Matinta: A bruxa amazônica saindo das trevas.

Ou o  despertar da minha identidade amazônica.

Uma sessão despretensiosa com minha mãe rendeu uma paixão arrebatadora e fulminante por esse curta-metragem extasiante.

matinta

Segue um breve resumo com spoiler: Matinta é sobre a lenda da bruxa amazônica que se transforma em pássaro ou porco. Os registros da Matitnta variam muito na tradição paraense, mas sem dúvida, os elementos que unificam a lenda são a mulher enquanto feiticeira que se transmuta em bicho e de natureza, dúbia, mas geralmente maléfica (devido a forte influência cristã na colonização paraense). A versão do conto é mais para a visão do interior do Pará, onde a matinta ainda é uma figura extremamente forte e protagonista maléfica do jogo maniqueísta cristãos para os caboclos amazônicos. No curta em questão, a Matinta (Dira Paes) lança uma teia de sedução e feitiço ao redor de Felício, destrói-lhe a família induzindo a morte da esposa dele por feitiço. Matinta é destruída pela mãe de Felício, mas durante a sua morte, ela copula com o homem cobiçado e lhe passa a maldição de ser Matinta.

Meu texto vai ser concentrado nas cenas da Dira Paes como Matinta e na leitura feminista, pagã e não-maniqueísta da personagem Walquíria/Matinta Pereira.

bruxaria

Matinta se apaixona por Felício, que é casado. E faz feitiço para obtê-lo. Vejam bem, sou bruxa e não estou falando da abominação que é matar alguém por feitiço (e dá para ser feito, tendo os Senhores e Senhoras para isso), mas o feitiço de Walquíria é uma forma de exercer o poder e alterar a realidade dela. Acima de tudo, a Matinta é uma mulher com agência. É o que bruxas em geral são e isso as vincula fortemente ao feminismo, mas no contexto interiorano paraense, a Matinta é a antítese dos valores tradicionais. Walquíria/a Matinta é independente e trabalha para si mesma, é sensual e jovem e independente, ela não põe rédeas na sua luxúria. Ela é uma ruptura na sociedade interiorana amazônica, é a força primitiva da sexualidade feminina paraense que se contrapõe a colonização cristã. Ela é mais que uma mulher apaixonada ou uma bruxa perversa, ela É a Floresta, ela é a sexualidade mágica e a magia sexual que faz parte de cada pedaço de chão da floresta, da terra pulsante e vibrante e pagã na qual eu nasci. A cena final atesta isso:

final

Essa cena é uma sequência fantástica na qual Felício persegue Walquíria pela mata enquanto a mãe dele esconjura um feitiço para matar a Matinta. É uma cena de apoteose, de união de Eros (sexo) e Thanátos (morte), é a cena em que Walquíria se mostra como Matinta na árvore, em que ela se animaliza em um pássaro-humano de trajes rubros, é a cena que Felício, mesmo viúvo chorando luto, se entrega a Matinta que todos tanto temem. E isso tudo no meio da selva. A cena do homem amazônico (Felício) seduzido por uma bruxa-pássaro no meio da selva amazônica representa, ao meu ver, a sublime vitória do paganismo sobre o civilizado, sobre os valores ocidentais. Não interessa se ela é má ou não, a Matinta é da floresta e a floresta é dela, e lá, mesmo na morte, a Matinta é erótica, morre não de preto, mas num vestido vermelho pulsante e carnal, morre no meio do sexo, da cópula, é a suprema feiticeira amazônica, a força abissal que mesmo na morte traz a cantante vitória da vida. Para mim, uma metáfora da libertação da força sexual da mulher amazônica.

E sim, ela vence no final. Em todos os sentidos.

Afinal de contas, bruxas não podem ser subestimadas.

Muito menos as bruxas amazônicas.

E para quem quiser conferir:

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