E muito antes de Ronda Rousey

Ronda Rousey

Ronda Rousey

(Antes de começar esse post, quero dar uma palavrinha; se você não gosta do UFC, de MMA, de Artes Marciais e acha que tudo é pura brutalidade, por favor não leia-o até o final. Todo mundo tem todo o direito de ter opiniões diferentes, mas por favor não saia escrevendo ou falando merda sobre as Artes Marciais, que tem milênios de tradição e pregam o respeito, a não-agressividade e a disciplina acima de tudo. Respeito o que você não entende. Não venha falar mal da Ronda, do UFC, da Liz Carmuche com comentários baixos, por favor; não venha falar que lutas são casadas-compradas, não venha falar de máfia. O futebol tem tudo isso e eu não fico esfregando na cara de quem não gosta. Apenas entendam algo sobre Artes Marciais: Existem pessoas que precisam lutar. Precisam da brutalidade. Do perigo. Que estão dispostas a arriscar suas vidas. Por uma escolha própria. Você não precisa aprovar ou não, apenas respeitar, por que essas pessoas estão lutando entre si, sem incomodar ninguém e até canalizando a agressividade de uma forma construtiva.)

A moça do sorriso iluminado da foto acima foi protagonista de um momento histórico das Artes Marciais. A primeira luta feminina do UFC, depois de 19 anos da primeira edição do evento.

Rousey lutou um round de mais de três minutos contra uma adversária de peso: Liz Carmouche. Foi uma luta de tirar o fôlego que ofuscou brincando a luta do karateka Lyoto Machida. Ambas as atletas provaram que o MMA feminino tem pernas fortes e que mulher luta bem sim. Muito mais que isso; que mulher luta bem e que não precisa ser masculina ou cair num esteriótipo de “mulher-macho”, até por que a própria Rousey é considerada um símbolo sexual nos EUA.

Infelizmente, não achei qualidade melhor do que essa daqui, para a luta:

Fiquei orgulhosíssima, como praticante de uma Arte Marcial, de ambas. O que importou aí não foi vitória ou derrota, mas na verdade a derradeira (e mais que atrasada) estreia das mulheres no maior evento de MMA do mundo.

UFC 157

UFC 157

Foi um passo de extrema importância. Falo por todas nós, mulheres. Mais uma importante vitória. Falo por nós mulheres E praticantes de Artes Marciais, que enfrentamos preconceitos e o desprezo do ego masculino. Mulheres dispostas a lutar (sim, eu morro de vontade de competir em um evento oficial de Muay Thai, um dia). Que nos esforçamos tanto quanto qualquer homem e queremos o mesmo espaço, o mesmo reconhecimento. Foi mais um degrau vencido; o passo de abertura para outras mulheres, outras lutas femininas, para mais atletas femininas surgirem, para mais eventos, para mais patrocínio, para aceitação da mídia.

É legal, pra mim, ver a reação masculina. E não digo da mídia, não. Mas do círculo social, dos meus amigos e colegas. Eles ficam deslumbrados, encantados e aterrorizados, amedrontados. Achar fêmeas de uma beleza estonteante e com a capacidade de quebrar o braço deles em menos de 5 minutos é algo que seu cérebro masculino ainda vai ter que processar e digerir em lentas etapas.

O negócio é que as ancestrais de Ronda Rousey existem há milênios, muito antes da loura pisar no octógono final de semana passado.

Antes, vou deixar claro. Sou muito orgulhosa do meu sexo, da condição de fêmea, de mulher. Minha avó, minha mãe, minhas amigas, são algumas das criaturas mais fantásticas que já conheci. Mas na sociedade, no coletivo, predomina uma imagem feminina contra a qual eu luto. Um esteriótipo. Claro que anos de luta do movimento feminista derrubaram muita coisa. Mas ainda temos a mulher tida como a romântica babaca, temos revistas femininas que falam basicamente de qual a posição sexual que mais vai agradar seu namorado, temos homens que temem mulheres que consigam ir a luta e fazer por si, criados para temer mulheres independentes. A idéia do casamento como um final inevitável, a idéia da mulher “solteirona”, o preconceito contra lésbicas… Temos ainda muito pelo que lutar. Muito mesmo. É contra essa imagem de “mulher, essa idéia do que é “feminino”, que eu luto. Que fique bem claro.

Muito desse esteriótipo veio da imagem romana e cristã de mulher que o Ocidente tem há milênios.  Mulher virou sinônimo de protetora do lar, mãe das crias, parceira fiel e monogâmica, sempre em busca da estabilidade e segurança.

Só que nem em todas as sociedades foi assim.

Eu iria restringir esse post e dizer que as mulheres celtas iam contra esse padrão. Mas acabei, depois de longa pesquisa, que não são apenas as mulheres celtas, mas as mulheres bárbaras (das  tribos consideradas “selvagens” pelos romanos, incluindo tribos germânicas-saxônicas, etc), quem fogem totalmente desse padrão criado pelo mundo pós-romano e pós-Cristão em que vivemos. Os próprios romanos, ao se depararem com essas fêmeas que eram assustadoramente o oposto da “mulher -objeto” da sociedade que viviam (embora houvessem muitas exceções de mulheres poderosas, mesmo entre romanos, mas via de regra, predominava a cultura da mulher como um bem quase móvel e usado para fazer ligações entre famílias e para parir descendentes, preferencialmente homens), caíram num choque semelhante aos homens de hoje vendo Rousey dentro do octógono.

Seguem os relatos, todos de fontes históricas fidedignas  (achadas depois de muita labuta no Google):

Cartimandua, Queen of the Brigantes was a Client Queen of Rome, that is an ally of the Romans occupying Britain, possibly from 43AD. When her consort Venutius rebelled against her the Romans sent troops to help her keep her throne. Although Roman law was generally very much against the idea of women as rulers the Romans in Britain obviously took a more pragmatic approach and accepted established British Matriarchies.

Cartimandua, Rainha dos Brigantes, era uma Rainha Cliente de Roma, e também aliada do Império durante a ocupação da Bretanha, possivelmente em torno de 43 A.C. Quando o esposo dela, Venutius, se rebelou contra ela, os Romanos enviaram tropas para ajudá-la a manter o trono. Embora a Lei Romana fosse geralmente contra a idéia de mulheres como governantes, os Romanos na Bretanha obviamente escolheram uma abordagem mais pragmática e aceitaram estabelecer o Matriarcado Britânico.

Bouddicca (or Bodiecia, Bouddica, Voadica, Voada) was the widow of King Prasutagus of the Iceni (a Client King of Rome). She was regent for her two daughters who inherited half of the kingdom, while the other half was given to Rome. The Romans objected to being given only half of the kingdom and provoked a revolt in 61AD. According to Tacitus, Suetonius, the general who finally defeated Bouddicca, told his troops that “in their ranks there are more women than fighting men.” Boudicca was eventually defeated and according to the Roman chronicler, Dio Cassius, the Britons gave her “a costly burial”.

Bouddica (ou Bodiecia, Bouddica, Voadica, Voada) era a viúva do  Rei Prasutagus dos Icenos (Um rei cliente de Roma). Ela era regente das duas filhas, que herdaram metade do reino, enquanto a outra metade foi dada a Roma. Os Romanos objetaram a receber apenas metade do reino e provocaram uma revolta em 61 A.C. De acordo com Tacitus, Suetonius, o general que finalmente conseguiu derrotar Bouddicca, disse as tropas que entre os celtas havia mais mulheres lutando que homens. Boudicca foi derrotada e de acordo com o cronista romano, Dio Cassius, os bretões deram a ela um “enterro memorável”.

Boudicca responded by leading a revolt of her  people’s forces and those of several other tribes that had grown resentful of the invading  Romans. The rebels leveled the Roman administrative center of Londinium (modern-day  London) and sacked two other Roman towns before being defeated.

Bouddicca

Bouddicca

Boudicca respondeu liderando a revolta do povo dela e muitas outras tribos rivais dos invasores romanos. Os rebeldes tomaram o centro administrativo de Roma, Londinium (hoje em dia, Londres) e saquearam mais outras duas cidades romanas antes de serem derrotados.

Diodorus Siculus wrote “Among the Gauls the women are nearly as tall as the men, whom they rival in courage.”

Diodorus Siculus escreveu: “Entre os gauleses, as mulheres são quase tão altas quanto os homens, a quem rivalizam em coragem.”.

The Roman historian Plutarch described a battle in 102 B.C. between Romans and Celts: “the fight had been no less fierce with the women than with the men themselves… the women charged with swords and axes and fell upon their opponents uttering a hideous outcry.”

O historiador romano Plutarco descreveu a batalha entre romanos e celtas em 102 A.C.: “A luta não foi menos dura com as mulheres do que com os homens… As mulheres lutavam com espadas e machados e caiam sobre os oponentes com gritos guturais e assustadores.”.

A Roman author, Ammianus Marcellinus, describes Gaullish wives as being even stronger than their husbands and fighting with their fists and kicks at the same time “like missiles from a catapult”.

“Um autor romano, Ammianus Marcellinus, descreve as esposas gaulesas ocmo sendo até mais forte que os esposos e lutando com socos e chutes ao mesmo tempo “como mísseis de uma catapulta.”.

“…a whole band of foreigners will be unable to cope with  one [Gaul] in a fight, if he calls in hiswife, stronger than he by far and with  flashing eyes; least of all when she  swells her neck and gnashes her teeth, and poising her huge white arms, begins to rain  blows mingled with kicks, like shots discharged by the twisted cords of a catapult”. 

“… Um bando inteiro de estrangeiros não será capaz de lidar com um [Gaulês] em uma luta, se ele chama sua mulher, mais forte do que ele, e com olhos brilhantes, muito menos quando ela incha o pescoço e range os dentes, e equilibra os seus enormes braços brancos, começa a chover golpes misturado com chutes, como tiros descarregados pelos cordões trançados de uma catapulta “.

Então, se você ficou chocada/chocado com a violência do armlock (ou armbar, como eles chamam nos EUA) de Ronda Rousey, ficaria estarrecidíssimo com a violência e a força das mulheres bárbaras.

O que realmente me impressiona sobre as mulheres bárbaras (das tribos, celtas, germânicas e etc) é a total oposição da idéia da mulher clássica, a mulher romana e a grega, que, apesar de suas exceções, ainda eram muito submissas dentro do sistema social. Falando especificamente da mulher celta, é impressionante a liberdade e os direitos da mulher numa sociedade de milênios atrás: Direito a divórcio, a poligamia, a propriedade privada, independência financeira, direito a trabalhar em qualquer profissão, direito a exercer poder religioso… É muito impressionante. E fascinante. Elas quebram totalmente o esteriótipo de feminilidade-submissão que se perpetuou no Ocidente.

Nós, mulheres modernas, devemos nos inspirar na mulher celta-bárbara. A idéia da mulher livre, da mulher independente e guerreira não é uma idéia moderna. É uma idéia escondida.

E Ronda Rousey abriu precedentes, pois o UFC atualizou o ranking e inseriu uma divisão feminina. A luta de Ronda e Liz sem dúvida vai dar força ao MMA feminino, vai abrir verba pra patrocínio, vai derrubar preconceitos e mudar visões de machos idiotas. E que o exemplo se expanda a todas as outras modalidades esportivas. E a outras categorias não-esportivas.

Somos mulheres. Somos livres.

E, como as mulheres bárbaras, somos guerreiras.

 

Referências/Complementos:

 

SAVINO, Heather – “The Lives of Ancient Celtic Women”

Women’s Story: Bouddicca

Lothene.org: Women Warriors in the Roman and Celtic World.

Ronda Rousey fala sobre o MMA feminino (vídeo em inglês)

Anúncios

1 comentário

  1. Nauru · março 9, 2013

    I really appreciate this post. Iˇ¦ve been looking all over for this! Thank goodness I found it on Bing. You have made my day! Thank you again

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s