Para que servem os seus Deuses? ou pela Defesa de um Estado Laico.

Brasil em que vivemos me assusta.

Muito.

A onda conservadora encabeçada pelo líder do congresso, Eduardo Cunha juntamente com as bancadas da bala e evangélica, vem representando um retrocesso para as vitórias dos movimentos sociais no país. A PEC 215 e a PL 5.069 são apenas os dois projetos políticos badalados pela grande mídia e nas redes sociais. Mas eles são só a ponta do iceberg. A sombra da privatização das universidades públicas, a falta de uma legislação que foque nas causas LGBT e também o constante aumento de preços e impostos por governo federal se juntam a cena para mostrar um Brasil que está no olho do furacão. Eu não digo crise, eu digo momento de impasse, porque é o momento em que o conflito nos leva a resistência e a busca por melhorias. Embora, infelizmente, essa onda conservadora encontre respaldo no povo brasileiro, não é todo o povo brasileiro que concorda com o que está acontecendo. E é nessa pequena parcela que reside a esperança, pois uma fagulha pode levar a uma explosão, dado o momento certo.

Decidi escrever isso após essa revoltante notícia: A PEC que dá as igrejas evangélicas o direito de questionar o Supremo Tribunal Federal. Essa não é a única forma de expressão dessa bancada em busca de mais poder para os religiosos dentro do contexto político. Os usuários de drogas e os detentos são atendidos socialmente por igrejas, o que fere absurdamente o princípio do Estado Laico. O que me incomoda profundamente é ver a força que essas expressões religiosas cheias de ódio estão tomando e ver pouca ou nenhuma resposta dos outros movimentos religiosos.

Eu sou neopagã, politeísta, no meu altar doméstico estão os meus Deuses de sangue, os africanos e japoneses, e os meus Deuses de alma, celtas, hindus, egípcios e de outros tantos panteões que admiro e com os quais estou em contato quase que diariamente. Mas eu, acima de tudo, PRECISO de um verdadeiro Estado Laico. O Estado Laico não é contra religiões, mas contempla todas e não beneficia nenhuma especial. No entanto, quase todos os locais públicos no Brasil tem um crucifixo. Nossos feriados são católicos. Nossas universidades têm igrejas. Mas eu, enquanto pagã, não posso faltar trabalho ou aula para celebra um sabbath. Tenho que fazer isso aos fins de semana. Eu não paro minha vida pela minha religião, mas paro pela dos outros. E o que eles fazem pela minha e pelas outras? Eles riem. Debocham. Tentam me converter. Ou, então, jogam pedras.

Eu preciso de um Estado Laico para democratizar a discussão sobre religião. Eu preciso de um Estado Laico para que os meus sobrinhos tenham um ensino religioso democrático, que os ensine sobre Jesus tanto quanto sobre Ogum, Xangô, Buda, Kali, Morrighan, Benzentai e Zeus, para que as futuras gerações tenham direito de escolha. Para que os filhos de santo possam andar com suas guias sem medo. Para que os ateus possam ser ateus sem serem julgados ou rotulados como pessoas ruins ou de má fé.

Então, esse texto é um desabafo. Desabafo da dor e da ira que me enchem de ver minha nação desabando e retrocedendo para a idade média.  Do medo que é amanhã ter sido aprovado uma lei na qual seja autorizado os exércitos da Universal entrarem na minha casa, arrombarem meu altar e matarem meu gato, para depois me queimarem na fogueira.

Então, digo, neopagãos, umbandistas, budistas, espíritas e todos os não-cristãos dessa nação: Uni-vos. Para lutar pelo Estado Laico, que não é de nenhum de nós e pertence a todos. Vamos nos manifestar nas ruas e incomodar os que não querem nos ver.

Lembrar que não, NÃO EXISTE UM ÚNICO DEUS SUPREMO QUE NASCEU PRA REINAR SOZINHO SOBRE OS HOMENS. Qualquer Deus vai ter que aceitar os Outros para viver em paz e harmonia.

Nasci sob a sina das Deusas da Face Negra. São as Deusas da Guerra, da Morte e da Vida. Nasci sob Morrighan, nasci sob Kali, nasci sob Oyá, nasci sob Sekhmet. Nasci para a intensidade, para viver e morrer pelo que eu acredito.

E minhas Deusas, minhas Grandes Rainhas, senhoras da Guerra, me forjaram na paixão africana e na resiliência japonesa para uma única coisa: Lutar.

Seja no tatame.

Seja com palavras.

 

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