Looking for Heaven for the Devil in Me – Conto

Nota (ácida) da autora:

a melação  de cueca/calcinha a seguir surgiu na minha mente vagabunda e romanceadora num ócio raro que minha vida corrida permitiu. É focado no mais recente eixo de minha inspiração: Jim Morrison e Florence Welch. É especificamente sobre eles dois juntos, em Paris. Bom, as últimas coisas que eu tenho a acrescentar é: sem piadinhas sobre necrofilia, okay? E tomei liberdade poética total com a geografia parisiense. A última coisa é que esse texto é totalmente dedicado a Barbara da Cunha (a.k.a. Celtic Botan) que me incentivou a escrever e leu essa baboseira toda quando foi aprontada. E também é dedicado a Ane pela montagem linda no final do vídeo que acompanha esse texto.

Desfrutem da leitura!

só não vomitem

Looking for heaven for the devil in me

           

03/07/2011

            Às vezes, a Inspiração é uma dádiva, mas sua ausência é uma das mais terríveis agonias que a alma humana pode experimentar. Sabem disso todos os que foram abençoados – ou amaldiçoados? – com a veia artística. Todos esses seres sensíveis cuja percepção é ligeiramente distorcida, diferente das pessoas que preferem calar a sensibilidade dentro de si. Essa distorção pode levar ao paraíso mais intangível ou ao inferno mais horrendo (“sweeter than heaven/hotter than hell”).

            Florence Welch, uma ruiva inglesa com uma beleza extremamente alva, sabe disso tudo melhor do que ninguém enquanto uma mão distraída ampara um queixo cansado. Ela olha para a distancia da cidade luz, mas se sente estéril como um deserto, mesmo em meio a tanta beleza.

            Ela suspira, entediada.

            Embora a criatividade de Florence fosse uma tortura às vezes devido a sua intensidade (“There’s a drumming song inside my head”), ela começava a se sentir inumana com a morte temporária da força criadora que a move, por isso ela se refugiara em Paris, buscando naquela cidade milenar algo que botasse o motor interno em movimento.

            Mas estava há dias lá e nada mudara.

            Ela bufou e abandonou sua observação tediosa ao rio Sena e resolveu caminhar. Quem sabe se o movimento do corpo também não movimenta o espírito?

*

            Florence passou pelo calmo bairro do Marais. Um lugar neoburguês e neoromântico  que parecia o palco perfeito para envelhecer com tranqüilidade e morrer em paz.

            Caminhando por um chão tão mais velho que ela, sua inquietude diminuiu, enquanto ela pensava na sabedoria antiga daquele bairro.

            “Deixe a vastidão do mundo te engolfar, Florence.”.

            Depois do Marais, a sensação era a de estar sendo seguida. Nada incômodo ou assustador, só a sensação de que alguém estava lhe observando e então a sensação de passos leves em seu encalço.

            Alguns fãs a abordavam gentilmente pedindo fotos ou autógrafos, ou ambos. O carinho deles reconfortava-a de sua insuficiência criativa.

            Então ela achou um pequeno paraíso naquela manhã amena de um domingo na França, o Parc Sisley.

*

            Ela se sentou sob uma árvore e ficou observando a vida comum pulsar ao seu redor. A doçura do que é normal a envolveu e ela caiu num estado da agradável letargia de um quase sono.

            -“Now, I’m a Lonely Man/Let Me back into/ The Garden.”. – a presença súbita de seu idioma natal a despertou um pouco e ela olhou para o lado da árvore na qual sentara e viu um homem de olhos azuis.

            -É um jardim não? – ele parecia estar falando com ela e ao mesmo tempo parecia estar pensando alto – É o Jardim do Éden.

            -Cheio de mortais pecadores – ela disparou, sombria. – Uma blasfêmia.

            -A vida é uma blasfêmia – ele disse, irônico.

            Ela sorriu.

            -É, você tem razão.

            Ele sorriu de volta.

            -Qual seu nome? – ele perguntou.

            -Florence. E o seu?

            -James.

            -Então, é inglês?

            -Americano, baby.

            Ela silenciou e ficou olhando para o perfil dele. Ele tinha uma beleza dionisíaca etérea, com aqueles cabelos castanhos encaracolados, o queixo anguloso, a pele marmórea e os olhos azuis como o cobalto. Era agradável olhá-lo. Mas eles caíram no silêncio e ela quase voltou ao estado de letargia.

            -O que você está fazendo em Paris? – ele perguntou, a arrancando novamente do torpor.

            -Estou conhecendo. – ela mentiu, já viera a Paris antes.

            -Não minta. – ele retrucou, para a surpresa dela.

            Ela virou o rosto para encará-lo, e ele estava impassível como um xamã em transe.

            -Eu conheço esse olhar sequioso. – ele acrescentou – de quem busca algo. O que você está buscando?

            -Como você conhece meu olhar? – ela se sentia invadida e meio que despeitada pela ousadia dele.

            -Por que eu já tive o mesmo olhar no meu rosto.

            Ela ficou muda diante da resposta e ele prosseguiu.

            -Foi há muito tempo. Eu não conseguia escrever, não tinha inspiração. E aí ficava vagando por aí. Sempre me ajudou, observar Paris.

            -Você mora aqui há muito tempo?

            -Sim, há muito tempo.

            -O que você é, escritor?

            -Poeta. Sou poeta por que a poesia é imortal. Quero viver através dela.

            -A música também é imortal. – ela acrescentou.

            Ele sorriu, como se fosse onisciente. Ela esquadrinhou o rosto dele por longos momentos, sem dizer nada, esperando pelas próximas palavras.

            -Às vezes, para criar algo bom, você só precisa alimentar os demônios e monstros dentro da sua alma, Florence. – James acrescentou, num murmúrio.

            Ela franziu o cenho. Florence estava dividida entre uma hesitação terrível e uma curiosidade avassaladora por aquela figura misteriosa.

            -Eu sei que você sabe do que estou falando, mas tem um lugar nessa cidade que personifica perfeitamente essa frase.

            -Que lugar? – ela pergunta. O jeito inglês de Florence tomara a frente com sua hesitação, mas a parte selvagem e curiosa dentro dela transcendia a cautela britânica.

            -Não tem graça se eu falar – ele disse – mas nós podemos ir até lá.

            Ele a encarou e ela abaixou os olhos.

            -Só uns minutos. Não vou lhe fazer mal.

            Ele se levantou e ofereceu a mão para ela. Após hesitar um segundo, Florence deu a mão e ele a puxou.

*

            E lá estavam eles na frente da catedral mais famosa do mundo. Notre Dame, com sua beleza gótica que misturava círculos e gárgulas numa harmonia imponente sobre o Sena.

            -Dizem que ela nasceu pagã – ele a viu franzindo o cenho e continuou – Não a Igreja em si, mas dizem que os celtas foram os primeiros a louvar seus deuses neste lugar.  E depois os romanos. E depois construíram a Catedral, para a Mãe de Jesus. Vamos entrar.

            Ele se adiantou. Enquanto ele caminhava a frente, as pessoas o olhavam com estranheza e Florence percebeu o quão ele era diferente de todos, até dela mesma. As roupas eram algo antiquadas embora consistissem num jeans, uma blusa azul e um sapato formal. A leveza do jeito dele de se mover lembrava um lagarto. Ele era realmente um enigma.

            Mas ela o seguia mesmo assim.

            Ele parou pouco antes da fachada e apontou para as gárgulas, elevando-se infinitamente acima deles.

            -Você vê? – ele perguntou. – Até um lugar santo como esse tem seus monstros.

            Ela parou do lado dele e só conseguiu assentir com a cabeça. Ele entrou e ela o acompanhou. Lá dentro eles foram brindados pela imensidão e beleza daquela catedral milenar. O lugar estava infestado de turistas, mas ao invés de se juntar a eles nos cantos mais procurados, James se sentou em um dos bancos distantes e vazios.

             Florence se demorou, admirando o lugar. Ela só conseguia se sentir ínfima e insignificante diante daquele monumento medieval que naquela era moderna e tecnológica não perdia seu significado, não deixava de transmitir a mensagem para qual fora criado – demonstrar a pequenez do homem diante de Deus.

             Ela pensou que fosse ver James olhando para a catedral, mas o olhar dele estava fixado em Florence, perscrutando-a com profundidade. Ele fez um gesto indicando para o assento ao lado dele no banco, para que ela se sentasse. Ela se juntou dele. 

            -A luz do sol entra pelo vitral, mas sempre será escuro aqui dentro. – ela percebeu, enquanto olhava na direção do altar.

            -Por que sempre é escuro estar dentro de alguma coisa. Seja de uma igreja, seja de um corpo.

            -Você fala como alguém que entende do assunto.

            -Talvez eu entenda. – ele abaixou a cabeça e Florence sentiu como se houvesse dito algo errado.

            -De qualquer maneira – ela estava falando mais, começava a se sentir bem junto dele. – eu entendi o que você disse lá no Parc.

            Ele a encarou, curioso.

            -Todo esse lugar – ela apontou ao redor – foi baseado na inferioridade humana, com uma arquitetura sombria. Com demônios alados para guardá-lo. E mesmo assim… Ele é belo e…

            -E sublime – ele acrescentou por ela.

*

            Florence não soube como, mas de repente estava percorrendo Paris com aquele estranho. Ele a levou para conhecer a Rue Campagne-Première, onde Rimbaud vivera por certo período. Ele adorava Rimbaud e os Simbolistas e logo Florence soube tudo sobre eles, enquanto percorriam aquele lugar que misturava o novo e o antigo com uma facilidade impressionante. As mulheres olhavam pra James de uma forma desejosa e alguns franziam o cenho ao vê-los juntos.

            Eles acharam um cafezinho qualquer e se sentaram por que ela estava com fome – era meio-dia, o sol a pino indicava e o estomago também. Ela pediu um croissant e um café, mas ele não quis nada. Agora eles falavam mais confortavelmente e Florence começou a falar sobre o que gostava de ler – Fitzgerald, Virginia Wolf, dentre outros – e Jim contou da sua paixão eterna pela filosofia de Nietzche e a literatura Beat. Ele era um homem realmente culto e conversar com ele era como abrir uma enciclopédia sobre a Literatura dos Rejeitados de todos os tempos.

            Ela terminou de comer e eles se sentaram num outro Parc – que não era tão belo quanto o Parc Sisley, mas que oferecia uma sombra confortável e lá eles passaram boa parte da tarde. 

            -Blake, gosta? – ela perguntou.

            -William Blake – ele deu um sorriso realmente luminoso. – Com certeza. Um dos meus preferidos.

            Florence resolveu testá-lo:

            -“Tiger! Tiger! burning bright/In the forests of the night…

            -What immortal hand or eye/Could frame thy fearful symmetry?” – ele completou.

             -Fácil.

             -“Music doth uplift me like a sea/Towards my planet pale,/Then through dark fogs or heaven’s infinity/I lift my wandering sail.”. Baudelaire.

            -É como eu me sinto. – ela disse.

            Então ele pausou e disse:

            -Sua vez.

            Ela pensou um pouco, mordendo os lábios enquanto o poema que lera no dia anterior lhe vinha a mente.

            -“The water opened/into the vortex of my daughter’s face./Her skin was a rippled mirror./She was wearing the bath around her/like a dress of glistening scales./She was my fish-flower./I floated on her tongue/like the word ‘Mama’.”. Petit.

            -Isso lembra a minha mãe. – ele disse, sorrindo.

            -O que aconteceu com ela?

            -Eu a abandonei.          

            Depois disso, eles caíram num silencio parcialmente constrangido – pelo lado de Florence que não soube o que dizer sobre a mãe dele – e James se deitou na grama e fechou os olhos. Ela continuou sentada e o viu cair num quase sono.

            -Ei, garoto, acorde! Compre uma rosa para sua namorada! – disse um velho loiro naquela língua melódica da França.

            James abriu os olhos e Florence já ia negando qualquer coisa entre eles, mas o americano tirou uma moeda do bolso e deu para o nativo.

            -Agora entregue a rosa a moça. – ele disse.

            James o fez e Florence agradeceu com um gesto do polegar.

            -Essa é a melhor parte do meu trabalho – disse o velho, depois se virou e partiu.

            -Uma flor genuína – ela disse admirada, acostumada com vendedores de flores artificiais.

            -“A morte é a mãe da beleza. Apenas o perecível pode ser belo. É por isso que flores artificiais não nos comovem.”. Já dizia Stevens.

            Foi a coisa mais verdadeira que Florence já ouviu na vida dela.

            No final das contas, ele se sentou do lado dela contra o tronco de uma grande e anciã árvore e ficaram discutindo sobre composição. Florence se abriu e confessou a falta de inspiração que parecia torturá-la. Ele apenas assentiu, como se já soubesse daquilo e disse de uma forma misteriosa que ela só precisava se libertar para que tudo fluísse bem.

            Ela ficou em silencio, refletindo. Ele dormiu sentado, encostado ao tronco.

            -Você não achou a resposta. – ele disse, de súbito. Florence se virou, e o viu se espreguiçando com a flexibilidade estranha de um lagarto.

            -Como você sabe?

            -Não estaria aqui se tivesse encontrado.

             Ele se levantou e deu a mão para ela.

            -Venha cá.

            Ela deu a mão para ele e ele a guiou.

            Saíram do parque e cortaram a cidade pulsante com seus cidadãos franceses e turistas maravilhados. Florence se perguntava o que fariam agora, mas não ousou perguntar, pois sabia que o mistério era a parte mais agradável da surpresa.

*

            Quando o avermelhado crepuscular tingia o céu parisiense, eles chegaram, após caminhar por longos minutos, em outro Parc. Só que aquele era diferente dos outros dois Parcs, que eram visivelmente calmos e aburguesados, quando eles chegaram ali a primeira coisa que ela captou foi o som de tambores. Jovens dançavam ali, misturados aos mágicos de rua e toda estirpe de gente, numa atmosfera que lembrava a ela a era Hippie e os clipes de Rabbit Heart e Dog Days Are Over.

            Aquele Parc dava de encontro ao Rio Sena.

            -Os festivais celtas – ele disse para ela, quase sussurrando na orelha de Florence. – Deviam ser assim. A mesma selvageria. Só que com corpos nus e uma grande fogueira ao redor.

            -E depois todos os corpos se uniam em louvor a Deusa – ela sussurrou de volta. Ele riu sonoramente.

            -Você me entendeu. Sabe por que eu te trouxe aqui?

            -Para ser livre. – ela disse, virando e encarando-o. E viu um brilho genuíno nos olhos de James.

            Depois de meia hora, Florence sinceramente perdeu a noção do estado de consciência racional. Estava bebendo os drinques mais doidos e dançando feito uma louca. James logo se juntou a ela, fazendo a dança que o assemelharia a um xamã louco.

            Florence se sentia num estado eufórico que a conduzia para uma alegria insana. Ela poderia morrer dançando naquela noite. Esbarrava em várias pessoas, todos jovens, todos dançando, todos animados. A vida pulsava em sua plenitude em cada metro daquele lugar, com suas diversas línguas, as músicas mais variadas – instrumentos se misturavam a música eletrônica.

            Em certo momento James a puxou pela cintura para longe dali. Chegaram a beira do Parc, onde o Sena se espraiava sob os pés de ambos como um abismo abissal e eterno. Ele riu e disse:

            -Agora, Florence, você vai descobrir o que é Liberdade.

            E depois, ela só percebeu que seu corpo foi empurrado e estava caindo rio adentro.

            Florence se debateu e quis gritar, sentiu que ia morrer, a água molhava-a e invadia seus pulmões. O pânico pareceu paralisar seus membros e ela teve certeza que ia morrer. Aquele pensamento a fez deixar o desespero de lado e um fatalismo quase abençoado a tomou (“I have the water to take me…”)

            Então ela sentiu que braços a envolviam e estava sendo resgatada de volta a vida e ao oxigênio.

            Assim que tossiu toda a água para fora e voltou a respirar, ouviu James dizendo:

            -“Exponha a si mesmo ao seu medo mais profundo; depois disso o medo não tem mais poder, e o temor da liberdade encolhe e desaparece. Você está livre.”.

            Assim que ele a soltou, ela deu vários murros nele e chutou-o e até tentou afogá-lo. O fato de estar com um simples vestido azul facilitou todos os movimentos.

            -Seu filho da puta! – ela disse, ainda vermelha e cheia de adrenalina, pendurada na costa dele. – É mais fácil me dizer isso que tentar me matar.

            Para a surpresa dela, ele só ria.         

            -Você não ia entender só com palavras. Precisava sentir isso.

            -Senti o suficiente! – ela disse, agarrando os cachos castanhos e puxando para trás.

            -Aught! – ele gritou, deu um solavanco e ela caiu das costas dele, quase voltando a se afogar. Mas conseguiu ficar de pé e voltou a avançar nele, enfurecida como um leão.

            Ele a agarrou pelos ombros.

            -Você está livre agora, é tudo que importa. – e sorriu. – Vamos sair daqui, você está tremendo de frio.   

            Ela cedeu após tentar mais algumas vezes afogá-lo sem sucesso. Ele a ajudou a subir e ambos permaneceram sentados na borda do Parc que dava para o rio. Ficaram em silencio observando a morte silêncios a do sol em meio a gritos agônicos expressos em matizes de roxo, amarelo e vermelho evanescente, que já lutavam contra o fim eminente que era a chegada da noite e suas estrelas.

             -Está ficando tarde. – ele disse, num tom de lástima. – Preciso ir.

            A raiva de Florence já se esvaíra o suficiente para ela lamentar que ele precisasse abandoná-la.

             -Fique mais um pouco. – ela disse.

            -Só mais um pouco.

            -O que é mais bonito do que Paris de noite? – ela perguntou, vendo as luzes se acenderem ao redor deles e preencherem o mundo com sua beleza cadente.

            -Seus olhos. – ele falou.  – “I am troubled, immeasurably/by your eyes./I am struck by the feather/of your soft reply./The sound of glass/speaks quick, disdain/and conceals/what your eyes fight/to explain.”.               

            Sentindo-se ridícula, ela corou.

            Ele se empertigou, se aproximou dela e segurou o rosto de Florence com firmeza em frente ao seu, em seguida se inclinou e grudou os lábios nos dela. O que começou calmamente transformou-se em algo vulcânico em questão de segundos. Ele segurava-a pelos ombros com ambas as mãos, como se não quisesse que ela escapasse.

            Ele encerrou o beijo tão abruptamente como quando começou.

            Ela ia falar algo, mas ele a cortou.    

            -Às vezes tudo que se pode extrair de uma alma é um beijo e às vezes um beijo pode extrair uma alma. – ele disse, sorrindo. – Às vezes um dia é a única coisa que pode valer a quietude da eternidade. Às vezes a eternidade é apenas um dia. – ele sorriu. – Preciso ir agora, Florence. Adeus. – ele pousou os lábios no canto da boca dela.

*

            Dois dias se passaram e Florence estava ainda mesmerizada pelos eventos daquele dia peculiar. Ela se lembrava daqueles versos últimos e de repente ocorreu de procurar por eles no Grande Oráculo Moderno (Google). Descobriu-os como versos famosos de um cantor-poeta chamado James Douglas Morrison. Morto em 03/07/1971.

            Era o último dia dela em Paris. Ela subia agora a rampa do Peré-Lachaise. Após muito procurar, achou o túmulo.

            “James Douglas Morrison”.

            E o epitáfio:

Kata ton daimona eaytoy.

Ela depositou a flor no túmulo. Ficou muda. Longos minutos de maquinações complexas. Mas lembrou que Shakespeare dissera que entre o céu e a terra há mais coisas que supõem nossa vã filosofia e desistiu de entender.

Apenas agradeceu. Depois daquele dia, a inspiração voltara para ela em torrentes intensas e maravilhosas.

E tudo isso por que alguém – um ser com um demônio interior que só buscava pelo caminho para o Paraíso – arranjara uma brecha na eternidade para ajudá-la.

*

Nota: A quem interessar, aqui está um vídeo com essas duas criaturas lindas, poéticas e veneráveis juntas;

Anúncios

2 comentários

  1. Vanessa · outubro 3, 2011

    Sem palavras para definir o seu texto, é poético, bonito, agradavél, um tipo de leitura que te envolve e te fazer ler até o final e depois disso ainda desejar que ele continue e continue como uma fonte de águas que nunca terminam, eu achei de uma veracidade tão grande que quase me convenceu que isso realmente aconteceu. E realmente não aconteceu? Na minha mente essa cena se repete muitas vezes e deve ter acontecido isso na mente de todos que puderam ler. Muito bom, ótimo.

  2. Defenestração · outubro 9, 2011

    Oi, gostei muito do seu estilo de escrita. Gostaria de trocar conhecimento e ideias com pessoas como voce, tentei te adicionar no orkut mas estava bloqueado e nem mensagens consegui mandar. Se quiser pode me adicionar no msn e conversamos por la, luc.momiji@hotmail.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s