fluxo do rio
On and on it goes
sempre em frente
Breath under water ‘till the end
Respire embaixo d’água até o fim

Esses finais têm em comum o abandono de toda a esperança e a entrega absoluta, total ao único meio que poderia trazer paz aos espíritos dos eus-líricos atormentados das canções – o mesmo meio de Ofélia, Virginia Wolf e tantos outros – a água.
As músicas despertam diferentes sensações e são bastante diferentes; a do Doors é mais suave e com um ritmo solene e litúrgico, a de Florence é mais desesperada e com uma balada selvagem e pagã, mas ambas são, essencialmente, fatalistas, filosóficas – pois inevitavelmente o fluxo de um rio ou da água em si mesma nos lembra o correr de nossas vidas, tão turbulentas quanto um mar revolto – e evocam uma transcendência inevitável.

Por Yasmim Deschain

Para conferir:

The Doors – Yes, The River Knows

Florence + The Machine – What The Water Gave Me

e um extra, Jim + Florence:

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3 comentários

  1. Vitor Dantas · setembro 5, 2011

    Nossa, ficou ótimo. Confesso que eu tava um pouco confuso com o que a Florence queria passar com a letra da música, mas você deu uma clareada legal na minha mente. Parabéns!

  2. Damien Black · setembro 6, 2011

    Adorei. MUito, muito boa a sua comparação, ambas as músicas são lindas, lindas mesmo, mas a da Florence é mais mística, você sente todo o poder da água. Não conhecia ainda essa música do The Doors, e adorei. *-* De novo, muito ótima sua comparação.

  3. renanenrique · setembro 16, 2011

    adorei a comparação, de verdade! coloquei what the water gave me na minha página também, by the way.

    lindo, e tô te amando, pode? você escreve muito bem!

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