As Cerimônias de Florence Welch

O melhor CD da década.

É sem medo e sem dúvida que eu afirmo que o novo CD da banda inglesa Florence + The Machine, “Ceremonials”, é provavelmente a maior obra de arte musical da década.

Não quero desmerecer nenhuma banda ou artista, mas é impressionante a vitalidade da banda e a voz monumental da ruiva que conduz a máquina.

Vivemos numa era onde a música é um produto comercial e permanece no cenário musical quem consegue atrair mais gente, independente da qualidade do que é ofertado. É nesse cenário que abobrinhas ridículas como Justin Bieber surgem e vicejam como mofo no fundo de um armário. Esse tipo de coisa faria Jim Morrison se remexer no túmulo.

Mas eis que surge Florence com uma obra prima. O CD é um grande presente para todos os fãs de música de verdade e com qualidade.

Primeiro, vou dizer que conheci essa fada de cabelos rubros há mais ou menos um ano e meio. Foi num vídeo com Ana Bolena ao som de Dog Days Are Over. Daí baixei o Lungs e Florence embalou boa parte do meu ano de 2010 e a minha luta pelo vestibular.

Só que desde o início do ano eu comecei a ficar sequiosa pelo novo CD, já que ouvira o Lungs a exaustão. Acompanhei as poucas notícias disponíveis. Como minha vida mudou bastante, fiquei sem tempo e meio que deixei o assunto esquecido em algum canto da mente. Foi então que minha amiga Barbara divulgou no twitter a primeira preview do novo CD: What the Water Gave Me. Foi amor a primeira ouvida. Florence + the Machine passou do status de “mais uma banda que eu gosto” para “uma das bandas que eu verdadeiramente gosto”. Desde aí tenho acompanhado diariamente – sem brincadeira, todo dia mesmo – as novidades sobre o Ceremonials – primeiro clipe, primeiro single, data de lançamento, entrevistas, live previews.

Eis que ontem o CD vazou.

E eu juro que quis ser uma boa fã que não baixaria e esperaria pelo dia 31/10 e compraria o CD original e tudo mais. Mas quem disse que eu consegui?

E não me arrependo de ter baixado por que é uma obra de arte, verdadeiramente. Um dos maiores feitos musicais do século XXI. Florence evoluiu e amadureceu tanto como cantora como em termos de composição. As letras são bem profundas e a voz dela alcança feitos incríveis, variando de notas graves a agudos extremos em uma só canção. Ela mostrou que a menina frágil e intimista do Lungs se tornou uma mulher forte e assustadoramente sombria, com um talento insano e incrível. The Machine também evoluiu muito, pois o instrumental do CD está perfeito, algo épico e litúrgico comparável ao The Soft Parade do Doors – cuja genialidade dos arranjos é dificilmente encontrada atualmente, mesmo com tanta tecnologia. Vou analisar faixa por faixa do Deluxe Edition vazado que eu baixei.

Only if for a Night é uma balada de amor para o Apocalipse. Florence fala de vozes e fantasmas a perseguindo devido a um amor frustado. É de uma batida mais constante em comparação com as outras, e a que mais tem o estilo Lungs. Mas a letra é realmente bela. A frase mais marcante para mim é “and the only solution was to stand and fight“.

Shake It Out é o primeiro single oficial, que ganhou um belíssimo clipe inspirado em The Great Gatsby com alguns elementos da misticidade pagã inerente a Florence. É a música mais positiva do disco, falando sobre renovação e expulsão de demônios, sobre iniciar algo novo e deixar tudo de errado e ruim para trás. A batida mostra a superação do The Machine, trazendo uma alegria fantástica a todos os ouvintes. Aliás a letra é extremamente metafísica, usando metáforas sobre Céu e Inferno, a frase mais marcante do primeiro single é “Looking for Heaven for the Devil in Me“.

What the Water Gave Me é a minha verdadeira e grande paixão. Estou até elaborando uma coreografia com ela. Mas deixemos isso de lado. A música é divina, sem mais. Inspirada pelo suicídio de Virginia Woolf, reflete todo o poder do elemento natural chamado água. A batida dessa música simplesmente evoca uma grande e lindíssima transcedentalidade e a voz de Florence sublima tudo, elevando a canção a um nível de cartase A música também fala de uma onipresença na composição de Welch: Amor mal-sucedido. Só que esse amor é elevado a um nível trágico, um nível de sacrifício. Amo demais essa música. A parte que mais me toca, por motivos pessoais é: “Oh my love, don’t forsake me, take what the water gave me“.

Never Let Me Go parece se comunicar diretamente com What the Water Gave Me. É como um Lullaby para um suicídio por afogamento. Lembra Virginia Woolf, por analogia. É uma música de batida triste e fatalista. Eu gosto muito dela, mas ela me pertuba. Mostra um lado de tristeza infinita de Florence que não é fácil de encarar. A frase que mais me marcou “And the arms of the ocean, delivered me“.

Breaking Down é incrível! Destaque para o The Machine que faz uma variação instrumental lindíssima, pois a música começa com uma batida que até me lembrou o hip hop (!?) e vai crescendo para tons clássicos cheios de variações belíssimas. E a voz de Florence está fantástica, grutural e envolvente. Como já diz o título da canção, é uma música sobre fraqueza – “I think I’m breaking down again” -, mas é menos fatalista que a faixa que a precede – Never Let Me Go. Tem algo de lúdico, de infantil, que torna a canção ainda mais envolvente.

Lover to Lover é meu xodó. Maliciosa, sexual e agitada, parece uma versão mais leve de Howl do álbum anterior, Lungs. Dá vontade de cantar. Tem algo que me lembra as divas antigas, como Ella Fitzgerald, talvez porque seja uma das músicas do álbum que mais mostra o potencial vocálico de Florence, com as elevações e agudos perfeitos do final da canção. Na verade a batida é bem vintage, lembra a divina Alabama Song (Whiskey Bar) do Doors. A letra é bem romanceada/sexualizada. Minha parte preferida: “Lover to Lover/Bed to Bed“.

No Light, No Light é maravilhosa, uma das melhores do álbum. Escutei ontem quase a tarde inteira. Fico feliz que seja o próximo single. É basicamente sobre uma paixão arrebatadora, onde Florence usa a música para descrever seu objeto de amor. A música começa suave e triste, lembrando Never Let Me Go, sugerindo uma certa tristeza nesse amor. Mas a batida cresce e a intensidade de Florence também e logo a tristeza se transforma em sensualidade selvagem. Revela um amor conflitante e uma idolatria infinita pelo amado – “You can choose if I stay or if I fade away“. Linda, divina. Minha parte preferida – por motivos pessoais – “Would you leave me if I told you what I’ve done?/ Would you leave me if I told you what I’ve become?”

Seven Devils é uma música assustadora. Sem brincadeira. É pertubadora. Tudo nessa música é sombrio: O instrumental e a voz de Florence. A música me sugere pertubações psicológicas/espirituais profundas. Não sei o que escrever por que realmente me assusta o fator gótico de Florence, inédito em qualquer outra música – “Seven Devils are around you/(…)/I’ll be dead before the day is done.”.

Heartlines é totamente céltica, desde a batida até a a voz de Florence. Música para dançar em Beltane, ao redor das fogueiras. Lembra um pouco o Lungs, pela letra. Junto com Lover to Lover mostra o potencial vocal de Florence. Parte preferida: “Just keep going/ the heartlines on your head.”.

Spectrum é fantástica. Hit pronto. Por que quando Florence grita “Say My Name” no refrão, seu único reflexo é gritar também. Sério. Vou evitá-la ouvir em público, pois acho que estarei sujeita a muitos micos. Tem o espírito de Shake It Out, uma mensagem positivista: “Say My Name/And we’ll never be afraid again“, com uma batida ainda mais dançante. Consigo até pensar nessa música tocando em discotecas. É a prova de que Florence, ao contrário do que temem muitos fãs puristas, pode sim ir para o mainstream e continuar sendo a menina inglesa que nos encantou desde o primeiro single, Dog Days Are Over. Dá uma vontade louca de pular e dançar feito um xamã ouvindo essa música, sério. Foi amor a primeira vista, desde o live eu amei essa canção. Parte preferida: “Saaaaaaaaaaaaay My Nameeeeeeeeeeeeee“.

All This and Heaven Too é a mais suave do disco, lembra o espírito romantico do Lungs. A batida dessa é a mais cristã de todas. Tem algo do instrumental de músicas cristãs, que ouviriamos numa ingreja católica ou anglicana. Fala sobre um grande amor. Parte preferida: “All this… And Heaven Too“.

Leave My Body é a minha música desse disco. Lembra meu pai, lembra meu amor perdido. Lembra meus desejos incompletos, insaciados. Parece que a Florence leu minha alma e colocou-a nessa canção. Relamente, me toca muito – “I don’t need a husband/ I don’t need a wife“. É complicado falar dessa música sem expor a mim e aoutras pessoas de uma forma pessoal demais, por isso só digo que, junto com Twentieth Century Fox do Doors, é uma das músicas que mais pode me definir. Parte preferida: “I don’t want your future/(…)/One right moment is all I aim.”.

Não estraga prazeres o suficiente pra descrever as faixas extras. Só digo que Landscape e What the Water Gave Me Demo Version são divinas. Mas deixo o resto para os ouvintes em geral e os fãs de Florence descobrirem. E se alguma das letras estiver errada, a culpa é minha, pois tudo que escrevi aqui é baseado apenas na audição simples e pura, e meu domínio da Língua Inglesa não é tão bom quanto deveria ser – embora eu esteja trabalhando nesse sentido.

Anúncios

7 comentários

  1. Paulo Vitor · outubro 21, 2011

    Só uma correção: o primeiro single de Florence foi Kiss With The Fist.

    E sim, pode não parecer mas a florence gosta de hip hop. Já ouviu o albúm Plans, da antiga banda dela, Ashok? Não faz muito o meu estilo, mas é legal o álbum. Só é uma pena terem colocado a Florence Welch com backing vocal.

    Mas adorei sua resenha. Li enquanto baixo o Ceremonials. Deu mais vontade de escutar o novo álbum 😉

    • Yasmim-Deschain · outubro 21, 2011

      correções são sempre bem vindas \o/
      espero que vc tenha gosta do disco, está perfeito *O*

  2. Alexandre · outubro 25, 2011

    Muito bom! Legal saber um pouco sobre cada música. Confesso que “Never Let Me Go” é a minha favorita. O CD é in-crí-vel!

  3. Adson (@Adsonmaximiano) · outubro 27, 2011

    Primeiro, gosto do jeito que tu escreve, já tinha lido tu falando sobre what the water gave me, enfim.

    Eu gosto muito de ceremonials, e como antes do disco sair a florence disse, seria um cd mais pesado e com coisas imaginárias, demônios e coisas do tipo, o cd é perfeito, mas sinto falta das músicas agitas de lungs, Como Kiss whit a fist e Rabbit heart que acho que não teve sucessoras nesse CD, Já acho que All this and Haven too soa como Dog days are over para mim, não sei, Ambos CDs são ótimos, Mas são CDs diferentes, Eu ainda vou amar florence para sempre e a forma que ela parece fazer magica enquanto canta, Podia ter um pouco mais de lungs no cd ? sim, FIcou ruim ? LÓGICO que não, acho que é assim que penso ;3

    P.S : Seven devils realmente me assusta também, Dá quase pra fazer um filme de terror mais dramático baseado nessa música, não sei eu acho ela bonita, mas me assusta, e assim como em Shake it out os “7 demônios” podem ser entendidos como coisas que atrapalham a vida, só que nessa música realmente me parece no sentido literal.

    E HeartLines fala sobre Um rio de novo, De uma forma mais animada mas fala sobre se afogar de novo, Como se por um momento ele parece de ser a tentação e virasse um amigo, mas logo vai tentar a chamar de novo ❤

    Desculpa, eu empolgo quando começo a falar sobre florence.

    Eu escrevi tudo isso ouvindo o cd e levou algumas horas e percebi que o cd não está tão diferente de lungs, ouvi pela primeira vez observando isso, só arrumando um pensamento lá de cima, Finalmente acabei, Haha ❤

  4. Livia · novembro 4, 2011

    Adorei a crítica. Não tem como eu concordar mais com você do que quanto a ‘Spectrum’. Vou seguir seus passos e evitar ouvir em público. Minha mãe riu de mim quando eu estava ouvindo o CD pela primeira vez, acho que isso é um aviso, rs.

    • Ana Flávia · janeiro 3, 2012

      Adorei sua resenha do álbum. Estou completamente contaminada pelo espírito dele. Extremamente místico! Dia desses correndo nas ruas e ouvindo temi dar vexame. Impossível controlar os braços ou não cantar junto!

  5. Jonathas · fevereiro 18, 2014

    Adorei seu post, concordo com suas conceitualizações sobre as músicas dela, acho elas bem paradoxais kkk, e outra What the water gave me….. quem é q não gosta, bom adora as músicas dela , mas ainda prefiro mumford and sons . Bom, é isso, adorei de verdade seu post ! bye bye

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s