Paganismo, Feminismo e o Outro em “Malévola”. [COM SPOILERS]

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Depois de eras, a boa filha a casa torna. Se eu não tivesse mesmo amado o filme, eu não estaria escrevendo sobre agora, visto minha falta de tempo de escrever qualquer coisa fora do ambiente acadêmico.

Bem, eu fui ver Malévola (Maleficent) numa despretensiosa sessão com minha mãe e minha sobrinha, que é bem pequena e foi quem quis ver o filme. Apaixonei-me totalmente. Eu achei interessante por ser duplamente uma sessão para crianças e adultos e por apresentar duplamente aspectos que agradam ambos os públicos.

Mas, especificamente, eu vou falar o que o filme significou pra mim com meu background pagão, feminista (via porradas da vida e Simone de Beauvoir) e desconstrucionista (via leituras pro pré-projeto do Mestrado).

Primeiramente, um breve resumo do enredo: O filme conta a versão de Malévola, a vilã do clássico Bela Adormecida da Disney. Malévola é uma jovem fada que se apaixona por um humano, Stefan, que a abandona, mas anos mais tarde volta para supostamente recuperar seu amor. Stefan, entretanto, rouba-lhe as asas em forma de vingar o antigo rei, a quem Malévola havia ferido em batalha. Stefan vira rei depois do feito, Malévola enfurece-se e comparece ao batizado da filha de Stefan, Aurora. Essa parte vocês conhecem, a maldição que só poderia ser quebrada por um beijo de amor verdadeiro. O plot twist acontece por que Malévola na verdade se apega a Aurora e ajuda a criar a menina, indiretamente, junto com seu corvo Diaval.

Vamos a análise.

O paganismo é onipresente nos contos de fadas, mas o que me encantou em Malévola é como isso foi explorado em detalhes minuciosos.

Primeiramente, os chifres.

 

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Não preciso lembrar que o chifre não é bem visto na nossa cultura. O chifre simboliza a traição, o diabo usa chifres na mais popular caracterização cristã do vilão bíblico. Para os povos pagãos da Europa, porém, eles tinham um significado profundamente diferente e oposto. Vou explorar alguns pra vcs aqui. Temos o Deus Celta, Cernunnos, Deus da fertilidade e encarnação da masculinidade;

O Deus Cornífero é o Deus fálico da fertilidade. Geralmente é representado como um homem de barba com casco e chifres de bode. Ele é o guardião das entradas e do circulo mágico que é traçado para o ritual começar. É o Deus pagão dos bosques, o rei do carvalho e senhor das matas. É o Deus que morre e sempre renasce. Seus ciclos de morte e vida representam nossa própria existência.

Na verdade, o chifre está ligado a masculinidade em muitas culturas:

O Sagrado Masculino existe também sob muitos nomes, entre eles Pan (Pã), Dionísio, Baco, Quíron, Hermes, Moisés, Baphomet, Amom-Rá, Mitra, Odin, Wotan e Cernunnos. Ele é uma representação masculina da divindade, e é mais conhecido como o Deus Chifrudo.

Contudo, isso mudou:

Hoje em dia, os chifres são vistos como símbolos da traição, do “babaca”…
Ninguém sabe o motivo. Aliás, a grande variedade de teorias já levantadas a respeito só vem confirmar o mistério dessa modificação no significado atribuído aos chifres, a partir da Idade Média européia. Antes disso, os cornos não eram o símbolo da pessoa que é traída pelo(a) parceiro(a), mas representavam energia, comando e potência sexual: todos os sátiros da mitologia tinham chifres, e os guerreiros vikings, bem como os gauleses da aldeia de Asterix, portavam-nos orgulhosamente em seus capacetes. Ovídio, no Canto XV das Metamorfoses, descreve, sem a menor ironia, o episódio em que Cipus, o famoso pretor romano, acorda certo dia com um portentoso par de cornos na cabeça, simbolizando o glorioso papel que desempenharia no futuro de Roma – história que não poderia ter sido narrada por um escritor medieval ou renascentista sem um inevitável sentido burlesco (fico só imaginando o efeito que esta passagem de Ovídio teria no meu tempo de ginásio, em que desatávamos a rir maldosamente só porque mencionavam a Cornualha, na Inglaterra, ou as famosas jóias de Cornélia …). Além de símbolo da força, os chifres eram – e são, até hoje – considerados uma poderosa defesa contra o mau-olhado e a feitiçaria, seja na sua forma córnea natural, seja no conhecido sinal que se faz com a mão fechada, deixando o indicador e o mindinho estendidos.

 

Bom, só daí temos um grande paradoxo: uma fêmea (fada, não mulher em exato) com chifres. Uma fêmea que carrega em si masculinidade e a capacidade de liderar. Coisa que aliás, ela faz mesmo. Malévola lidera seu povo, os Moors, contra os humanos. Mulheres liderando povos oprimidos contra um reino maior e liderado pelo lado fálico não é nada inédito na história pagã. Ao contrário, primeiramente temos a rainha icena (antigo povo celta da Bretânia, atual Inglaterra) Boudicca que liderou os celtas (povo pagão e extremamente conectado com a natureza, como os Moors) contra Roma (povo centralizado e liderado pela figura masculina de um imperador). É uma das primeiras cenas do filme e eu me lembrei da Boudicca na hora. Aliás, na história, não foi um caso único, Elizabeth I, rainha Tudor, liderou a Inglaterra contra a Espanha, império liderado por um homem, vestida em armadura e com um discurso que em muito remetia a Boudicca e sua trajetória. Boudicca e Elizabeth I também usavam os mesmos chifres que Malévola, mas eles eram invisíveis.

Um pouco sobre ambas:

Ao coincidirem ambas as notícias – a destruição de Mona e a traição aos icenos -, a reação dos bretões foi realmente selvagem. A grande rebelião organizada em seguida terminou em um autêntico derramamento de sangue nos territórios sob controle romano e, à frente da mesma, foi colocada Boadicéia ou Boudicca, a vitoriosa, seu verdadeiro nome em gaélico.

Os icenos lideraram o levante, já que, ao fim de tudo, continuavam sendo uma das tribos de maior peso na Bretanha e tinham sede de vingança. Frente à incapacidade demonstrada por seu marido, Boudicca reclamou e obteve seu direito de liderar o exército – algo impensável entre os romanos; o patriarcado machista do qual o elemento feminino ocidental suportou por tanto tempo se deve em termos à idéia greco-romana do mundo e ao pensamento semita a respeito.

Como ocorreu em outras ocasiões, a visão da enfurecida Boudicca guerreira é impressionante para amigos e inimigos. Ela é descrita como uma mulher alta, de compleição física forte, dotada de uma vasta cabeleira vermelha e capaz de mudar seu rosto com gestos e contorções típicos de qualquer guerreiro celta. A isso, somam-se seu poder para reunir um exército, sua audácia e sua decisão.

Todos os povos bretões levantaram-se em armas para segui-la. Os fatos mais destacáveis dessa reunião foram a destruição de Camulodunum, que havia sido reconvertida em cidade romana, e a fuga do promotor Decânio, obrigado a abandonar precipitadamente a ilha. Outras cidades como Verulamium (atual St. Albans) e Londinium (atual Londres) também caíram em suas mãos e nunca houve nenhum tipo de abrigo para os invasores.

 

ImagemClique para ver o discurso de Elizabeth I para as tropas inglesas vestida como homem  em The Golden Age.

 

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Outro aspecto pagão sutil é quando na luta final entre Stefan e Malévola, feminino versus masculino, os homens batem os escudos no chão. Isso era recorrente em grande parte dos povos bárbaros, antes das lutas e até influenciou a música celta. O dragão que surge nessa luta final é extremamente pagão visto que grande parte dos povos não-cristãos enxerga no dragão uma força imagética positiva, representando poder, ferocidade e etc. Os orientais foram ainda mais longe e consideraram o dragão divino, inclusive o deus Shenlong tem forma de dragão.

O conflito Moors versus humanos não é nada atípico e na academia é muito explorado nos estudos pós-coloniais; o encontro do Self (Eu) com o Other (Outro), foi introduzido nas teorias de Jacques Lacan e em seguida usado por Derrida, para definir Desconstrução. Você não é nada sem o Outro, o Outro define identidades, individuais e nacionais. Não somos aquilo que somos por sermos simplesmente, mas por que temos pessoas diferentes com quem nos moldamos e nos comparamos. Os Moors são Moors por que não são humanos e vice-versa. Segundo Karbaka, usando Derrida:

 

Na “sua aventura de sair de si e encontrar com o Outro,(…) o Eu tem que encarar a impossibilidade de voltar a ser o que era antes.

 

Ambos os Moors e os humanos são profundamente impactados pelo conflito e isso molda toda a história.

 

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E o Feminismo?

Está espalhado por todo filme. O fato de ser a história recontada do ponto de vista da bruxa já é um grande avanço. O modo como as fadas e Aurora são retratada também o são, a personalidade e a liderança de Malévola, que é apresentada tanto como heroína quanto como vilã, são coisas totalmente inimagináveis para a Disney até um pouco tempo atrás. Vemos conceitos ali da terceira geração feminista. Diferentes feminilidades, forças diferentes. Malévola e Aurora não se excluem, mas se completam e tem espaço para ambas no filme.

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Acima de tudo, eu vejo Malévola como uma grande alegoria sobre a jornada da feminilidade e do feminino, a chegada a maturidade, principalmente por que me lembra muito She de Robert Johnson, baseados em conceitos jungianos. Através da lenda de Eros e Psiquê, ele divide os arquétipos da feminilidade em dois: o agressivo, primal e feroz que é Vênus (no caso Malévola), mãe superprotetora de Eros, que estaria relacionado justamente aos (áureos) tempos do paganismo. Por outro lado, temos a Psiquê (no caso, Aurora), amada de Eros, o lado doce, emocional e delicado que estaria conectado a mulher na modernidade. Johnson tenta mostrar que ambas as feminilidades ao mesmo tempo estão em conflito e se completam. Tal qual Aurora e Malévola.

Aliás, o filme aniquila a necessidade de um príncipe. São mulheres lutando pelos próprios interesses e ajudando umas as outras. E isso é muito bom visto a grande massa de meninas de tenra idade que vai assistir ao filme. Uma mudança ideológica e tanto para Disney.

Por fim, e mais simplesmente, sem base acadêmica nenhuma, o filme é a jornada de uma menina que se tornou mulher através da dor, teve que apanhar e cometer erros para amadurecer. Numa conotação adequada, o amadurecimento de Malévola veio através da perda das asas, arrancadas pelo homem que amava. O amadurecimento a tornou sádica e sombria, cheia de ódio e dor, mas Aurora a a ajuda a recuperar a fé no amor verdadeiro. E iconicamente é Aurora quem lhe devolve as asas. Quando se livra do ódio, Malévola consegue voltar a voar.

Essa é, no final, a jornada de todos os seres humanos. Perdemos nossas asas, mas, até o fim de nossas vidas, tentamos consegui-las de volta. Por que todos, como Malévola, apenas queremos voltar a voar.

 

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Referências:

DECONSTRUCTING IDENTITY IN POSTCOLONIAL FICTION ~ KARBAKA, Cherki

QUEM É O DEUS CORNÍFERO? – http://www.emporiowicca.com.br/deus.htm

O PODER DOS CHIFRES – http://oeditor.osupremo.com.br/esoterismo/120-o-poder-dos-chifres

BOUDICCA, A RAINHA VERMELHA – http://www.templodeavalon.com/modules/mastop_publish/?tac=Boudicca%2C_a_Rainha_Vermelha

SHE: UM RESUMO – http://www.anyara-menezes-lasheras.psc.br/texto_resumo_baseado_no_livro_sh.htm

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The White Queen – Quando História vira Carne

The White Queen

The White Queen

A história da Inglaterra me encanta desde a infância. Nem lembro por que, só lembro que quando  chegava numa livraria ou banca de revista com meus pais, me encantava ficar horas fitando aquelas imagens antigas e lendo sobre pessoas que viveram tanto tempo antes de mim. A fascinação nunca me abandonou e me acompanha mesmo hoje em dia, o que me faz sempre estar procurando e lendo sobre a incrível trajetória dessa nação; muito apaixonante e encantadora.

Por que quem conhece sabe que existem poucos países com uma trajetória tão  complexa e bela  quanto a inglesa. O que particularmente  me encanta na Inglaterra e sua formação enquanto nação e sua posterior monarquia é a maneira como tudo é visceralmente humano, profundamente cheio de emoção e de dramas que se passam com cada um, todos os dias. Quer dizer, apesar de ser realeza e monarquia, o que me encantou sempre foi tentar despir as figuras históricas de seu manto austero dos livros didáticos e enxergar os seres humanos ali embaixo, atormentados e apaixonados, que nem consigo mesmo sabiam lidar, mas que tinham que guiar uma Inglaterra muitas vezes fragilizada e dependente de um governo firme para se manter unida.

Recentemente, as produções ocidentais de TV e filme tem comprado essa visão mais humana e transformado os trabalhos sobre figuras históricas em encantadoras metáforas da natureza humana através do poder. O maior exemplo disse se mostra na gloriosa série The Tudors, que apesar de visceralmente criticada pelos “erros” históricos, continua sendo um modelo de como se destrinchar a alma de figuras canônicas. Os profissionais que me perdoem, mas eu relevo todos os “erros” em prol das visões maravilhosas que tive no seriado.

The White Queen segue basicamente a mesma proposta, transformando a Guerra das Rosas e a saga dos Plantagenatas  em um palco onde vemos homens e mulheres lutando por poder, em meio a amor, paixão, ódio e sexo. A obra baseia-se nos livros de Philippa Gregory (The White Queen, The Red Queen, The Kingmaker’s Daughter) e foi transformada para TV pela Starz e BBC one.  Confesso que comecei a assistir sem grandes expectativas e fui completamente arrebatada, tomada de corpo e alma, tanto que assisti todos os episódios lançados em um curto espaço de tempo.

Os ingleses foram ríspidos e criticaram os aspectos mais técnicos do seriado; como as roupas. Mas acho que esses são detalhes efêmeros; comparado ao modo como os personagens conseguem ser retratado em uma humanidade tocando. Tanto que me foi praticamente impossível escolher um “lado”. Oficialmente, torço pela Margaret Beaufort, mãe de Henrique VII e grande responsável pelo filho vir a se tornar Rei posteriormente, mas todos os lados apresentam algo que consegue tocar o expectador, fazer você se comover, se emocionar, se sentir tocado. Eu adoro Elizabeth, Jacquetta, Margaret d’Anjou, as irmãs Neville e tantos outros personagens, que estão ali lutando por si, por suas Casas, pelas suas crenças, cada um da sua forma, cada um com suas armas.

Inclusive, as mulheres definitivamente são o ponto forte do seriado. A perspectiva delas domina a historia; a maior prova se faz na protagonista, Elizabeth, uma mulher poderosa e muito influente, rainha consorte de Edward IV. Uma camponesa do lado Lancaster  que conseguiu tornar-se rainha e que conquistou amor e ódio na mesma proporção.  Mas todas as outras mulheres tem suas peculiaridades e sua força pessoal, sempre mostrando isso por suas ações, sempre lutando pelo que acredita.

Margaret d'Anjou

Margaret d’Anjou

E a magia particularmente me encantou no seriado.  Eu cresci doutrinada pro As Brumas de Avalon uma obra que moldou meu modo de ver o mundo e minha religiosidade e alguns princípios carrego comigo hoje mesmo e para sempre; isso também se faz presente em The White Queen sendo que Jacquetta (mãe da Rainha) e Elizabeth tem certa instrução em Magia e acreditam-se descendentes de uma deusa do Rio.  Isso torneia toda historia de ambas de uma forma bastante contundente por toda a trama e acaba sendo uma faca de dois gumes para ambas, posteriormente. Apesar de criticado, a própria Philippa Gregory explicou que almejava que o uso da magia  fosse uma das formas que as mulheres usam para subverter a matriz machista e patriarcal da sociedade medieval, como Marion Zimmer Bradley fez com a lenda do Rei Arthur.

 

 

The White Queen se faz uma obra prima da ficção histórica atual, digno de ser assistido.  Para nos lembrar sempre que História se trata de Carne, Poder, Sangue e Paixão. Nada mais, nada aquém,  nem além.

2 broke girls (e por que eu amei essa série)

Eu nunca fui muito de comédias. O formato nunca me atraiu da forma como séries épicas ou sobrenaturais. No máximo, eu vi algumas temporadas de The Big Bang Theory e alguns episódios de Two and a Half Man nas madrugadas do SBT. Mas nunca de verdade eu tinha gostado, amado profundamente uma comédia.

Acho que tudo mudou com 2 Broke Girls.

2 Broke Girls

2 Broke Girls

Basicamente, é a história de 2 garotas falidas tentando montar um negócio de cupcakes para sair da vida quebrada que levam. O negócio é que uma delas, Caroline, é filha de um ex-milionário acusado de roubar o dinheiro público e que foi preso, tendo todos os bens congelados e deixando a filha na miséria. Ela então encontra Max, uma garçonete do Brooklyn que é baby sitter nas horas vagas e nunca conheceu um quarto do luxo de Caroline. Max e Caroline começam a trabalhar e morar juntas e tudo começa.

Bom, o enredo não é brilhante, os clichês são recorrentes aos de vários outros seriados do gênero, mas acho que o que ME fez amar a série não foi nada disso, mas por que a série me fez rir de mim mesma. É o equivalente feminino ao Two and A Half Man.

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Apesar de certos parâmetros esdrúxulos e extremos característicos do exagero das séries do tipo, Caroline e Max são bem reais. Pelo menos para mim; eu vi um pouco de cada uma em cada uma das minhas amigas quando parei para pensar. Seja física ou psicologicamente; eu vi ali o humor da Bianca, o pessimismo da Cris, as confusões da Bia, o estilo da Helen.  Não são coisas irreais, eu vi um mosaico das minhas garotas delineado na série.

max cartas

Eu vi as situações pela quais nós já passamos; primeiro por que todo universitário é pobre de natureza. Então a Caroline e a Max dividindo uma batata frita de pobre é bem eu e as meninas juntando moedas depois da aula pra comprar um lanche no mercadinho perto da parada; a Max dormindo com um facão me fez lembrar a dona da venda aqui perto de casa que trabalha com um teçado atrás do balcão pra se defender dos bandidos.

epic quote

Puxar briga pela sua amiga, consolá-la por causa de sua vida amorosa, viver presepadas no ônibus (no caso de Carol e Max, no metrô). Quem nunca?

maxx

Fora os personagens coadjuvantees, Han, Johnny, etc. Todos são engraçados e lembram alguém da vida, alguém que a gente conhece. O colega de trabalho tarado, o bonitão não fode-nem sai de cima com quem você se enrolou (E eu nem vou comentar essa parte por que seria demasiado pessoal, mas a vida amorosa da Max e a minha estão bem próximas u.u), o seu chefe pé no saco. Tá todo mundo ali. Todo mundo.

momento Hannibal

E acho que a boca solta, o realismo e jeito barraqueiro da Max são meio que coisas com quem eu me identifiquei bastante. Sou bem famosa pelo meu gênio explosivo. Mas a Max tem seus defeitos; ela é realista demais, tem medo demais, acredita demais estar confinada aos limites que a vida lhe impôs. Carol é uma patricinha falida, mimada e com uma personalidade bem “Patricinha de Beverly Hills”, mas ao mesmo tempo é muito inteligente, ousada e investidora. Max e Carol se completam. Onde uma cai, outra se levanta. Onde uma falha outra acerta.

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Enfim, não vou falar mais. O seriado é uma delícia. Rende boas gargalhadas.

fatos reais

E muitas reflexões.

O Regicida e Sua Sombra

Jaime

Jaime Lannister

… Em cada rua povo! e povo! e povo! a praça
apinhada em silêncio; o juiz que espedaça
a vara, e aos pés ma atira! aquilo é o campanário,
que lá me está chorando o dobre funerário!
Tomam-me; atam-me as mãos; chegam-me ao cepo, sente
cada um no seu colo o golpe ao meu pendente…

Fausto – Goethe

“Um leão branco correu por pastos mais altos do que um homem.”
A Fúria dos Reis –  As Crônicas de Gelo e Fogo – George R. R. Martin
“Antes de procurar o homem é necessário ter a lanterna. – Será necessariamente a lanterna do cínico?”
O viajante e sua sombra – Nietzsche
Esse  texto conterá SPOILERS sobre As Crônicas de Gelo e Fogo e Game of Thrones.
Sor Jaime Mão de Ouro, O Leão de Lannister, Senhor Comandante da Guarda Real. Também conhecido como o Regicida.
Um homem que matou o rei que jurou proteger; o homem que fode a própria irmã; o homem que jogou uma criança do alto de uma torre. Quando ele vira as costas, os homens sussurram “Regicida”. Conhecido como  o homem mais sem honra dos Sete Reinos.
Mas também um herói, o homem que evitou que a cidade inteira fosse queimada. Que se jogou na arena para salvar uma donzela indefesa e decidiu se manter num posto que todos achavam que seria-lhe impossível ocupar. Um espadachim que perdeu a mão da espada e ainda assim não desistiu de tentar lutar. Um homem que teve a coragem de fazer um inventário dos próprios pecados. Um pecador, sim, mas ao mesmo tempo um cavaleiro, bravo e destemido,  o mais novo a entrar na Guarda Real.
Jaime Lannister é sem dúvida um dos personagens mais complexos com que eu me deparei em toda minha vida.
Ninguém consegue amar o Jaime de primeira; nosso primeiro reflexo em relação ao Regicida é a aversão profunda. A gente só enxerga um homem ruim e com um ego enorme. Como naquela frase Vanitas vanitatum homo. A gente enxerga Jaime como o mais vaidoso de todos.
Mas depois que Jaime é preso pelos Stark e depois que Catelyn o manda com Brienne de volta a Porto Real, o personagem ganha um ponto de vista próprio. E aí a coisa muda de perspectiva. O ponto de vista de Jaime é um tapa na cara da sociedade; muito fácil é apontar o dedo ao outro, mas como seria estar na pele dele? Então, a gente vê o Jaime por dentro.
Descobre-se que a vaidade é um escudo; que há ali embaixo um menino frustado que apenas queria ser um cavaleiro como Sor Athur Dayne, mas pelos desvios e percursos da vida, se tornou igual ao criminoso louco Cavaleiro Sorridente.  Descobre-se um amor quase devoto, um amor além da carne pela irmã Cersei, a leoa de Jaime, sua contraparte feminina; um amor tão leal que Jaime não se permite ter outra mulher além daquela que veio ao mundo junto a si. E quando Jaime faz a Brienne a derradeira confissão de que Aerys planejava queimar Porto Real no exato instante que Tywin Lannister atinge os portões, descobre-se que Jaime é, da sua forma torta e desconcertada, um herói.
Burn Them All

Burn Them All

 

Jaime Lannister é assombrado pelas últimas palavras de Aerys; “queime-os, todos.”.

Jaime Lannister é o ubbermensch de Nietzsche, sim. O super homem. Só que do avesso, o Super Homem das Sombras.

The hour when you say, ‘What matters my happiness? It is poverty and filth and wretched contentment. But my happiness ought to justify existence itself.’

A hora que você diz, “Do que importa minha felicidade? É pobreza e sujeira e contentamento miserável. Mas minha felicidade deve justificar a própria existência.

The hour when you say, ‘What matters my reason? Does it crave knowledge as the lion his food? It is poverty and filth and wretched contentment.’

A hora que você diz, “Do que importa minha racionalidade? Ela anseia pelo conhecimento como o leão anseia por sua comida? É  pobreza, sujeira e contentamento miserável.

The hour when you say, ‘What matters my virtue? As yet it has not made me rage. How weary I am of my good and my evil! All that is poverty and filth and wretched contentment.’

A hora que você diz, “Do que importa minha virtude? Só evitou que eu me enfurecesse. Como estou cansado do meu bem e do meu mau! Toda a pobreza, sujeira e contentamento miserável.

 

Esse excerto é de Nietzche; “Sobre o Super Homem“, do Zaratrusta de Nietzche. No livro A Tormenta de Espadas, Jaime passa pelo seu calvário pessoal; perde a mão direita que, para um cavaleiro e espadachim, é basicamente o que lhe torna homem; descobre que Cersei lhe engana e provavelmente não o ama de verdade; encara friamente o modo como todas as suas tentativas de mudança ruírem tristemente. Tudo que Jaime vê a sua volta é pobreza e sujeira e contentamento miserável. Jaime, o Regicida, então tem que olhar para dentro de si mesmo, encarar todas as suas trevas e pecados. E ressurgir. Como um novo homem, um novo Jaime. Um Jaime que está disposto a tomar suas próprias decisões. Um Jaime renascido pra lutar com a mão esquerda.

 

Jaime, Regicida, o homem sem palavra, sem honra. O super homem vindo das trevas.

Jaime

Um homem de poucas palavras: Anton Tchekhov

Sim, estou viva. Não, não larguei o blog. Sim, ainda tenho muito a escrever aqui. Sim, quero explicar sobre o que me manteve afastada.

Resumidamente, posso lhes dizer que a vida anda uma loucura. Minha rotina antes de julho consistia em ir pra facul de manhã, dar aula de reforço de tarde, ir pro Muay Thai de noite nas segundas, quartas e sextas, e ainda fazer curso de inglês sábado pela manhã e ir para o pole dance de tarde. E ainda aconteceram um montão de coisas, no campo pessoal, no campo acadêmico e no campo profissional também agora no final de junho. Nossa, a última semana de junho foi realmente corrida. Eu tive que entrar com pedido de bolsa no CNPq via UEPa (Universidade do Estado do Pará) e cheguei a ir na casa da minha professora e voltar no campus no mesmo dia, e pense que a minha professora mora, literalmente, em outra cidade. Nesse dia peguei  ônibus no total.

E em julho, nada de descanso, arranjei uma vaga no treinamento de professor de um curso de inglês e tô lá ralando pela vaga de professora ou monitora. Fora que vou viajar final do mês pro ENEL, em Florianopólis, com o dinheiro de uma bolsa que consegui na UEPa e semana que vem tenho que correr pra pegar o dinheiro, comprar passagem, arrumar coisas.

Fora isso, andei me metendo numa presepadas na minha vida “amorosa”. É uma história tão doida e tão engraçada que eu teria que escrever outro post só pra ela e nem poderia contá-la de todo pq envolvem pessoas muito próximas a minha realidade e fatos que não quero que circulem pela internet. Digamos só que achei um Stanley Kowaski e aprendi que o desejo é um bonde; encontrei um capitão América pra me mostrar que sempre se pode ter esperança e por aí vai. Vou deixá-los na curiosidade com as alegorias (:P).

Mas isso é só uma idéia geral, para vcs terem alguma noção da correria que minha vida se transformou. Mas eis-me aqui, de volta.

E não vim falar de mim, mas sim de Anton Tchekhov, um autor que descobri muito recentemente e muito por acaso. Bem, como minha rotina extremamente corrida ainda nem me permitiu terminar A Tormenta de Espadas de George R. R.  Martin, minhas leituras se tornaram basicamente as da faculdade (que não são ruins, ao contrário! Li o magnífico The Waves da deusa Virginia Woolf para um trabalho de Teoria Literária no primeiro semestre) e alguns gatos pingados enxiridos sem os quais não consigo viver – há outros, mas agora eu lembro principalmente de Bukowski, esse velho safado estava sempre dentro da minha bolsa; só no primeiro semestre li Pulp, Misto Quente, Notas de um Velho Safado e comecei Ereções, ejaculações e exibicionismos – Parte 1. Agora, nos últimos três meses, a coisa ficou tão pesada lá na UEPa que eu não tive tempo pra ler praticamente nada, o que me fez começar julho sedenta por bons livros.

Então, como é que eu faria? É julho, e com a viagem e os gastos a ajudar em casa eu não poderia comprar nada muito caro. Dando meus pulos, acabei comprando com 10 reais um livro de Kerouac e um de Tchekhov da coleção 64 páginas da LP&M Pocket. Cada um era 5 reais e juro que só peguei Tchekhov por que não tinha visto um do Poe que estava perto antes de pagar, já que Kerouac é um amigo de longuíssima data.

Mas os 5 reais gastos com Tchekhov foram os melhores  reais da minha vida. Tchekov é curto, é bruto, é certeiro. Ele não é um homem que se prolongue em descrições, mas suas palavras são poucas e bem postas e ele consegue exprimir em contos tão curtos todos os sentimentos e dúvidas presentes na vida humana. Sua narração objetiva lembra Machado de Assis, mas Anton Tchekhov é mais lírico e nenhum pouco irônico; seu realismo não tem o traço da sagacidade machadiana, porém mostra-nos um lirismo, uma fatalidade e uma filosofia tão viscerais que o leitor fica abismado. Há parágrafos em que eu simplesmente parava e lia de novo, e de novo e de novo. E ainda tinha que parar e refletir sobre a profundidade daquilo.

Quase todo conto de Tchekhov é embebido por alguma moral. Moral essa que também é quase sempre acompanhada por um final triste. Alguns contos são cruéis, te dão pena dos protagonistas. Mas assim é a vida, tal qual os contos do russo, cruel e curta e bruta, e nem sempre com final feliz.

Para concluir, a obra de Tchekhov, escrita antes da Revolução Russa, é, ao meu ver, perfeita para o leitor do século XXI. O leitor sem tempo, o leitor que vive na correria. Esse leitor pode virar uma página e já terminar o conto A Palerma deliciado com  a crítica as relações de poder tecidas pelo autor, Tchekhov exprime os conceitos básicos da luta de classe e da dialética Marxista em algumas simples linhas. Mas também é para o leitor feminino, para aqueles que ainda se deliciam com os pormenores de um bom romance proibido. Mas com Tchekhov, o romance é só um gancho para uma maravilhosa reflexão sobre a vida.

É com esse conto romântico que fecho o post. Deixo a vocês um excerto (e um link para download na íntegra) de A dama do cachorrinho um conto simples e até previsível, mas de uma beleza inimaginável;

Em Oreanda, sentaram-se num banco perto da igreja e ficaram calados, olhando o mar embaixo. Mal se avistava Ialta através da névoa matutina, e nos cumes das montanhas nuvens brancas pairavam imóveis. A folhagem das árvores estava quieta, cigarras cantavam e o ruído surdo e monótono do mar, vindo de baixo, falava de repouso, do sono eterno que nos espera. Esse barulho já se fazia ouvir ali quando não havia Ialta, nem Oreanda; ele se faz ouvir agora e será assim também no futuro, surdo e indiferente, quando nós não mais existirmos. E nessa contância, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, esconde-se, talvez, a garantia de nossa salvação eterna, do incessante movimento da vida na terra, do seu contínuo aperfeiçoamento. Sentado ao lado de uma jovem mulher, que no amanhecer parecia tão bela, tranqüilizado e enfeitiçado pela visão desse panorama fantástico – o mar, as montanhas, as nuvens, o amplo céu -, Gúrov pensava que no fundo, se refletirmos bem, tudo neste mundo é maravilhoso; tudo, exceto aquilo que nós mesmos pensamos e fazemos quando esquecemos das finalidades supremas da existência e da nossa dignidade como homens.”.

(Tchekhov, Anton – A dama do cachorrinho).

American Beauty – e a ninfeta como veículo de libertação

Beleza Americana

Beleza Americana

A imagem acima fala mais do que eu jamais poderia dizer, não?

Com certeza, mas como sou chata, vou escrever mesmo assim.

Eu poderia escrever sobre o filme, American Beauty, mas muito já foi escrito sobre o enredo em si, sobre o que é a “beleza” do título, mas dessa vez, não. Dessa vez eu vou lavar a alma, sendo do contra.

Digam o que quiser, mas a ninfeta (Angela Hayes) é a força motriz do filme. E a ninfeta não é a Angela Hayes (não apenas ela). A ninfeta é todo o sonho que Lester constrói ao redor dela. E é sobre isso que eu queria escrever.

A Angela em si é uma menina fútil e mentirosa que em pouco influencia no enredo, mas sua imagem – pura, juvenil, fresca, é o que move Lester a mudar a sua vida. A verdadeira força do filme é a cena ápice – Angela no teto, cercada de pétalas vermelhas, deixando-as cair e provocando Lester com sua magnitude Nabokoviana.

Sim, por que tudo começou com esse radical: Nabokov e sua lendária Lolita.

Lolita (Dominique Swain)

Lolita (Dominique Swain)

 

E falem o que quiser, mas se não fosse pela fantasia criada por Nabokov, American Beuty não seria tão genial. Angela envolta em rosas é o símbolo da perfeição, da juventude, do vigor e de tudo que Lester perdera. Direta ou indiretamente, ela é a maior responsável por todos os fatos. Se não fosse pela cativante fantasia que Angela fez com que Lester criasse, nada daquilo teria acontecido – provavelmente, ele teria vivido até uma idade avançada, com a mesma esposa e totalmente distante de sua filha. Mas quando ele acha aquela fantasia, aquele ideal, é o que faz tudo entrar em movimento.

A ninfeta das rosas vermelhas faz com que peça por peça da realidade de Lester caia, num espetáculo digno do desabar de um castelo de cartas.

E mesmo o despertar de Lester na derradeira cena final não muda  a força simbólica do personagem, pois ela desencadeou todos os fatos até ali. A não consumação do ato é um mero detalhe.

Então, sim, há um milhão de coisas lindas a serem observadas nesse filme fantástico, digno de todos os Oscars e prêmios que levou, mas eu escolhi essa face – A ninfeta – por que de certa forma senti que ela foi desprezada. É, o pessoal foca no “despertar” de Lester da fantasia? Quem liga para o despertar? Se não fosse pela fantasia em si, nada teria acontecido!

Foi a fantasia na cabeça de Lester que fez com que ele decidisse mudar o corpo, se demitir, encarar o quão fracassada era a sua família, que o fez voltar a ouvir Pink Floyd. Foi isso que fez o homem mudar totalmente, foi isso que o fez recuperar  a vontade de viver! Foi – no final das contas – Lolita. Sempre, é Lolita, um pequeno demônio em forma de menina que domina totalmente sua vida.

Talvez eu seja uma fetichista, ex-ninfeta e amante de sonhos. Sim, sou tudo isso.

Mas, oh, quem não fica deslumbrado com o poder da pequena ninfa loura banhada por pétalas vermelhas?

 

É por isso que eu amo Bukowski

Acho que é muito difícil um escritor conseguir o feito de se tornar um dos meus preferidos sem eu sequer ter lido um livro inteiro dele. Mas como para toda regra há uma exceção, Bukowski chegou para quebrar totalmente essa regra.

Comprei alguns livros de Bukowski durante a feira do livro e só isso já o tornou especial porque foi a primeira vez que comprei livros com meu suado dinheiro como professora de reforço. Comecei a ler Mulheres e a sinceridade arrebatadora do velho Buck me conquistou completamente. Mas com a loucura do semestre e o material da faculdade, eu pausei a leitura de Mulheres. Foi então que quando sai para comprar meu “auto-presente” de natal que vi um título que me chamou atenção: Notas de um velho safado. E não me surpreendeu nadinha quando vi o nome do autor; Charles Bukowski. Sem hesitar, comprei o livro.

Como é uma coleção de contos e nota avulso, comecei a ler, pois não haveria problema com descontinuidade do enredo. E foi aí que Bukowski mostrou-se ainda mais genial, ainda mais belo, ainda mais inteligente e me fez amá-lo ainda mais!

O que eu realmente amo na escrita do Buck é a absoluta falta de pretensão. Bukowski não é Homero ou Shakespeare, ele é o escritor dos puteiros, dos bares fétidos, das prostitutas mal acabadas, dos vagabundos e dos cafajestes. Ele não está nem aí se vc não gosta de palavrões; ele os escreve aos montes. Ele não liga pra coerência, regras gramaticais ou morais. Bukowski é espontaneidade pura, é escrita fluindo do jeito que tem que ser – naturalmente. E muitas vezes regada a uísque.

E mesmo sendo assim tão espontâneo, Bukowski é genial! É no meio das banalidades que vc se depara com diamantes. Bukowski é muito mais que mero escritor; ele é poeta, filósofo e  um ser humano honesto. No meio de uma corrida de cavalos ele encontra a deixa para falar sobre os marginalizados do sistema; de uma luta de pugilistas ele retira a dolorosa realidade de que quanto mais  vc luta mais vc se fode pq sempre aparecerá alguém melhor que vc para te dar uma surra (e nesse conto, eu fiquei impressionada com a capacidade do Buck de descrever uma luta, quase com a visão de um profissional); do assassinato de Kennedy ele consegue destrinchar toda a hipocrisia do American Way of Life e ele trás Jesus Cristo sob a forma de um jogador com asas que veio para salvar um time de beisebol ferrado.

Mas ler Bukowski é também um soco na cara. Não raro vc vai ler uma frase tão indizivelmente crua que vai pensar “Nossa, com certeza” e vai se sentir mal, vai se sentir a bosta do mundo. Buck é isso.

Bukowski é a realidade nua e crua, palavrões carregados de sinceridade, cafajestagem e bebedeira. Bukowski é Deus no meio de um par de pernas cobertas por meias de náilon.

Vou postar aqui algumas das minhas partes preferidas de Notas de um velho safado

Deus vence o Homem sempre e continuadamente, sendo Deus Seja lá o que Foi – uma metralhadora filha da puta ou a pintura de Klee, bem, e agora, aquelas pernas de náilon dobrando-se ao redor de algum outro maldito imbecil. Malone me devia 250 milhas e não poderia pagar. J.C. com asas, J.C. sem asas, J.C. numa cruz, eu ainda estava um pouco vivo e caminhei em volta pelo chão, sentei-me sobre aquele vaso de prisão e comecei a cagar, ex-maior dirigente da liga, ex-homem, e um vento leve através das grades e um jeito suave de ir.

todas aquelas viagens, todas aquelas páginas de Kerouac, todas aquelas prisões, para morrer sozinho sob uma gélida lua mexicana, sozinho, vocês compreendem? Será que vocês  não são capazes de ver os miseráveis e insignificantes cactos? o México não é um lugar terrível simplesmente porque ele é oprimido. será que vocês não são capazes de ver os animais do deserto observando? os sapos comuns e as intanhas?, as serpentes como nacos das mentes dos homens rastejando, parando, esperando, surdas sob surdas luas mexicanas. répteis, coisas se mexendo rapidamente, olhando para esse cara de camiseta branca na areia.

Neal, ele encontrou o seu lance, não machucou ninguém. o garoto durão que andou pelas prisões no chão ao longo de uma ferrovia mexicana.

a única noite que eu o encontrei eu disse “Kerouac escreveu todos teus outros capítulos. eu já escrevi teu último.”

“vai fundo,” disse ele, “escreva”

fim do original.

Do conto onde Bukowski encontra Neal Cassady, grande amigo de Kerouac e fonte de inspiração do antológico Dean Moriarty.

eu ri. Ele me deixa a vontade e é humano. Todo homem tem medo de ser viado. Fiquei um pouco cansado disso. Talvez devêssemos todos nos tornar viados e relaxar. (…)

é por isso que me afasto das pessoas por tanto tempo, e agora que estou encontrando as pessoas, descubro que preciso voltar pra minha caverna. (…)

o povo sempre irá te trair.

Jamais confie no povo.

E era uma bunda realmente fantástica: podia deixar um homem petrificado e ofegante, gritando palavras de amor para um céu de concreto.

(…)

Watson foi nocauteado, fazendo com que aquela noite fosse muito amarga (…) Balanos ia certamente com toda a calma, não se apressava – o puto tinha um par de cobras como braços, e ele não se movia – deslizava, enfiava-se furtivamente, saltava como uma espécie de aranha diabólica, sempre chegando lá, fazendo o serviço. (…)

Nós somos fisgados, esbofeteados e cortados em pedacinhos estupidamente. Tão estupidamente que alguns de nós acabam finalmente amando nossos atormentadores porque eles estão lá para nos atormentar de acordo com as linhas lógicas de tortura. (…)

Os cavalos continuavam avançando e dava pra ver que eles tinham a intenção de atravessar. As ordens eram essas. Esse era o momento: os homens a cavalo contra os homens sem nada. (…) cravou as esporas no seu cavalo e avançou de olhos fechados através da carne humana. O cavalo passou. Eu não estou certo se ele quebrou as costas de alguém ou não.

(…) mas eu tive a estranha sensação (…)  que as coisas não estavam bem, não estavam mesmo, e não estariam, não iriam estar nos próximos dois mil anos, no mínimo.

(…)

“as leis da sociedade e as leis da natureza são diferentes. Nós temos uma sociedade não natural. É por isso que estamos próximos de ser mandados para o Inferno.”.

Revolução soa muito romântico, vocês sabem, mas não é. É sangue, culhão e loucura; é menininhos mortos que ficam no caminho, menininhos que não entendem porra nenhuma do que está acontecendo. É a sua puta, a sua mulher rasgada na barriga por uma baioneta  e depois estuprada no cu enquanto você olha . é homens torturando homens que costumavam rir com as historinhas do Mickey Mouse. Antes de você entrar na coisa, decida onde está o espírito e onde ele estará quando a coisa tiver terminado.(…)