É por isso que eu amo Bukowski

Acho que é muito difícil um escritor conseguir o feito de se tornar um dos meus preferidos sem eu sequer ter lido um livro inteiro dele. Mas como para toda regra há uma exceção, Bukowski chegou para quebrar totalmente essa regra.

Comprei alguns livros de Bukowski durante a feira do livro e só isso já o tornou especial porque foi a primeira vez que comprei livros com meu suado dinheiro como professora de reforço. Comecei a ler Mulheres e a sinceridade arrebatadora do velho Buck me conquistou completamente. Mas com a loucura do semestre e o material da faculdade, eu pausei a leitura de Mulheres. Foi então que quando sai para comprar meu “auto-presente” de natal que vi um título que me chamou atenção: Notas de um velho safado. E não me surpreendeu nadinha quando vi o nome do autor; Charles Bukowski. Sem hesitar, comprei o livro.

Como é uma coleção de contos e nota avulso, comecei a ler, pois não haveria problema com descontinuidade do enredo. E foi aí que Bukowski mostrou-se ainda mais genial, ainda mais belo, ainda mais inteligente e me fez amá-lo ainda mais!

O que eu realmente amo na escrita do Buck é a absoluta falta de pretensão. Bukowski não é Homero ou Shakespeare, ele é o escritor dos puteiros, dos bares fétidos, das prostitutas mal acabadas, dos vagabundos e dos cafajestes. Ele não está nem aí se vc não gosta de palavrões; ele os escreve aos montes. Ele não liga pra coerência, regras gramaticais ou morais. Bukowski é espontaneidade pura, é escrita fluindo do jeito que tem que ser – naturalmente. E muitas vezes regada a uísque.

E mesmo sendo assim tão espontâneo, Bukowski é genial! É no meio das banalidades que vc se depara com diamantes. Bukowski é muito mais que mero escritor; ele é poeta, filósofo e  um ser humano honesto. No meio de uma corrida de cavalos ele encontra a deixa para falar sobre os marginalizados do sistema; de uma luta de pugilistas ele retira a dolorosa realidade de que quanto mais  vc luta mais vc se fode pq sempre aparecerá alguém melhor que vc para te dar uma surra (e nesse conto, eu fiquei impressionada com a capacidade do Buck de descrever uma luta, quase com a visão de um profissional); do assassinato de Kennedy ele consegue destrinchar toda a hipocrisia do American Way of Life e ele trás Jesus Cristo sob a forma de um jogador com asas que veio para salvar um time de beisebol ferrado.

Mas ler Bukowski é também um soco na cara. Não raro vc vai ler uma frase tão indizivelmente crua que vai pensar “Nossa, com certeza” e vai se sentir mal, vai se sentir a bosta do mundo. Buck é isso.

Bukowski é a realidade nua e crua, palavrões carregados de sinceridade, cafajestagem e bebedeira. Bukowski é Deus no meio de um par de pernas cobertas por meias de náilon.

Vou postar aqui algumas das minhas partes preferidas de Notas de um velho safado

Deus vence o Homem sempre e continuadamente, sendo Deus Seja lá o que Foi – uma metralhadora filha da puta ou a pintura de Klee, bem, e agora, aquelas pernas de náilon dobrando-se ao redor de algum outro maldito imbecil. Malone me devia 250 milhas e não poderia pagar. J.C. com asas, J.C. sem asas, J.C. numa cruz, eu ainda estava um pouco vivo e caminhei em volta pelo chão, sentei-me sobre aquele vaso de prisão e comecei a cagar, ex-maior dirigente da liga, ex-homem, e um vento leve através das grades e um jeito suave de ir.

todas aquelas viagens, todas aquelas páginas de Kerouac, todas aquelas prisões, para morrer sozinho sob uma gélida lua mexicana, sozinho, vocês compreendem? Será que vocês  não são capazes de ver os miseráveis e insignificantes cactos? o México não é um lugar terrível simplesmente porque ele é oprimido. será que vocês não são capazes de ver os animais do deserto observando? os sapos comuns e as intanhas?, as serpentes como nacos das mentes dos homens rastejando, parando, esperando, surdas sob surdas luas mexicanas. répteis, coisas se mexendo rapidamente, olhando para esse cara de camiseta branca na areia.

Neal, ele encontrou o seu lance, não machucou ninguém. o garoto durão que andou pelas prisões no chão ao longo de uma ferrovia mexicana.

a única noite que eu o encontrei eu disse “Kerouac escreveu todos teus outros capítulos. eu já escrevi teu último.”

“vai fundo,” disse ele, “escreva”

fim do original.

Do conto onde Bukowski encontra Neal Cassady, grande amigo de Kerouac e fonte de inspiração do antológico Dean Moriarty.

eu ri. Ele me deixa a vontade e é humano. Todo homem tem medo de ser viado. Fiquei um pouco cansado disso. Talvez devêssemos todos nos tornar viados e relaxar. (…)

é por isso que me afasto das pessoas por tanto tempo, e agora que estou encontrando as pessoas, descubro que preciso voltar pra minha caverna. (…)

o povo sempre irá te trair.

Jamais confie no povo.

E era uma bunda realmente fantástica: podia deixar um homem petrificado e ofegante, gritando palavras de amor para um céu de concreto.

(…)

Watson foi nocauteado, fazendo com que aquela noite fosse muito amarga (…) Balanos ia certamente com toda a calma, não se apressava – o puto tinha um par de cobras como braços, e ele não se movia – deslizava, enfiava-se furtivamente, saltava como uma espécie de aranha diabólica, sempre chegando lá, fazendo o serviço. (…)

Nós somos fisgados, esbofeteados e cortados em pedacinhos estupidamente. Tão estupidamente que alguns de nós acabam finalmente amando nossos atormentadores porque eles estão lá para nos atormentar de acordo com as linhas lógicas de tortura. (…)

Os cavalos continuavam avançando e dava pra ver que eles tinham a intenção de atravessar. As ordens eram essas. Esse era o momento: os homens a cavalo contra os homens sem nada. (…) cravou as esporas no seu cavalo e avançou de olhos fechados através da carne humana. O cavalo passou. Eu não estou certo se ele quebrou as costas de alguém ou não.

(…) mas eu tive a estranha sensação (…)  que as coisas não estavam bem, não estavam mesmo, e não estariam, não iriam estar nos próximos dois mil anos, no mínimo.

(…)

“as leis da sociedade e as leis da natureza são diferentes. Nós temos uma sociedade não natural. É por isso que estamos próximos de ser mandados para o Inferno.”.

Revolução soa muito romântico, vocês sabem, mas não é. É sangue, culhão e loucura; é menininhos mortos que ficam no caminho, menininhos que não entendem porra nenhuma do que está acontecendo. É a sua puta, a sua mulher rasgada na barriga por uma baioneta  e depois estuprada no cu enquanto você olha . é homens torturando homens que costumavam rir com as historinhas do Mickey Mouse. Antes de você entrar na coisa, decida onde está o espírito e onde ele estará quando a coisa tiver terminado.(…)

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