A Deusa Canta entre Nós: Paganismo em How Big, How Blue, How Beautiful.

Florence Welch

Há uns tantos anos atrás, em 2010, eu estava aleatoriamente vagando pelo YouTube, procurando fanvídeos sobre The Tudors, e vi um vídeo sobre a Ana Bolena da Natalie Dormer ao som de uma tal de Florence. Foi amor primeiro a essa tal de Florence.

Acho que já narrei antes aqui no blog e em diversas mídias sociais sobre meu amor pela Florence e sobre como ela me conectou ao paganismo e aos Deuses, mas nunca parei realmente pra refletir sobre isso de forma mais profunda.

Eis que a mesma, dona Florence, me lança uma oportunidade na cara, e eu não poderia deixar passar.

How Big, How Blue, How Beautiful terá seu lançamento oficial dia primeiro de junho, mas claro, foi vazado antes. E eu baixei sem culpa no coração porque vou comprar depois e porque eu passei quase 4 anos esperando essa mulher.lançar alguma coisa.

Eu realmente fiquei muito emocionada ao ouvir o CD, minha pressão baixou e eu comecei a tremer, inclusive chorei em uma das faixas. Acho que ouvir Florence é um daqueles raros momentos em que me sinto realmente compreendida e totalmente arrebatada, é inexplicável, é espiritual. Como eu disse no twitter, é como se eu fosse realmente despedaçada e arrastada pra outro plano, outra dimensão.

Duas músicas que me capturaram de forma profunda e interpretei de forma muito pessoal foram: Mother e Which Witch, sobre as quais eu pretendo analisar abaixo, mas de forma muito pessoal e conectada a minha vida enquanto mulher pagã.

  • Mother:

mother

Na minha interpretação, Mother é totalmente sobre a polaridade entre a divindade feminina e a masculina, sobre o Deus Pai do Cristianismo e a sociedade patriarcal e a busca pela Deusa, a Mãe do título. Como anteriormente frisei, é algo que está profundamente relacionado com a minha vida. Eu passei quase 20 anos como uma mulher pagã em uma sociedade cristã que me culpava pelos meus mais básicos instintos, que tentava me castrar sexualmente e me apresentava uma divindade masculina que no final acabou sendo pra mim tão opressora e distante quanto o pai que abandonou aos 15 anos e me destruiu emocionalmente de uma forma que acho que nunca haverá reparação material ou psicológico suficiente.

Oh lord, won’t you leave me

Oh senhor, você não vai me deixar?

Leave me on my knees

Deixe-me de joelhos

Cause I belong to the ground now

Porque eu pertenço ao chão

And it belongs to thee

E ele pertence a ti.

And oh lord, won’t you leave me

E, ó senhor, você não vai me deixar?

Leave me just like this

Deixe-me assim

Cause I belong to the ground now

Porque eu pertenço ao chão, agora

I want no more than this

Eu não quero mais do que isso.

Nessa primeira estrofe, senti muito do que eu sempre senti em relação a Divindade Cristã e ao meu próprio pai, aquela vontade imensa de fugir e aquela inevitabilidade de não escapar do julgo daquela figura paternal (Eu pertenço ao chão agora/E ele pertence a ti), também vejo muito da questão do materialismo pagão versus o transcendentalismo cristão (Porque eu pertenço ao chão, agora/ Eu não quero mais do que isso), que também foi um conflito particular anterior a minha volta ao paganismo, eu sempre achei e senti que era profundamente errado esperar e ansiar por uma vida pós-morte que fosse melhor que essa vida, quando o nosso mundo material é tão divino, tão sagrado.

Nunca consegui ver o sexo, por exemplo, como algo profano. Não! Pra mim sempre pareceu a mais sagrada expressão da animalidade humana. E essa animalidade não é algo negativo, mas algo primal, algo que nos reconecta a nossa ancestralidade, a vida, a terra. Hoje em dia, é fácil expressar isso, mas aos 12-13 anos vivendo a puberdade e cercada por toda a culpa cristã profundamente embutida na sociedade e profundamente conectada a toda a repressão sexual feminina no ocidente, foi difícil, foi psicologicamente árduo resistir até perceber que não era eu quem era louca, mas a sociedade que era aprisionadora. Ver a Florence expressar algo tão profundamente particular que nunca eu fui capaz de botar em palavras foi absolutamente libertador.

Mother

Enquanto os primeiros versos retratam essa figura paterna, o Deus Cristão mesmo, os versos seguintes parecem falar da figura materna, a Mãe, do título, que para mim parece ser a Deusa do neopaganismo e presente nas Deusas dos panteões das diversas vertentes do politeísmo moderno:

(..;)

Mother, make me

Mãe, faça-me

Make me a big tall tree

Faça-me uma grande árvore

So I can shed my leaves and let it blow through me

Então poderei perder minhas folhas e deixá-las voar para longer

Mother, make me

Mãe, faça-me

Make me a big grey cloud

Faça-me uma grande nuvem cinzenta

So I can rain on you things I can’t say out loud

Para que eu possa chover as coisas que eu não posso voiciferar

(.;;)

Mother, make me

Mãe, faça-me

Make me a bird of prey

Faça-me um pássaro de rapina

So I can rise above this, let it fall away

Para que eu me erga sobre isso, deixe tudo cair

Mother, make me

Mãe, faça-me

Make me a song so sweet

Faça-me uma doce canção

Heaven trembles, fallen at our feet

O Paraíso treme, caído aos nossos pés.

(…)

Acho que não consigo expressar o quão exata são essas partes sobre a minha relação com a Grande Rainha Morrighan, ou a Grande Deusa Mãe, a quem eu cultuo de uma forma bem livre. Eu sou uma coisinha selvagem e desorganizada, mesmo no paganismo e me considero pagã livre. Tento não estar atada a Wicca ou qualquer outra vertente, porque incorporo elementos muito sincréticos, de outras religiões e de origem relativa as minhas ancestralidades africana e japonesa, na minha vivência pagã. Também não tenho muito definidas essas questões teológicas, porque gosto de viver a particularidade, do reconstrucionismo celta, e a universalidade da Wicca de igual forma. Sou uma criatura estranha.

Mas voltando a Mãe, que eu chamo de Morrighan e que tantos outros chamam de outros nomes, mas vamos ficar em consonância com a Florence e chamá-la de Mãe. Eu recebi o chamado da Mãe aos 12 anos, quando eu comecei a ler As Brumas de Avalon. Embora meus amigos e família pensassem nisso só uma fase pagã-bruxa que quase toda jovem tem, não era. Eu sempre discordei, desde criança, de muita coisa do catolicismo e do cristianismo em geral, apesar do meu profundo apreço pela figura de Jesus e sua história.

Encontrar tão cedo mulheres tão magnificamente fortes e livres como eu sempre quis ser foi algo profundamente impactante na minha psique juvenil. A Divindade por qual Morgana, Viviane, Nimue e as outras filhas de Avalon lutavam, não era a severa figura paterna do cristianismo, mas sim uma Mãe disposta a ouvir e falar com suas filhas, disposta a guiar-lhes mesmo pelo mundo em transição e na crise de Camelot. Era um Mãe de braços abertos, que não as condenava pela sexualidade, mas dava liberdade para vivê-las, era uma Mãe que não via nada de errado em uma mulher querer ser guerreira, literal ou conotativamente, e que dava valor aos sacrifícios daquelas mulheres. Claro que, essa Mãe era ríspida e severa, mas mesmo nos piores momentos de Morgana, eu conseguia sentir a Mãe amando-a de uma forma que eu nunca tinha me sentido amada pelo Deus Cristão.

Então, ao ouvir a Florence gritando por essa Mãe, para que salve-a, que transforme-a numa árvore, num pássaro, significou demais para mim. Também vejo a Mãe na música como aquela que salva, aquela que o eu-lírico busca para encontrar alívio, ao contrário do Senhor Deus anteriormente mencionado, de quem o eu-lírico parece querer fugir. Morrighan e eu vivemos vários momentos assim, momentos difíceis que eu quis ser salva, ser levada para longe. Nos outros excertos da música a Florence fala de um romance, que provavelmente é a causa do conflito da música. Eu também passei por (MAIS UM) amor platônico que envolveu altas doses de paganismo que quase me enlouqueceu de dor e a minha relação com Morrighan foi fundamental para que eu não me despedaçasse sob o peso disso.

Mother é absolutamente linda e com um significado muito profundo, para mim.

Mother

Mother

  • Which Witch
Which Witch

Which Witch

 

Which Witch é uma música sobre a qual eu carrego muitos sentimentos, mas não consigo expressá-los nem que eu ficasse eras dissertando sobre. É a música mais pagã da Florence, sem dúvida. Carrega tambores e um instrumental que definitivamente nos evoca sentimentos pagãos intensos.

Acima de tudo, pois é uma música que fala sobre um julgamento; é dúbio, pois parece ser um eu-lírico em conflito num relacionamento tortuoso, mas a letra carrega também um paralelo direto com os julgamentos das bruxas.

It’s my whole heart

É todo o meu coração
Weighted and measured inside

Pesado e medido por dentro
And it’s an old scar

E é uma cicatriz antiga
Trying to bleach it out

Tentando se purificar
And it’s my whole heart

É todo o meu coração
Deemed and delivered a crime

Atribuído e entregue como um criminoso
I’m on trial, waiting ‘til the beat comes out

Estou em julgamento, esperando até a batida escapar

 Definitivamente, não consigo ouvir a música sem traçar imediatamente um paralelo com filmes, livros e séries que assisto desde a infância. De bruxas sendo queimadas, perseguidas e julgadas. Pode parecer muito antigo, mas não é. Até hoje, a mulher pós-moderna sofre julgamentos em todos os níveis. Dentro de relacionamentos, dentro da família, pela mídia, pelo padrão estético social inatingível, pelas religiões patriarcais sempre prontas a montar uma fogueira. Esperando uma bruxa para queimar.  Somos julgadas e queimadas a todo momento, seja literal ou figurativamente.

A letra, porém, traz um viés de resistência interessante:

And it’s my whole heart

E é meu coração
While tried and tested, it’s mine

Usado e testado, mas meu
And it’s my whole heart

E é meu coração

Trying to reach it out

Tentando escapar
And it’s my whole heart

E é meu coração
Burned but not buried this time

Queimado, mas não enterrado dessa vez
I’m on trial, waiting ‘til the beat comes out

Estou em julgamento, até a batida escapar

Essa estrofe me faz lembrar, que apesar de tudo, apesar de todo julgamento e todas as fogueiras, nós resistimos. Nós, mulheres, nós, bruxas, bruxos e pagãos do mundo todo, nós estamos aqui, queimados, mas não enterrados. Nós seguimos em frente. Pois nossos corações ainda são nossos, assim como nossas crenças. E vamos continuar aqui, resistindo e lutando.

which witch

E Florence continuará, conosco. Cantando por nós. E pela Deusa. E pelos Deuses.

Until the beat comes out.

Florence in Rio – sobre como eu atravessei o Brasil pra ver essa mulher e faria tudo de novo.

Flo

 

 

(Dedicado aos meus irmãos em Dali: Botan, Priscila, Alexandre, Bruna Cristina)

 

Acho que desde o momento que a minha amiga Bianca me mandou o link dizendo que a Florence viria ao Rock in Rio eu sabia que ia ver essa mulher, de uma forma ou outra. E assim o fiz.

Desde a compra do ingresso (que foi desesperadora e eu tive que comprar um pacote super caro da CVC), até enfrentar minha família e contar a verdade (depois de muita mentira) e bater o pé dizendo que foda-se se eu era uma mulher sozinha numa cidade desconhecida e enorme, eu iria ver a Florence e ponto final, tudo valeu a pena. Valeu a pena cada segundo e cada centavo (custeados do meu salario de monitora na UEPa, pq esse sonho era meu e ninguém além de mim poderia bancar isso). Por que se a minha banda preferida de todas e meu vocal preferido, The Doors e Jim Morrison, eu nunca poderei ver ao vivo, eu nunca poderia me permitir perder dona Florentina e sua machine, que vem no segundo lugar de bandas que amarei pra sempre.

Por que a viagem  em si foi perfeita. Tudo graças aos meus amigos do Rio (especialmente grata a Lali, que me hospedou, e ao marido e filha – lindos – dela <3; a Lu que atravessou a cidade pra me ver, a Flora que eu conheci no hotel onde me hospedei e foi uma super companhia durante os breves momentos que ficamos juntos) e a essa cidade divina, extremamente tropical e sensual que me acolheu super bem.

Mas eu quero falar sobre o show. Eu preciso falar sobre o show.

Quando a Florence entrou e eu a vi foi um choque muito grande, foi como ver algo sublime se materializando. Eu fiquei em choque durante toda a primeira faixa que ela cantou. Apenas absorvendo o impacto de ver ao vivo aquela mulher que havia anos eu acompanhava pelos CDs, pela internet e que, de uma forma ou outra, esteve presente em momentos chaves da minha vida com sua obra sublime.  Ela parecia uma deusa. Ruiva, branca, magnética e esvoaçante, cantando com a alma e uma voz assombrosa e falando, gritando, pulando e correndo como uma criança.

Ao meu redor, mulheres choravam e homens balbuciavam que ela era perfeita, que ela nem pertencia a esse mundo.

A sensação geral foi a de estar de volta (?) aos tempos primitivos em que os celtas se pintavam e saiam para caçar o gamo Rei, estar de volta aos primitivos cultos a Deusa primal em círculos de pedra, ou aquela sensação que eu tive ao ir na Praia da Joaquina em Floripa, ano passado, e me deparar com aquele mar assombroso, furioso e voraz; a sensação de ser minuscula e de que com certeza tem algo maior, algo muito essencial, sob o véu da existência nesse mundo. Florence me transmiti, e no show foi ainda mais forte, essa sensação de voltar e resgatar essa essência mistica, pagã, primitiva e visceral. Essa mulher tem um toque da Deusa e transmite isso magnificamente em sua obra.

Dois momentos mais divinos (de um show ultra perfeito e transcendental): What the Water Gave Me e No Light, No Light. Em WTWGM, eu olhei pra cima e vi a lua brilhando muito intensamente e bateu um vento muito forte, o que deixou tudo ainda mais surreal. Em NL, NL; acho que foi a melhor de todo o show, e o povo cantou junto e a Florence elevou o agudo dela a um nível que transcende a vida. Foi extremamente sublime.

Encerro esse texto aqui por que me faltam adjetivos pra exprimir o que foi aquele show.

E nunca foi, para mim, Rock in Rio. Foi Florence in Rio.

Sweet Nothing

Nota da autora: Um conto que surgiu a partir do clipe de Florence Welch e Calvin Harris.  Simples e súbito, estrelado, na minha mente, por Jim Morrison e Florence Welch. Dedicado as minhas irmãs em Dali, Botan, Priscila e Bruna.

Sugiro que a leitura seja feita após assistirem o clipe e/ou ouvindo a música.

And it’s hard to learn
And it’s hard to love
When you’re giving me such sweet nothing

I

Aquele não podia ser o mesmo homem que conhecera a tantos anos atrás. Bebendo daquele jeito, falando aquelas coisas todas, esbofeteando-as. Mary ia até o espelho só para contabilizar diariamente as marcas de agressão, os roxos que se espalhavam por seu corpo, como malévolas pérolas daquela relação doentia.

Por que sim, ele gritava com ela e a espancava durante o dia para os dois transarem feito animais durante a noite. Era um ciclo vicioso, uma teia maligna que a envolvera. Conhecera Douglas havia cinco anos e morava junto com ele há dois anos. Os três primeiros anos de namoro foram relativamente calmos e sem maiores problemas, exceto por alguns períodos de distância em que ambos os lados foram infiéis.

Mas quando começaram a morar juntos, foi como se a imagem de companheiro compreensivo e amoroso desabasse e dia-a-dia, uma besta selvagem e bêbada se revelasse diante de Mary. As discussões se intensifacavam a medida que os meses passavam. A primeira vez que ele a estapeoou ficou grava na memória dela para sempre, a dor do golpe, o ardor na pele e a forte vermelhidão. Na verdade, Mary lembrava até mesmo do som dos dedos dele contra a pele dela.

E claro que ele se transmutara também fisicamente, de jovem Dionísio a beat barbudo e barrigudo em alguns meses. Não que ela se incomodasse, mas aquela parecia acompanhar a transmutação da alma dele, do ego dele.

Quando ele chegou, estava bebâdo. Ele gritou por que não havia jantar, por que tudo que havia para comer era pizza do dia anterior. Eles discutiram e a cena de agressão se iniciou: ele bateu nela, ela quebrou a garrafa de cerveja na cabeça dele, ele a derrubou no chão e chutou-a na barriga com tanta força que ela uivou de dor, ela agarrou na perna dele e mordeu a panturrilha por debaixo do jeans velho dele, tão enlouquecida de fúria quanto um animal selvagem.

Eles brigaram um pouco mais, ela conseguiu se levantar e arranhou a cara dele até sair sangue. Ele queria esmurrá-la, mas ela se trancou no banheiro antes dele alcançá-la e se trancou no banheiro, ouvindo-o ele quebrar os pratos de vidro que tinham. Acabou rápido, eram poucos. Os outros ele quebrara nas primeiras brigas.

Ela saiu do banheiro para o quarto, ele estava dormindo na mesa, em cima dos restos da pizza do dia anterior.

Estava deitada na cama, dormindo, era madrugada. Ele entrou, tossindo e a despertou. Ele nunca falava nada nesses momentos, apenas a erguia pelo tronco e a beijava com voracidade, machucando a pele branca dela com a barba dele, deixando os lábios inchados, mordendo-os até sangrar.

Ele tirava a camisola e a roupa de baixo dela rápida e brutalmente, atirando-as num canto, mordendo o pescoço e os seios, colocando as mãos sob o montante de pêlos pubianos dela e deixando ali por vários e deliciosamente angustiantes minutos. Depois, ele tirava a própria roupa e a penetrava com força, penentrando-a profundamente, com a exatidão bestial de uma fera insaciável. Mary poderia mentir, mas seu corpo não; ela se contorcia sob ele e conforme ele entrava e saia, cavalgando-a com a precisão que um cruzado experiente montaria seu melhor alazão, ela sucumbia e gemia e gritava. Sempre gritava alto, o grito angustiado, desumanizado e amorfo de uma fêmea no cio possuída por seu macho.

A verdade era que muito daquele caótico relacionamento só vicejara por que eles fodiam como animais e isso dava a ambos uma sombria e primitiva sensação de completidão.

Mas as coisas estavam passando dos limites. As últimas brigas estavam beirando o risco de vida, em uma ele a espancara até ela quase entrar em coma, em outra, ela o esfaqueara e eles tiveram que ir para o hospital no meio da madrugada.

Ela estava chorando. Chorando por que não o aguentava mais, chorando por que ela se convertera em pouco mais que uma escrava de uma relação que jogaria os dois para o vórtice de uma destruição tão sonora quanto o colidir de duas galaxia, chorando pelas marcas em seu corpo e sua alma. Chorando por que o odiava. Chorando por que o amava.

Ela sabia qual era a única solução possível.

Amava cantar e não se importava de ganhar tão pouco num cabaré de quinta como aquele. A música preenchia cada canto de sua alma quando se apresentava, tanto fazia se era numa ópera para a aristocracia britânica ou num cabaré para umas poucas prostitutas com seus clientes e cafetões.

           

Quando Douglas saiu do bar, demorou a perceber que os homens o seguiam. Então, notou-os quando o barulho de passos na esquina não sumia do seu encalço. Acelerou os passos e os passos dos homens aceleraram com ele.

Cantava alto, sabia que estava sendo feito. Cantava  alto e intensamente para afogar os pensamentos.

Eles o encurralaram. Eram tantos. Ele não conseguia saber quantos exatamente, mas os punhos e os chutes pareciam mais do que suficientes. Tentou gritar, mas a boca logo ficou cheia de sangue. Desmoronou. Um chute no estômago…

 

 …Ela caiu no chão, em agonia. Seu show se transformara numa coreografia que mais parecia uma espécie de transe xamântico ou expressão profunda de agonia de uma alma condenada ou os dois ao mesmo tempo, ela continuou deitadada…

…Ele se contorcia, tentava se esquivar. Mas os golpes só aumentavam e pioravam. Sentiu pancadas de cacetete e uma mão com uma pedra lhe atingiu o topo do crânio. Ele desfaleceu. Não sentiu mais nada. Nunca mais sentiria alguma coisa.

Mas teve tempo para relembrar o sorriso de Mary no seu último vislumbre de consciência.

 

A música acabara. Ela estava deitada no chão do palco, todos os olhos do salão grudados nela.

Ela sabia que estava feito.

Ele morrera, como ela pedira, como ela pagara.

E nada mais fazia sentido.

Lana Del Rey e a velha sensualidade do Blues

Recentemente descobri uma cantora que me conquistou com sua voz sensual e rouca. O nome da moça é Lana Del Rey; ela não tem a misticidade cósmica da minha deusa Florence Welch ou a veia punk e roqueira da belíssima Alisson Mosshart. Não, Lana tem temas mais corriqueiros – corações partidos, amores malfadados, relações passionais e altamente dominadores e temas afins, que muitos de nós já vimos com a falecida diva Amy Winehouse.

 

Mas Lana é diferente, ao mesmo tempo, e é aí que reside a beleza da música dela. Lana é sensível e tem uma voz belíssima, e envolvente; a voz dela é um eco feminino da voz de Robert Johnson, com a mesma sensualidade e paixão inerentes ao blues. Lana pode ser considerada pop, mas toda vez que a ouço eu penso “blues”.

 

E a estética da cantora é outro ponto a se apaixonar: Lana é misteriosa, trágica e vintage. Com os lábios carnudos e o olhar misterioso, ela te hipnotiza. Quando ela começa a cantar, o feitiço se completa. Nos clipes, ela busca resgatar algo da beleza e da loucura da antiga América – a América das pin ups, de James Dean (que aparece na letra de uma das músicas dela),  a América dos Beats e de Bukowski – uma América pecadora e em busca de redenção.

 

Enfim, Lana é incrível.  Vou mostrar aqui como me apaixonei por ela:

 

I am their slave…

You gotta thrill my soul, all right
Roll, roll, roll, roll
Thrill my soul

Roadhouse Blues – The Doors

I’m not here looking for absolution
Because I’ve found myself an old solution

Bedroom Hymns – Florence + the Machine

Flying on Stage

Flying on Stage

Poets from Music reading Books

Poets from Music reading Books

Straight Look

Straight Look

Like soft, mad children...
Singing with the soul

I can’t help myself, but I LOVE seeing these lovely creatures together ❤

As Cerimônias de Florence Welch

O melhor CD da década.

É sem medo e sem dúvida que eu afirmo que o novo CD da banda inglesa Florence + The Machine, “Ceremonials”, é provavelmente a maior obra de arte musical da década.

Não quero desmerecer nenhuma banda ou artista, mas é impressionante a vitalidade da banda e a voz monumental da ruiva que conduz a máquina.

Vivemos numa era onde a música é um produto comercial e permanece no cenário musical quem consegue atrair mais gente, independente da qualidade do que é ofertado. É nesse cenário que abobrinhas ridículas como Justin Bieber surgem e vicejam como mofo no fundo de um armário. Esse tipo de coisa faria Jim Morrison se remexer no túmulo.

Mas eis que surge Florence com uma obra prima. O CD é um grande presente para todos os fãs de música de verdade e com qualidade.

Primeiro, vou dizer que conheci essa fada de cabelos rubros há mais ou menos um ano e meio. Foi num vídeo com Ana Bolena ao som de Dog Days Are Over. Daí baixei o Lungs e Florence embalou boa parte do meu ano de 2010 e a minha luta pelo vestibular.

Só que desde o início do ano eu comecei a ficar sequiosa pelo novo CD, já que ouvira o Lungs a exaustão. Acompanhei as poucas notícias disponíveis. Como minha vida mudou bastante, fiquei sem tempo e meio que deixei o assunto esquecido em algum canto da mente. Foi então que minha amiga Barbara divulgou no twitter a primeira preview do novo CD: What the Water Gave Me. Foi amor a primeira ouvida. Florence + the Machine passou do status de “mais uma banda que eu gosto” para “uma das bandas que eu verdadeiramente gosto”. Desde aí tenho acompanhado diariamente – sem brincadeira, todo dia mesmo – as novidades sobre o Ceremonials – primeiro clipe, primeiro single, data de lançamento, entrevistas, live previews.

Eis que ontem o CD vazou.

E eu juro que quis ser uma boa fã que não baixaria e esperaria pelo dia 31/10 e compraria o CD original e tudo mais. Mas quem disse que eu consegui?

E não me arrependo de ter baixado por que é uma obra de arte, verdadeiramente. Um dos maiores feitos musicais do século XXI. Florence evoluiu e amadureceu tanto como cantora como em termos de composição. As letras são bem profundas e a voz dela alcança feitos incríveis, variando de notas graves a agudos extremos em uma só canção. Ela mostrou que a menina frágil e intimista do Lungs se tornou uma mulher forte e assustadoramente sombria, com um talento insano e incrível. The Machine também evoluiu muito, pois o instrumental do CD está perfeito, algo épico e litúrgico comparável ao The Soft Parade do Doors – cuja genialidade dos arranjos é dificilmente encontrada atualmente, mesmo com tanta tecnologia. Vou analisar faixa por faixa do Deluxe Edition vazado que eu baixei.

Only if for a Night é uma balada de amor para o Apocalipse. Florence fala de vozes e fantasmas a perseguindo devido a um amor frustado. É de uma batida mais constante em comparação com as outras, e a que mais tem o estilo Lungs. Mas a letra é realmente bela. A frase mais marcante para mim é “and the only solution was to stand and fight“.

Shake It Out é o primeiro single oficial, que ganhou um belíssimo clipe inspirado em The Great Gatsby com alguns elementos da misticidade pagã inerente a Florence. É a música mais positiva do disco, falando sobre renovação e expulsão de demônios, sobre iniciar algo novo e deixar tudo de errado e ruim para trás. A batida mostra a superação do The Machine, trazendo uma alegria fantástica a todos os ouvintes. Aliás a letra é extremamente metafísica, usando metáforas sobre Céu e Inferno, a frase mais marcante do primeiro single é “Looking for Heaven for the Devil in Me“.

What the Water Gave Me é a minha verdadeira e grande paixão. Estou até elaborando uma coreografia com ela. Mas deixemos isso de lado. A música é divina, sem mais. Inspirada pelo suicídio de Virginia Woolf, reflete todo o poder do elemento natural chamado água. A batida dessa música simplesmente evoca uma grande e lindíssima transcedentalidade e a voz de Florence sublima tudo, elevando a canção a um nível de cartase A música também fala de uma onipresença na composição de Welch: Amor mal-sucedido. Só que esse amor é elevado a um nível trágico, um nível de sacrifício. Amo demais essa música. A parte que mais me toca, por motivos pessoais é: “Oh my love, don’t forsake me, take what the water gave me“.

Never Let Me Go parece se comunicar diretamente com What the Water Gave Me. É como um Lullaby para um suicídio por afogamento. Lembra Virginia Woolf, por analogia. É uma música de batida triste e fatalista. Eu gosto muito dela, mas ela me pertuba. Mostra um lado de tristeza infinita de Florence que não é fácil de encarar. A frase que mais me marcou “And the arms of the ocean, delivered me“.

Breaking Down é incrível! Destaque para o The Machine que faz uma variação instrumental lindíssima, pois a música começa com uma batida que até me lembrou o hip hop (!?) e vai crescendo para tons clássicos cheios de variações belíssimas. E a voz de Florence está fantástica, grutural e envolvente. Como já diz o título da canção, é uma música sobre fraqueza – “I think I’m breaking down again” -, mas é menos fatalista que a faixa que a precede – Never Let Me Go. Tem algo de lúdico, de infantil, que torna a canção ainda mais envolvente.

Lover to Lover é meu xodó. Maliciosa, sexual e agitada, parece uma versão mais leve de Howl do álbum anterior, Lungs. Dá vontade de cantar. Tem algo que me lembra as divas antigas, como Ella Fitzgerald, talvez porque seja uma das músicas do álbum que mais mostra o potencial vocálico de Florence, com as elevações e agudos perfeitos do final da canção. Na verade a batida é bem vintage, lembra a divina Alabama Song (Whiskey Bar) do Doors. A letra é bem romanceada/sexualizada. Minha parte preferida: “Lover to Lover/Bed to Bed“.

No Light, No Light é maravilhosa, uma das melhores do álbum. Escutei ontem quase a tarde inteira. Fico feliz que seja o próximo single. É basicamente sobre uma paixão arrebatadora, onde Florence usa a música para descrever seu objeto de amor. A música começa suave e triste, lembrando Never Let Me Go, sugerindo uma certa tristeza nesse amor. Mas a batida cresce e a intensidade de Florence também e logo a tristeza se transforma em sensualidade selvagem. Revela um amor conflitante e uma idolatria infinita pelo amado – “You can choose if I stay or if I fade away“. Linda, divina. Minha parte preferida – por motivos pessoais – “Would you leave me if I told you what I’ve done?/ Would you leave me if I told you what I’ve become?”

Seven Devils é uma música assustadora. Sem brincadeira. É pertubadora. Tudo nessa música é sombrio: O instrumental e a voz de Florence. A música me sugere pertubações psicológicas/espirituais profundas. Não sei o que escrever por que realmente me assusta o fator gótico de Florence, inédito em qualquer outra música – “Seven Devils are around you/(…)/I’ll be dead before the day is done.”.

Heartlines é totamente céltica, desde a batida até a a voz de Florence. Música para dançar em Beltane, ao redor das fogueiras. Lembra um pouco o Lungs, pela letra. Junto com Lover to Lover mostra o potencial vocal de Florence. Parte preferida: “Just keep going/ the heartlines on your head.”.

Spectrum é fantástica. Hit pronto. Por que quando Florence grita “Say My Name” no refrão, seu único reflexo é gritar também. Sério. Vou evitá-la ouvir em público, pois acho que estarei sujeita a muitos micos. Tem o espírito de Shake It Out, uma mensagem positivista: “Say My Name/And we’ll never be afraid again“, com uma batida ainda mais dançante. Consigo até pensar nessa música tocando em discotecas. É a prova de que Florence, ao contrário do que temem muitos fãs puristas, pode sim ir para o mainstream e continuar sendo a menina inglesa que nos encantou desde o primeiro single, Dog Days Are Over. Dá uma vontade louca de pular e dançar feito um xamã ouvindo essa música, sério. Foi amor a primeira vista, desde o live eu amei essa canção. Parte preferida: “Saaaaaaaaaaaaay My Nameeeeeeeeeeeeee“.

All This and Heaven Too é a mais suave do disco, lembra o espírito romantico do Lungs. A batida dessa é a mais cristã de todas. Tem algo do instrumental de músicas cristãs, que ouviriamos numa ingreja católica ou anglicana. Fala sobre um grande amor. Parte preferida: “All this… And Heaven Too“.

Leave My Body é a minha música desse disco. Lembra meu pai, lembra meu amor perdido. Lembra meus desejos incompletos, insaciados. Parece que a Florence leu minha alma e colocou-a nessa canção. Relamente, me toca muito – “I don’t need a husband/ I don’t need a wife“. É complicado falar dessa música sem expor a mim e aoutras pessoas de uma forma pessoal demais, por isso só digo que, junto com Twentieth Century Fox do Doors, é uma das músicas que mais pode me definir. Parte preferida: “I don’t want your future/(…)/One right moment is all I aim.”.

Não estraga prazeres o suficiente pra descrever as faixas extras. Só digo que Landscape e What the Water Gave Me Demo Version são divinas. Mas deixo o resto para os ouvintes em geral e os fãs de Florence descobrirem. E se alguma das letras estiver errada, a culpa é minha, pois tudo que escrevi aqui é baseado apenas na audição simples e pura, e meu domínio da Língua Inglesa não é tão bom quanto deveria ser – embora eu esteja trabalhando nesse sentido.

O xamã e a sacerdotisa

O xamã e a sacerdotisa

O xamã e a sacerdotisa

Sou uma mestra em estabelecer comparações entre as criaturas que eu amo, então vamos lá.  Esses últimos tempos eu ando ouvindo muito Florence and the Machine. Nem preciso dizer que ouço The Doors todo o tempo, o tempo todo desde… Quase desde os treze, de uma forma ou de outra.

Com um cenário musical tão pobre atualmente, o simples fato de Jim Morrison ter existido é um lenitivo para alma (e para os ouvidos, naturalmente). E o mundo da música seguia entre cantoras gagas repetitivas, moleques afeminados com roupinhas ridículas e decepção pura para quem precisa de música de verdade… Eis que surge.

Do meio do caos, vinda como uma lua cheia para iluminar uma noite escura, Florence Welch apareceu. Lembro da primeira vez que ouvi Dog Days Are Over num vídeo sobre Ana Bolena. Achei tão lindo, fiquei encantada. Depois que ouvi Lungs, o primeiro CD do grupo que a cantora compõem; Florence and the Machine, a minha admiração só se firmou. Com o recente single What the Water Gave Me, Florence chegou, para mim, num patamar de deusa musical. O mesmo patamar que Jim Morrison atingiu da primeira vez que eu ouvi Light My Fire, lá no início da minha puberdade.

E agora, eles estão lá no meu bastião de estrelas da música.

O que diferencia Jim e Florence dos outros cantores é a incrível, profunda e, por vezes, quase insana poesia que emana desses dois. Eles parecem respirar lirismo e escrever versos da mais pura beleza a cada vez que o pulmão se expande para capturar oxigênio.

E são selvagens, rebentando qualquer limite da indiferença em qualquer ouvinte. São interpretações transcendentais que ambos nos presenteiam, especialmente nas apresentações ao vivo – onde Morrison incorpora o xamã do Rock e Florence se mostra a sacerdotisa pagã do indie moderno. Ou talvez, já que falamos de deuses, na música, eles sejam respectivamente Dionísio – o deus da orgia e do vinho, eternamente conhecido por induzir transes em seus fiéis – e Perséfone – esposa raptada por Hades, eternamente dividida entre a alegria da primavera na Terra e a tristeza do inverno nos confins do reino do marido.

São a prova viva da possibilidade da música de ser arrebatadora e encantadora. E embora as esperanças com a Música atual sejam poucas, eles sempre me lembrarão que a Música, acima de tudo, tem a missão de tocar a alma do ouvinte.

Jim Morrison e Florence Welch fazem isso com perfeição.