O Regicida e Sua Sombra

Jaime

Jaime Lannister

… Em cada rua povo! e povo! e povo! a praça
apinhada em silêncio; o juiz que espedaça
a vara, e aos pés ma atira! aquilo é o campanário,
que lá me está chorando o dobre funerário!
Tomam-me; atam-me as mãos; chegam-me ao cepo, sente
cada um no seu colo o golpe ao meu pendente…

Fausto – Goethe

“Um leão branco correu por pastos mais altos do que um homem.”
A Fúria dos Reis –  As Crônicas de Gelo e Fogo – George R. R. Martin
“Antes de procurar o homem é necessário ter a lanterna. – Será necessariamente a lanterna do cínico?”
O viajante e sua sombra – Nietzsche
Esse  texto conterá SPOILERS sobre As Crônicas de Gelo e Fogo e Game of Thrones.
Sor Jaime Mão de Ouro, O Leão de Lannister, Senhor Comandante da Guarda Real. Também conhecido como o Regicida.
Um homem que matou o rei que jurou proteger; o homem que fode a própria irmã; o homem que jogou uma criança do alto de uma torre. Quando ele vira as costas, os homens sussurram “Regicida”. Conhecido como  o homem mais sem honra dos Sete Reinos.
Mas também um herói, o homem que evitou que a cidade inteira fosse queimada. Que se jogou na arena para salvar uma donzela indefesa e decidiu se manter num posto que todos achavam que seria-lhe impossível ocupar. Um espadachim que perdeu a mão da espada e ainda assim não desistiu de tentar lutar. Um homem que teve a coragem de fazer um inventário dos próprios pecados. Um pecador, sim, mas ao mesmo tempo um cavaleiro, bravo e destemido,  o mais novo a entrar na Guarda Real.
Jaime Lannister é sem dúvida um dos personagens mais complexos com que eu me deparei em toda minha vida.
Ninguém consegue amar o Jaime de primeira; nosso primeiro reflexo em relação ao Regicida é a aversão profunda. A gente só enxerga um homem ruim e com um ego enorme. Como naquela frase Vanitas vanitatum homo. A gente enxerga Jaime como o mais vaidoso de todos.
Mas depois que Jaime é preso pelos Stark e depois que Catelyn o manda com Brienne de volta a Porto Real, o personagem ganha um ponto de vista próprio. E aí a coisa muda de perspectiva. O ponto de vista de Jaime é um tapa na cara da sociedade; muito fácil é apontar o dedo ao outro, mas como seria estar na pele dele? Então, a gente vê o Jaime por dentro.
Descobre-se que a vaidade é um escudo; que há ali embaixo um menino frustado que apenas queria ser um cavaleiro como Sor Athur Dayne, mas pelos desvios e percursos da vida, se tornou igual ao criminoso louco Cavaleiro Sorridente.  Descobre-se um amor quase devoto, um amor além da carne pela irmã Cersei, a leoa de Jaime, sua contraparte feminina; um amor tão leal que Jaime não se permite ter outra mulher além daquela que veio ao mundo junto a si. E quando Jaime faz a Brienne a derradeira confissão de que Aerys planejava queimar Porto Real no exato instante que Tywin Lannister atinge os portões, descobre-se que Jaime é, da sua forma torta e desconcertada, um herói.
Burn Them All

Burn Them All

 

Jaime Lannister é assombrado pelas últimas palavras de Aerys; “queime-os, todos.”.

Jaime Lannister é o ubbermensch de Nietzsche, sim. O super homem. Só que do avesso, o Super Homem das Sombras.

The hour when you say, ‘What matters my happiness? It is poverty and filth and wretched contentment. But my happiness ought to justify existence itself.’

A hora que você diz, “Do que importa minha felicidade? É pobreza e sujeira e contentamento miserável. Mas minha felicidade deve justificar a própria existência.

The hour when you say, ‘What matters my reason? Does it crave knowledge as the lion his food? It is poverty and filth and wretched contentment.’

A hora que você diz, “Do que importa minha racionalidade? Ela anseia pelo conhecimento como o leão anseia por sua comida? É  pobreza, sujeira e contentamento miserável.

The hour when you say, ‘What matters my virtue? As yet it has not made me rage. How weary I am of my good and my evil! All that is poverty and filth and wretched contentment.’

A hora que você diz, “Do que importa minha virtude? Só evitou que eu me enfurecesse. Como estou cansado do meu bem e do meu mau! Toda a pobreza, sujeira e contentamento miserável.

 

Esse excerto é de Nietzche; “Sobre o Super Homem“, do Zaratrusta de Nietzche. No livro A Tormenta de Espadas, Jaime passa pelo seu calvário pessoal; perde a mão direita que, para um cavaleiro e espadachim, é basicamente o que lhe torna homem; descobre que Cersei lhe engana e provavelmente não o ama de verdade; encara friamente o modo como todas as suas tentativas de mudança ruírem tristemente. Tudo que Jaime vê a sua volta é pobreza e sujeira e contentamento miserável. Jaime, o Regicida, então tem que olhar para dentro de si mesmo, encarar todas as suas trevas e pecados. E ressurgir. Como um novo homem, um novo Jaime. Um Jaime que está disposto a tomar suas próprias decisões. Um Jaime renascido pra lutar com a mão esquerda.

 

Jaime, Regicida, o homem sem palavra, sem honra. O super homem vindo das trevas.

Jaime

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1 comentário

  1. Bia · dezembro 7, 2012

    Yasmim, pára de ser foda. Mentira, pára não. hahaha.

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