“Clímax”, de Chuck Palahniuk: Uma resenha (e uma reflexão sobre gênero e a sexualidade pós-moderna, com possíveis spoilers).

“Clímax”

A princípio, o livro é uma mistura insana de “Barbarella” com uma paródia ácida de “50 tons de cinza”. O que parece de uma comicidade trash acaba se revelando uma obra cheias de reflexões sobre gênero, sexo, mercantilização do sexo e vícios da sociedade pós-moderna, que Palahniuk parece saber criticar como ninguém e vem nos mostrando isso desde “Clube da Luta.”.

“Clube da Luta” e “Clímax” são bem diferentes, mas parecem trazer um tema que Chuck domina: Instintos primitivos e animalescos versus a psique e a vivência do ser humano e da sociedade pós moderna. Se na obra de Tyler Durden, o foco é em um dos maiores e mais controversos instintos que nos acompanham desde os primórdios, a violência, e seu aspecto enquanto a catarse-libertação que acaba descambando num projeto distópico de reconstrução mundial (através da violência, mas cobrando o preço de vidas inocentes); nesse, Palahniuk escolhe dissertar sobre uma das nossas pulsões mais antigas e reprimidas: O Sexo.

A trama começa com uma paródia de “50 tons de cinza” e  do gênero chamado mommy porn. Penny Harrigton, uma aluna recém-formada em Direito, pobre e interiorana, está tentando a vida em Nova York, e acaba por se envolver com o milionário Cornelius Linus Maxwell (cujo acrônimo dos nomes e sobrenomes forma “CLIMAX”, que dá título ao livro em português) e se descobre cobaia de apetrechos sexuais baseados no conhecimento tântrico, que serão lançados em larga escala como sex toys para mulheres do mundo todo. Porém, os brinquedos sexuais são tão viciantes que Penny logo percebe a iminente catástrofe e o maligno plano de Maxwell: Dominar o mundo através do controle do prazer e da mente femininos. A partir daí, nossa heroína decide lutar contra o vilã e salvar suas irmãs de gênero.

Como leitora, eu fiquei desconfiada. Homens escrevendo sobre mulheres e sexualidade feminina é algo que eu, como feminista e pesquisadora, não dou muito crédito. Há marcas fortes da imaginação masculina na narrativa de Chuck, porque ele ainda é um homem escrevendo sobre algo que ele jamais vai experimentar, mas a partir do momento que eu relaxei e aceitei como uma paródia de uma obra/um gênero de literatura, as coisas começaram a fluir melhor. Tão melhor que eu li em menos de 24 horas.

“Clímax” me atraiu sobretudo pela ideia da distopia de um mundo que caiu sob o domínio do prazer sexual, e do prazer sexual feminino. Por razões particulares, o assunto me interessa demais: Sou uma pequeno-burguesa filha de pai japonês que cresceu em um lar conservador, nunca ouviu uma palavra dos pais sobre sexualidade ou gênero, era altamente controlada em termos de horários e companhia. O Sexo, para a filha mais nova de uma família burguesa conservadora, era o meu Santo Graal. De um lado, via meus irmãos gozando de uma liberdade sexual excessiva e sem censura desde cedo, por outro, eu não podia passar de uma da manhã na festa com meus amigos. Por isso assim que sai de casa e perdi minha virgindade, confesso que adoro transar e o faço com frequência – com toda a devida proteção. Minha libido é incontrolável. Além disso, adoro ler e ver pornografia (da boa, feminista de preferência, estilo Anaïs Nïn), gosto de ir em sex shop e comprar apetrechos pra usar na cama com meus parceiros. Então, a ideia de um mundo caído sob domínio do prazer sexual feminino me pareceu bastante louca e eu quis entender a crítica mordaz que Palahniuk fazia sobre isso.

Indo adiante na narrativa e superando as desconfianças iniciais, Palahniuk desenvolve uma obra que critica o feminismo liberal (o “feminismo” da grande mídia, casado com valores capitalistas neoliberais, voltado para mulher branca e abastada que dita o consumo pós-moderno material e cultural, responsável por popularizar obras como Crepúsculo 50 tons de cinza. É o “feminismo rico e branco” que estimula a mulher a ir no sex shop só no dia dos namorados, faz matérias sobre como você deve se comportar sexual e socialmnte nas revistas como Cosmopolitan Marie Claire e nunca vai promover autoras como a Anaïs Nïn, cuja vida é uma odisséia sexual intensa usando do sexo para a descoberta e libertação de si mesma), apontando-o como fator que contribui na zumbificação de mentes femininas e impulsiona o capitalismo pós-moderno e industrial. Palahniuk também critica a mercantilização do sexo e a superficialidade das relações sentimentais entre os vários personagens, e, consequentemente, como ela se dá na sociedade pós-moderna.

Um fator surpreendentemente bom do livro é que Palahniuk critica os próprios colegas de gênero. A crítica ao anacronismo do papel masculino e a falta de tato do homem com a sexualidade feminina (que é o que abre as portas do sucesso para o plano de dominação de Maxwell) são intensas. Mesmo ao verem o domínio do Beautiful You, os homens fazem o que os homens sempre fazem: se juntam em alcateia e começam a destruir tudo, ao invés de tentarem ajudar e libertar suas parceiras escravizadas. E ao invés de se voltarem contra Maxwell, os homens querem queimar Penny em público.

Palahniuk também aponta o quanto o mundo é dominado pelas mulheres, mas o quanto nós não temos noção disso e acabamos por ser subjugadas por diversos aparelhos de repressão, no caso do livro, os sex toys tântricos da Beautiful You, mas na vida real temos várias revistas femininas e a grande mídia patriarcal e machista para controlar e ditar nosso comportamento. Chuck joga sal na ferida ao mostrar a necessidade das mulheres lutarem contra isso e se libertarem dos produtos produzidos pela cultura de massa do feminismo liberal; não, que eles não possam existir, mas devem coexistir com outras formas de pensar. Eles deviam ser uma via, não o único caminho.

Como forma de oposição ao protagonista e a doentia sexualidade pós-moderna, Palahniuk traz Baba Barba-Cinza, ex-mentora de Maxwell e feiticeira sexual do Tantra. Palahniuk recorre a uma fórmula que ele gosta: buscar no conhecimento ancestral uma forma de combater/canalizar os males pós-modernos. Baba é uma figura poderosa, cuja história dramática termina na sublimação através do domínios das práticas sexuais primais e do sexo tântrico. Baba é a esperança de Penny e traz a ideia do Sexo e do Prazer como formas de viver que devem ser usadas para libertação e aperfeiçoamento do ser humano e não para sua escravidão. Confesso que vou pesquisar sobre o Tantra depois, com mais calma, por causa do livro.

Por fim, pode-se dizer que a crítica de Chuck é em relação a própria obsessão humana com o prazer e em como isso é explorado e usado pelo capitalismo para escravizar pessoas e acaba se tornando uma forma de controle social. Até eu parei para refletir sobre as minhas possibilidades de estar sendo escravizada pela minha libido, espero que conhecer o Tantra ajude na canalização da minha energia sexual.

É um livro fantástico, de uma crítica sensacional e inigualável. Absolutamente merece ser lido por todos os públicos. Vou encerrar com uma das partes mais poderosas do livro:

“A cultura em geral vinha usando o sexo displicentemente para atacar os cérebros jovens e masculinos havia tanto tempo que a sociedade incorporara essa prática maligna como se fosse algo natural.
Talvez tenha sido por isso que o mundo aceitara tão rápido o sumiço das mulheres caídas no mesmo abismo. A superestimulação artificial parecia ser a maneira perfeita de sufocar uma geração de jovens que queria mais em um mundo em que havia cada vez menos. Fossem as vítimas homens ou mulheres, a dependência de estímulo parecia ter se tornado a nova normalidade.”.

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1 comentário

  1. Luisa · setembro 30, 2015

    Este livro é fantástico mesmo! Muito bom o texto, conseguiu explorar os pontos que o autor levanta!

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