Paganismo, Feminismo e o Outro em “Malévola”. [COM SPOILERS]

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Depois de eras, a boa filha a casa torna. Se eu não tivesse mesmo amado o filme, eu não estaria escrevendo sobre agora, visto minha falta de tempo de escrever qualquer coisa fora do ambiente acadêmico.

Bem, eu fui ver Malévola (Maleficent) numa despretensiosa sessão com minha mãe e minha sobrinha, que é bem pequena e foi quem quis ver o filme. Apaixonei-me totalmente. Eu achei interessante por ser duplamente uma sessão para crianças e adultos e por apresentar duplamente aspectos que agradam ambos os públicos.

Mas, especificamente, eu vou falar o que o filme significou pra mim com meu background pagão, feminista (via porradas da vida e Simone de Beauvoir) e desconstrucionista (via leituras pro pré-projeto do Mestrado).

Primeiramente, um breve resumo do enredo: O filme conta a versão de Malévola, a vilã do clássico Bela Adormecida da Disney. Malévola é uma jovem fada que se apaixona por um humano, Stefan, que a abandona, mas anos mais tarde volta para supostamente recuperar seu amor. Stefan, entretanto, rouba-lhe as asas em forma de vingar o antigo rei, a quem Malévola havia ferido em batalha. Stefan vira rei depois do feito, Malévola enfurece-se e comparece ao batizado da filha de Stefan, Aurora. Essa parte vocês conhecem, a maldição que só poderia ser quebrada por um beijo de amor verdadeiro. O plot twist acontece por que Malévola na verdade se apega a Aurora e ajuda a criar a menina, indiretamente, junto com seu corvo Diaval.

Vamos a análise.

O paganismo é onipresente nos contos de fadas, mas o que me encantou em Malévola é como isso foi explorado em detalhes minuciosos.

Primeiramente, os chifres.

 

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Não preciso lembrar que o chifre não é bem visto na nossa cultura. O chifre simboliza a traição, o diabo usa chifres na mais popular caracterização cristã do vilão bíblico. Para os povos pagãos da Europa, porém, eles tinham um significado profundamente diferente e oposto. Vou explorar alguns pra vcs aqui. Temos o Deus Celta, Cernunnos, Deus da fertilidade e encarnação da masculinidade;

O Deus Cornífero é o Deus fálico da fertilidade. Geralmente é representado como um homem de barba com casco e chifres de bode. Ele é o guardião das entradas e do circulo mágico que é traçado para o ritual começar. É o Deus pagão dos bosques, o rei do carvalho e senhor das matas. É o Deus que morre e sempre renasce. Seus ciclos de morte e vida representam nossa própria existência.

Na verdade, o chifre está ligado a masculinidade em muitas culturas:

O Sagrado Masculino existe também sob muitos nomes, entre eles Pan (Pã), Dionísio, Baco, Quíron, Hermes, Moisés, Baphomet, Amom-Rá, Mitra, Odin, Wotan e Cernunnos. Ele é uma representação masculina da divindade, e é mais conhecido como o Deus Chifrudo.

Contudo, isso mudou:

Hoje em dia, os chifres são vistos como símbolos da traição, do “babaca”…
Ninguém sabe o motivo. Aliás, a grande variedade de teorias já levantadas a respeito só vem confirmar o mistério dessa modificação no significado atribuído aos chifres, a partir da Idade Média européia. Antes disso, os cornos não eram o símbolo da pessoa que é traída pelo(a) parceiro(a), mas representavam energia, comando e potência sexual: todos os sátiros da mitologia tinham chifres, e os guerreiros vikings, bem como os gauleses da aldeia de Asterix, portavam-nos orgulhosamente em seus capacetes. Ovídio, no Canto XV das Metamorfoses, descreve, sem a menor ironia, o episódio em que Cipus, o famoso pretor romano, acorda certo dia com um portentoso par de cornos na cabeça, simbolizando o glorioso papel que desempenharia no futuro de Roma – história que não poderia ter sido narrada por um escritor medieval ou renascentista sem um inevitável sentido burlesco (fico só imaginando o efeito que esta passagem de Ovídio teria no meu tempo de ginásio, em que desatávamos a rir maldosamente só porque mencionavam a Cornualha, na Inglaterra, ou as famosas jóias de Cornélia …). Além de símbolo da força, os chifres eram – e são, até hoje – considerados uma poderosa defesa contra o mau-olhado e a feitiçaria, seja na sua forma córnea natural, seja no conhecido sinal que se faz com a mão fechada, deixando o indicador e o mindinho estendidos.

 

Bom, só daí temos um grande paradoxo: uma fêmea (fada, não mulher em exato) com chifres. Uma fêmea que carrega em si masculinidade e a capacidade de liderar. Coisa que aliás, ela faz mesmo. Malévola lidera seu povo, os Moors, contra os humanos. Mulheres liderando povos oprimidos contra um reino maior e liderado pelo lado fálico não é nada inédito na história pagã. Ao contrário, primeiramente temos a rainha icena (antigo povo celta da Bretânia, atual Inglaterra) Boudicca que liderou os celtas (povo pagão e extremamente conectado com a natureza, como os Moors) contra Roma (povo centralizado e liderado pela figura masculina de um imperador). É uma das primeiras cenas do filme e eu me lembrei da Boudicca na hora. Aliás, na história, não foi um caso único, Elizabeth I, rainha Tudor, liderou a Inglaterra contra a Espanha, império liderado por um homem, vestida em armadura e com um discurso que em muito remetia a Boudicca e sua trajetória. Boudicca e Elizabeth I também usavam os mesmos chifres que Malévola, mas eles eram invisíveis.

Um pouco sobre ambas:

Ao coincidirem ambas as notícias – a destruição de Mona e a traição aos icenos -, a reação dos bretões foi realmente selvagem. A grande rebelião organizada em seguida terminou em um autêntico derramamento de sangue nos territórios sob controle romano e, à frente da mesma, foi colocada Boadicéia ou Boudicca, a vitoriosa, seu verdadeiro nome em gaélico.

Os icenos lideraram o levante, já que, ao fim de tudo, continuavam sendo uma das tribos de maior peso na Bretanha e tinham sede de vingança. Frente à incapacidade demonstrada por seu marido, Boudicca reclamou e obteve seu direito de liderar o exército – algo impensável entre os romanos; o patriarcado machista do qual o elemento feminino ocidental suportou por tanto tempo se deve em termos à idéia greco-romana do mundo e ao pensamento semita a respeito.

Como ocorreu em outras ocasiões, a visão da enfurecida Boudicca guerreira é impressionante para amigos e inimigos. Ela é descrita como uma mulher alta, de compleição física forte, dotada de uma vasta cabeleira vermelha e capaz de mudar seu rosto com gestos e contorções típicos de qualquer guerreiro celta. A isso, somam-se seu poder para reunir um exército, sua audácia e sua decisão.

Todos os povos bretões levantaram-se em armas para segui-la. Os fatos mais destacáveis dessa reunião foram a destruição de Camulodunum, que havia sido reconvertida em cidade romana, e a fuga do promotor Decânio, obrigado a abandonar precipitadamente a ilha. Outras cidades como Verulamium (atual St. Albans) e Londinium (atual Londres) também caíram em suas mãos e nunca houve nenhum tipo de abrigo para os invasores.

 

ImagemClique para ver o discurso de Elizabeth I para as tropas inglesas vestida como homem  em The Golden Age.

 

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Outro aspecto pagão sutil é quando na luta final entre Stefan e Malévola, feminino versus masculino, os homens batem os escudos no chão. Isso era recorrente em grande parte dos povos bárbaros, antes das lutas e até influenciou a música celta. O dragão que surge nessa luta final é extremamente pagão visto que grande parte dos povos não-cristãos enxerga no dragão uma força imagética positiva, representando poder, ferocidade e etc. Os orientais foram ainda mais longe e consideraram o dragão divino, inclusive o deus Shenlong tem forma de dragão.

O conflito Moors versus humanos não é nada atípico e na academia é muito explorado nos estudos pós-coloniais; o encontro do Self (Eu) com o Other (Outro), foi introduzido nas teorias de Jacques Lacan e em seguida usado por Derrida, para definir Desconstrução. Você não é nada sem o Outro, o Outro define identidades, individuais e nacionais. Não somos aquilo que somos por sermos simplesmente, mas por que temos pessoas diferentes com quem nos moldamos e nos comparamos. Os Moors são Moors por que não são humanos e vice-versa. Segundo Karbaka, usando Derrida:

 

Na “sua aventura de sair de si e encontrar com o Outro,(…) o Eu tem que encarar a impossibilidade de voltar a ser o que era antes.

 

Ambos os Moors e os humanos são profundamente impactados pelo conflito e isso molda toda a história.

 

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E o Feminismo?

Está espalhado por todo filme. O fato de ser a história recontada do ponto de vista da bruxa já é um grande avanço. O modo como as fadas e Aurora são retratada também o são, a personalidade e a liderança de Malévola, que é apresentada tanto como heroína quanto como vilã, são coisas totalmente inimagináveis para a Disney até um pouco tempo atrás. Vemos conceitos ali da terceira geração feminista. Diferentes feminilidades, forças diferentes. Malévola e Aurora não se excluem, mas se completam e tem espaço para ambas no filme.

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Acima de tudo, eu vejo Malévola como uma grande alegoria sobre a jornada da feminilidade e do feminino, a chegada a maturidade, principalmente por que me lembra muito She de Robert Johnson, baseados em conceitos jungianos. Através da lenda de Eros e Psiquê, ele divide os arquétipos da feminilidade em dois: o agressivo, primal e feroz que é Vênus (no caso Malévola), mãe superprotetora de Eros, que estaria relacionado justamente aos (áureos) tempos do paganismo. Por outro lado, temos a Psiquê (no caso, Aurora), amada de Eros, o lado doce, emocional e delicado que estaria conectado a mulher na modernidade. Johnson tenta mostrar que ambas as feminilidades ao mesmo tempo estão em conflito e se completam. Tal qual Aurora e Malévola.

Aliás, o filme aniquila a necessidade de um príncipe. São mulheres lutando pelos próprios interesses e ajudando umas as outras. E isso é muito bom visto a grande massa de meninas de tenra idade que vai assistir ao filme. Uma mudança ideológica e tanto para Disney.

Por fim, e mais simplesmente, sem base acadêmica nenhuma, o filme é a jornada de uma menina que se tornou mulher através da dor, teve que apanhar e cometer erros para amadurecer. Numa conotação adequada, o amadurecimento de Malévola veio através da perda das asas, arrancadas pelo homem que amava. O amadurecimento a tornou sádica e sombria, cheia de ódio e dor, mas Aurora a a ajuda a recuperar a fé no amor verdadeiro. E iconicamente é Aurora quem lhe devolve as asas. Quando se livra do ódio, Malévola consegue voltar a voar.

Essa é, no final, a jornada de todos os seres humanos. Perdemos nossas asas, mas, até o fim de nossas vidas, tentamos consegui-las de volta. Por que todos, como Malévola, apenas queremos voltar a voar.

 

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Referências:

DECONSTRUCTING IDENTITY IN POSTCOLONIAL FICTION ~ KARBAKA, Cherki

QUEM É O DEUS CORNÍFERO? – http://www.emporiowicca.com.br/deus.htm

O PODER DOS CHIFRES – http://oeditor.osupremo.com.br/esoterismo/120-o-poder-dos-chifres

BOUDICCA, A RAINHA VERMELHA – http://www.templodeavalon.com/modules/mastop_publish/?tac=Boudicca%2C_a_Rainha_Vermelha

SHE: UM RESUMO – http://www.anyara-menezes-lasheras.psc.br/texto_resumo_baseado_no_livro_sh.htm

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1 comentário

  1. Ana · junho 28, 2014

    Olá! que legal ! adorei a explicaçao, obrigada por compartilhar!

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