Um homem de poucas palavras: Anton Tchekhov

Sim, estou viva. Não, não larguei o blog. Sim, ainda tenho muito a escrever aqui. Sim, quero explicar sobre o que me manteve afastada.

Resumidamente, posso lhes dizer que a vida anda uma loucura. Minha rotina antes de julho consistia em ir pra facul de manhã, dar aula de reforço de tarde, ir pro Muay Thai de noite nas segundas, quartas e sextas, e ainda fazer curso de inglês sábado pela manhã e ir para o pole dance de tarde. E ainda aconteceram um montão de coisas, no campo pessoal, no campo acadêmico e no campo profissional também agora no final de junho. Nossa, a última semana de junho foi realmente corrida. Eu tive que entrar com pedido de bolsa no CNPq via UEPa (Universidade do Estado do Pará) e cheguei a ir na casa da minha professora e voltar no campus no mesmo dia, e pense que a minha professora mora, literalmente, em outra cidade. Nesse dia peguei  ônibus no total.

E em julho, nada de descanso, arranjei uma vaga no treinamento de professor de um curso de inglês e tô lá ralando pela vaga de professora ou monitora. Fora que vou viajar final do mês pro ENEL, em Florianopólis, com o dinheiro de uma bolsa que consegui na UEPa e semana que vem tenho que correr pra pegar o dinheiro, comprar passagem, arrumar coisas.

Fora isso, andei me metendo numa presepadas na minha vida “amorosa”. É uma história tão doida e tão engraçada que eu teria que escrever outro post só pra ela e nem poderia contá-la de todo pq envolvem pessoas muito próximas a minha realidade e fatos que não quero que circulem pela internet. Digamos só que achei um Stanley Kowaski e aprendi que o desejo é um bonde; encontrei um capitão América pra me mostrar que sempre se pode ter esperança e por aí vai. Vou deixá-los na curiosidade com as alegorias (:P).

Mas isso é só uma idéia geral, para vcs terem alguma noção da correria que minha vida se transformou. Mas eis-me aqui, de volta.

E não vim falar de mim, mas sim de Anton Tchekhov, um autor que descobri muito recentemente e muito por acaso. Bem, como minha rotina extremamente corrida ainda nem me permitiu terminar A Tormenta de Espadas de George R. R.  Martin, minhas leituras se tornaram basicamente as da faculdade (que não são ruins, ao contrário! Li o magnífico The Waves da deusa Virginia Woolf para um trabalho de Teoria Literária no primeiro semestre) e alguns gatos pingados enxiridos sem os quais não consigo viver – há outros, mas agora eu lembro principalmente de Bukowski, esse velho safado estava sempre dentro da minha bolsa; só no primeiro semestre li Pulp, Misto Quente, Notas de um Velho Safado e comecei Ereções, ejaculações e exibicionismos – Parte 1. Agora, nos últimos três meses, a coisa ficou tão pesada lá na UEPa que eu não tive tempo pra ler praticamente nada, o que me fez começar julho sedenta por bons livros.

Então, como é que eu faria? É julho, e com a viagem e os gastos a ajudar em casa eu não poderia comprar nada muito caro. Dando meus pulos, acabei comprando com 10 reais um livro de Kerouac e um de Tchekhov da coleção 64 páginas da LP&M Pocket. Cada um era 5 reais e juro que só peguei Tchekhov por que não tinha visto um do Poe que estava perto antes de pagar, já que Kerouac é um amigo de longuíssima data.

Mas os 5 reais gastos com Tchekhov foram os melhores  reais da minha vida. Tchekov é curto, é bruto, é certeiro. Ele não é um homem que se prolongue em descrições, mas suas palavras são poucas e bem postas e ele consegue exprimir em contos tão curtos todos os sentimentos e dúvidas presentes na vida humana. Sua narração objetiva lembra Machado de Assis, mas Anton Tchekhov é mais lírico e nenhum pouco irônico; seu realismo não tem o traço da sagacidade machadiana, porém mostra-nos um lirismo, uma fatalidade e uma filosofia tão viscerais que o leitor fica abismado. Há parágrafos em que eu simplesmente parava e lia de novo, e de novo e de novo. E ainda tinha que parar e refletir sobre a profundidade daquilo.

Quase todo conto de Tchekhov é embebido por alguma moral. Moral essa que também é quase sempre acompanhada por um final triste. Alguns contos são cruéis, te dão pena dos protagonistas. Mas assim é a vida, tal qual os contos do russo, cruel e curta e bruta, e nem sempre com final feliz.

Para concluir, a obra de Tchekhov, escrita antes da Revolução Russa, é, ao meu ver, perfeita para o leitor do século XXI. O leitor sem tempo, o leitor que vive na correria. Esse leitor pode virar uma página e já terminar o conto A Palerma deliciado com  a crítica as relações de poder tecidas pelo autor, Tchekhov exprime os conceitos básicos da luta de classe e da dialética Marxista em algumas simples linhas. Mas também é para o leitor feminino, para aqueles que ainda se deliciam com os pormenores de um bom romance proibido. Mas com Tchekhov, o romance é só um gancho para uma maravilhosa reflexão sobre a vida.

É com esse conto romântico que fecho o post. Deixo a vocês um excerto (e um link para download na íntegra) de A dama do cachorrinho um conto simples e até previsível, mas de uma beleza inimaginável;

Em Oreanda, sentaram-se num banco perto da igreja e ficaram calados, olhando o mar embaixo. Mal se avistava Ialta através da névoa matutina, e nos cumes das montanhas nuvens brancas pairavam imóveis. A folhagem das árvores estava quieta, cigarras cantavam e o ruído surdo e monótono do mar, vindo de baixo, falava de repouso, do sono eterno que nos espera. Esse barulho já se fazia ouvir ali quando não havia Ialta, nem Oreanda; ele se faz ouvir agora e será assim também no futuro, surdo e indiferente, quando nós não mais existirmos. E nessa contância, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, esconde-se, talvez, a garantia de nossa salvação eterna, do incessante movimento da vida na terra, do seu contínuo aperfeiçoamento. Sentado ao lado de uma jovem mulher, que no amanhecer parecia tão bela, tranqüilizado e enfeitiçado pela visão desse panorama fantástico – o mar, as montanhas, as nuvens, o amplo céu -, Gúrov pensava que no fundo, se refletirmos bem, tudo neste mundo é maravilhoso; tudo, exceto aquilo que nós mesmos pensamos e fazemos quando esquecemos das finalidades supremas da existência e da nossa dignidade como homens.”.

(Tchekhov, Anton – A dama do cachorrinho).

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