O cemitério chamado Rock and Roll

Sim, o rock and roll morreu. Foi um processo gradual e quase indolor…

Quando nasceu era uma criança selvagem e afrodescendente, numa América do Norte durante os anos 40. Veio ao mundo chorando no meio da guerra.

Então ele cresceu e virou um sensual homem, chamando-se Elvis Presley e concedendo as meninas da nação um orgasmo de dois minutos a beira do palco. Um galã romântico com poder.

Aí ele amadureceu e virou três. Três “J” lutando contra o moralismo hipócrita era o Rock não mais Presley, mas Rock Joplin-Hendrix-Morrison. O rock da juventude drogada, desesperada e revolucionária. O rock de paz e amor, o rock que era a musicalização da geração Beat. Era um aventureiro maduro e rebelde nas estradas de um país quadrado.

E se metamorfoseou em algo mais glam, mais céltico, mais lírico e menos político, sem perder a qualidade. Era o Rock Mercury-Zeppellin, o Rock que de jovem Presley ao homem beat Morrison transforma-se num bardo balzaquiano e brilhante tocando sua flauta selvagem pelo mundo inteiro.

Então, nos anos oitenta sofreu a crise da meia-idade… Ficou radical, leviano e apaixonado por garotinhas. O rock Angus-Tyler agora, um quarentão de calças de couro, sorrindo como um cafajeste para as ninfetas por aí. Mas, isso apenas onde nascera; longe de sua terra natal, ele assumiu a identidade do deboche e da crítica da pós-ditadura e da pós-revolução sexual: Num Brasil mutante, virou o rock Cazuza-Russo. Um lutador louco e poético.

E nos anos 90, finalmente deu o braço a torcer. Era o fim se aproximando. Virou o rock Kurt-Roses. Tinha melancolia e violência explodindo dentro de si e espalhava-a pelo mundo. Era o Orfeu em Agonia, prestes a ser decapitado. E o corte veio com um, suspeito e suposto, tiro de suicídio.

E agora, estou depositando uma rosa vermelha sobre seu caixão. Obrigada por tudo Rock and Roll.

O rock morreu porque seus grandes nomes se foram com, e por, ele – o rock é, para nós, seus amantes desvairados, infelizmente, um grande cemitério: um campo de lembranças dos que, como disse Kerouac, queimaram “como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas”.

Acalma a tristeza saber que estes que partiram, porém, fizeram o mundo ser melhor, mais louco e mais vívido nos efêmeros instantes em que eles estiveram caminhando entre nós.

O livro da capa rosa

Hoje, enquanto vasculhava a estante, achei um livro empoeirado. A capa era rosa; na verdade, uma composição de várias matizes brincalhonas do rosa – um rosa claro e infantil, outro rosa choque que lembra as mulheres maduras e sedutoras, outro rosa cor de pele, que remetia ao pecado da carne involuntariamente – se sobrepondo.

Peguei-o em minhas mãos, vi o desenho das delgadas e sensuais pernas de uma colegial guarnecidas com uma saia curta de pregas e já soube do que se tratava.

Lolita, de Vladimir Nabokov.

Lolita. Ninfeta. Humbert. Literatura. Amor. Paixão. Proibido.

O livro de um período tão marcante da minha vida. Segurei-o, mesmerizada.

E coloquei-o de volta a estante, após espanar a poeira com a mão.

Eu acabei a leitura de “Lolita”, como acabou aquele tempo.