Sweet Nothing

Nota da autora: Um conto que surgiu a partir do clipe de Florence Welch e Calvin Harris.  Simples e súbito, estrelado, na minha mente, por Jim Morrison e Florence Welch. Dedicado as minhas irmãs em Dali, Botan, Priscila e Bruna.

Sugiro que a leitura seja feita após assistirem o clipe e/ou ouvindo a música.

And it’s hard to learn
And it’s hard to love
When you’re giving me such sweet nothing

I

Aquele não podia ser o mesmo homem que conhecera a tantos anos atrás. Bebendo daquele jeito, falando aquelas coisas todas, esbofeteando-as. Mary ia até o espelho só para contabilizar diariamente as marcas de agressão, os roxos que se espalhavam por seu corpo, como malévolas pérolas daquela relação doentia.

Por que sim, ele gritava com ela e a espancava durante o dia para os dois transarem feito animais durante a noite. Era um ciclo vicioso, uma teia maligna que a envolvera. Conhecera Douglas havia cinco anos e morava junto com ele há dois anos. Os três primeiros anos de namoro foram relativamente calmos e sem maiores problemas, exceto por alguns períodos de distância em que ambos os lados foram infiéis.

Mas quando começaram a morar juntos, foi como se a imagem de companheiro compreensivo e amoroso desabasse e dia-a-dia, uma besta selvagem e bêbada se revelasse diante de Mary. As discussões se intensifacavam a medida que os meses passavam. A primeira vez que ele a estapeoou ficou grava na memória dela para sempre, a dor do golpe, o ardor na pele e a forte vermelhidão. Na verdade, Mary lembrava até mesmo do som dos dedos dele contra a pele dela.

E claro que ele se transmutara também fisicamente, de jovem Dionísio a beat barbudo e barrigudo em alguns meses. Não que ela se incomodasse, mas aquela parecia acompanhar a transmutação da alma dele, do ego dele.

Quando ele chegou, estava bebâdo. Ele gritou por que não havia jantar, por que tudo que havia para comer era pizza do dia anterior. Eles discutiram e a cena de agressão se iniciou: ele bateu nela, ela quebrou a garrafa de cerveja na cabeça dele, ele a derrubou no chão e chutou-a na barriga com tanta força que ela uivou de dor, ela agarrou na perna dele e mordeu a panturrilha por debaixo do jeans velho dele, tão enlouquecida de fúria quanto um animal selvagem.

Eles brigaram um pouco mais, ela conseguiu se levantar e arranhou a cara dele até sair sangue. Ele queria esmurrá-la, mas ela se trancou no banheiro antes dele alcançá-la e se trancou no banheiro, ouvindo-o ele quebrar os pratos de vidro que tinham. Acabou rápido, eram poucos. Os outros ele quebrara nas primeiras brigas.

Ela saiu do banheiro para o quarto, ele estava dormindo na mesa, em cima dos restos da pizza do dia anterior.

Estava deitada na cama, dormindo, era madrugada. Ele entrou, tossindo e a despertou. Ele nunca falava nada nesses momentos, apenas a erguia pelo tronco e a beijava com voracidade, machucando a pele branca dela com a barba dele, deixando os lábios inchados, mordendo-os até sangrar.

Ele tirava a camisola e a roupa de baixo dela rápida e brutalmente, atirando-as num canto, mordendo o pescoço e os seios, colocando as mãos sob o montante de pêlos pubianos dela e deixando ali por vários e deliciosamente angustiantes minutos. Depois, ele tirava a própria roupa e a penetrava com força, penentrando-a profundamente, com a exatidão bestial de uma fera insaciável. Mary poderia mentir, mas seu corpo não; ela se contorcia sob ele e conforme ele entrava e saia, cavalgando-a com a precisão que um cruzado experiente montaria seu melhor alazão, ela sucumbia e gemia e gritava. Sempre gritava alto, o grito angustiado, desumanizado e amorfo de uma fêmea no cio possuída por seu macho.

A verdade era que muito daquele caótico relacionamento só vicejara por que eles fodiam como animais e isso dava a ambos uma sombria e primitiva sensação de completidão.

Mas as coisas estavam passando dos limites. As últimas brigas estavam beirando o risco de vida, em uma ele a espancara até ela quase entrar em coma, em outra, ela o esfaqueara e eles tiveram que ir para o hospital no meio da madrugada.

Ela estava chorando. Chorando por que não o aguentava mais, chorando por que ela se convertera em pouco mais que uma escrava de uma relação que jogaria os dois para o vórtice de uma destruição tão sonora quanto o colidir de duas galaxia, chorando pelas marcas em seu corpo e sua alma. Chorando por que o odiava. Chorando por que o amava.

Ela sabia qual era a única solução possível.

Amava cantar e não se importava de ganhar tão pouco num cabaré de quinta como aquele. A música preenchia cada canto de sua alma quando se apresentava, tanto fazia se era numa ópera para a aristocracia britânica ou num cabaré para umas poucas prostitutas com seus clientes e cafetões.

           

Quando Douglas saiu do bar, demorou a perceber que os homens o seguiam. Então, notou-os quando o barulho de passos na esquina não sumia do seu encalço. Acelerou os passos e os passos dos homens aceleraram com ele.

Cantava alto, sabia que estava sendo feito. Cantava  alto e intensamente para afogar os pensamentos.

Eles o encurralaram. Eram tantos. Ele não conseguia saber quantos exatamente, mas os punhos e os chutes pareciam mais do que suficientes. Tentou gritar, mas a boca logo ficou cheia de sangue. Desmoronou. Um chute no estômago…

 

 …Ela caiu no chão, em agonia. Seu show se transformara numa coreografia que mais parecia uma espécie de transe xamântico ou expressão profunda de agonia de uma alma condenada ou os dois ao mesmo tempo, ela continuou deitadada…

…Ele se contorcia, tentava se esquivar. Mas os golpes só aumentavam e pioravam. Sentiu pancadas de cacetete e uma mão com uma pedra lhe atingiu o topo do crânio. Ele desfaleceu. Não sentiu mais nada. Nunca mais sentiria alguma coisa.

Mas teve tempo para relembrar o sorriso de Mary no seu último vislumbre de consciência.

 

A música acabara. Ela estava deitada no chão do palco, todos os olhos do salão grudados nela.

Ela sabia que estava feito.

Ele morrera, como ela pedira, como ela pagara.

E nada mais fazia sentido.

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