Happy Birthday, Henry!

Charles Bukowski

Charles Bukowski

 

Em  16 de agosto de 1920 nascia Charles Henry Bukowski.

Alemão, beberrão, safado e escritor/poeta (nas horas vagas), a literatura de Bukowski apenas recentemente emergiu do umbral dos renegados para conseguir fama mundial.

Foi o primeiro autor que eu comprei com meu dinheiro mesmo, das aulas de reforço. Foi o primeiro autor que me mostrou uma visão realista do que é a mente masculina e isso me fez um bem incalculável.

Acho que na falta de um pai, o Bukowski com suas palavras acabou por me mostrar um pouco do mundo fora da redoma da minha inocência.

E ele próprio teve tantos problemas com o pai, quando a gente acha gente como a gente, nos sentimos em casa.
Então, eu amo amo amo meu velho safado. Parabéns, Buk!

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The White Queen – Quando História vira Carne

The White Queen

The White Queen

A história da Inglaterra me encanta desde a infância. Nem lembro por que, só lembro que quando  chegava numa livraria ou banca de revista com meus pais, me encantava ficar horas fitando aquelas imagens antigas e lendo sobre pessoas que viveram tanto tempo antes de mim. A fascinação nunca me abandonou e me acompanha mesmo hoje em dia, o que me faz sempre estar procurando e lendo sobre a incrível trajetória dessa nação; muito apaixonante e encantadora.

Por que quem conhece sabe que existem poucos países com uma trajetória tão  complexa e bela  quanto a inglesa. O que particularmente  me encanta na Inglaterra e sua formação enquanto nação e sua posterior monarquia é a maneira como tudo é visceralmente humano, profundamente cheio de emoção e de dramas que se passam com cada um, todos os dias. Quer dizer, apesar de ser realeza e monarquia, o que me encantou sempre foi tentar despir as figuras históricas de seu manto austero dos livros didáticos e enxergar os seres humanos ali embaixo, atormentados e apaixonados, que nem consigo mesmo sabiam lidar, mas que tinham que guiar uma Inglaterra muitas vezes fragilizada e dependente de um governo firme para se manter unida.

Recentemente, as produções ocidentais de TV e filme tem comprado essa visão mais humana e transformado os trabalhos sobre figuras históricas em encantadoras metáforas da natureza humana através do poder. O maior exemplo disse se mostra na gloriosa série The Tudors, que apesar de visceralmente criticada pelos “erros” históricos, continua sendo um modelo de como se destrinchar a alma de figuras canônicas. Os profissionais que me perdoem, mas eu relevo todos os “erros” em prol das visões maravilhosas que tive no seriado.

The White Queen segue basicamente a mesma proposta, transformando a Guerra das Rosas e a saga dos Plantagenatas  em um palco onde vemos homens e mulheres lutando por poder, em meio a amor, paixão, ódio e sexo. A obra baseia-se nos livros de Philippa Gregory (The White Queen, The Red Queen, The Kingmaker’s Daughter) e foi transformada para TV pela Starz e BBC one.  Confesso que comecei a assistir sem grandes expectativas e fui completamente arrebatada, tomada de corpo e alma, tanto que assisti todos os episódios lançados em um curto espaço de tempo.

Os ingleses foram ríspidos e criticaram os aspectos mais técnicos do seriado; como as roupas. Mas acho que esses são detalhes efêmeros; comparado ao modo como os personagens conseguem ser retratado em uma humanidade tocando. Tanto que me foi praticamente impossível escolher um “lado”. Oficialmente, torço pela Margaret Beaufort, mãe de Henrique VII e grande responsável pelo filho vir a se tornar Rei posteriormente, mas todos os lados apresentam algo que consegue tocar o expectador, fazer você se comover, se emocionar, se sentir tocado. Eu adoro Elizabeth, Jacquetta, Margaret d’Anjou, as irmãs Neville e tantos outros personagens, que estão ali lutando por si, por suas Casas, pelas suas crenças, cada um da sua forma, cada um com suas armas.

Inclusive, as mulheres definitivamente são o ponto forte do seriado. A perspectiva delas domina a historia; a maior prova se faz na protagonista, Elizabeth, uma mulher poderosa e muito influente, rainha consorte de Edward IV. Uma camponesa do lado Lancaster  que conseguiu tornar-se rainha e que conquistou amor e ódio na mesma proporção.  Mas todas as outras mulheres tem suas peculiaridades e sua força pessoal, sempre mostrando isso por suas ações, sempre lutando pelo que acredita.

Margaret d'Anjou

Margaret d’Anjou

E a magia particularmente me encantou no seriado.  Eu cresci doutrinada pro As Brumas de Avalon uma obra que moldou meu modo de ver o mundo e minha religiosidade e alguns princípios carrego comigo hoje mesmo e para sempre; isso também se faz presente em The White Queen sendo que Jacquetta (mãe da Rainha) e Elizabeth tem certa instrução em Magia e acreditam-se descendentes de uma deusa do Rio.  Isso torneia toda historia de ambas de uma forma bastante contundente por toda a trama e acaba sendo uma faca de dois gumes para ambas, posteriormente. Apesar de criticado, a própria Philippa Gregory explicou que almejava que o uso da magia  fosse uma das formas que as mulheres usam para subverter a matriz machista e patriarcal da sociedade medieval, como Marion Zimmer Bradley fez com a lenda do Rei Arthur.

 

 

The White Queen se faz uma obra prima da ficção histórica atual, digno de ser assistido.  Para nos lembrar sempre que História se trata de Carne, Poder, Sangue e Paixão. Nada mais, nada aquém,  nem além.

Rebelião, Revolução, Reflexão.

criancinha

Depois de uma conversa em sala hoje pela manhã, decidi escrever esse texto.

Todos sabemos que o Brasil vive um momento de grande manifestação, um momento de grande insatisfação popular, de expressão do povo sobre as situações de nosso país. As ruas de todo o país têm sido ocupadas pelo povo (principalmente, jovens universitários, guardem isso, pois usarei a diante), para mostrar aos governantes que queremos mudanças.

Isso é ótimo. Eu apoio que o povo tem que mostrar a cara e cobrar.

Mas uma série de questões vêm na esteira e quero discorrer sobre elas.

Primeiramente, gostaria de dizer que não sou o ser mais politizado do mundo, mas não sou tão alienada ao extremo (ou assim gosto de crer). E uma das primeiras coisas que fiz ao completar 16 anos foi tirar meu título. Na época, haviam eleições e eu fiquei tão excitada que perturbei minha mãe por semanas e semanas até que ela me levasse para votar. Comecei a votar quando não era obrigatório; na época estava no ensino médio, em contato direto com Sócrates e os gregos nas aulas de Filosofia. Não nego que a idei da obra A República de Platão influenciou-me bastante, embora eu não tenha tido oportunidade de lê-la.

Eu votei nulo em quase tudo nas minhas primeiras eleições. E nas que vieram depois.

O voto nulo é, ao meu ver, a forma de dizer que não achei ninguém digno do meu voto. E acho que vou perpetuar a prática indefinidamente, enquanto eu não enxergar políticos em quem eu possa confiar ao menos um pouco.

Depois disso, tive uma vida política insípida, mas tive alguma vida política. Na greve da minha universidade, ano passado, fiquei ao lado dos meus professores e compareci a reuniões deliberativas nos diversos campi espalhados pela capital, fora algumas pequenas coisas minoritárias políticas relativas a eventos acadêmicos e etc.

geração coca-cola

Vamos agora a explosão do Movimento Passe Livre.

Tudo começou em São Paulo e Rio de Janeiro, com o aumento da tarifa de ônibus para mais 20 centavos. O movimento passe livre ocupou as ruas das 2 principais capitais do Sudeste, e começaram os choques entre os manifestantes e a polícia, principalmente devido a brutalidade da PM.

Em apoio as 2 capitais, uma série de manifestações explodiu pelo resto do país, chegando inclusive a Belém do Pará, minha cidade.

Mais de 13 mil pessoas, principalmente jovens, foram as ruas, demonstrar apoio e também se manifestar contra a obra BRT, que ocupou a principal (e única) via de escoamento da cidade. Eu estive lá, com amigos. O movimento foi pacífico e respeitoso, apesar de alguns problemas em relação a partidarismos. A caminha no sentido São Braz-Entroncamento fez a cidade parar para nos ver passar.

Hoje, ao ouvir a discussão de alguns colegas em sala e deparar-me com opiniões contrárias, passei a refletir sobre as manifestações. Na hora, discordei e me opus violentamente, por que sou uma criatura violenta e impulsiva, e acho que isso é de família, mas me dispus a pensar sobre o assunto. Talvez, eu até deva desculpas a alguns amigos. Continuo sendo a favor do movimento, vou a uma outra no final de semana, mas tenho pontos interessantes a levantar.

Concluí, depois de uma longa tarde pensando sobre e analisando os padrões de revoluções populares histórica, que o que acontece agora é acima de tudo uma explosão de descontentamento. Não há foco, não há organização, não há definição clara de objetivos . Mas isso é uma marca histórica; as jacqueries da Idade Média não me deixam mentir.

Jaqueries

O que foi uma Jacquerie? Foram as revoltas camponesas contra os grandes senhores feudais na Baixa Idade Média (século X-XV), foram basicamente rebeliões de extrema violência e sem nenhum objetivo que não exorcizar séculos e séculos de exploração contínua. As rebeliões estouraram em toda a Europa e foram intensas principalmente na França. Elas foram sufocadas e não tinham um foco, foram movimentos isolados; coincidentes, mas sem sincronia proposital. Pura violência, sem política.

Mas as Jacqueries foram sucedidas pela Era das Revoluções. E a França, vale lembrar, teve uma revolução pra lá de sangrenta, seguida pela queda do Antigo Regime e reforma política. As Jacqueries guardavam a semente do sentimento sansculotista que estouraria séculos depois, culminando com a cabeça de um rei e uma rainha e de muito sangue aristocrata derramado.

A Rússia teve uma guerra civil antes que a Revolução estourasse. A Rússia e a França guardam enormes semelhanças, ao meu ver, entre seus processos revolucionários.

Não digo que o Brasil está ou vai viver uma Revolução. É um sonho pessoal, mas é uma utopia. Precisamos de mais 100 anos pra ajeitar 1/4 das coisas que precisam ser ajeitadas nesse país. A minha intenção ao mencionar os casos da França (Jacqueries e Revolução Francesa) e da Rússia é mostrar esse padrão de “Explosão de descontentamento” que se repete sem fim na história humana; quando tudo o que está acumulado resolve ser detonado junto e as manifestações começam. Começam sem foco e sem organização, começam no impulso, na paixão, na raiva.

Se instalam no subconsciente coletivo, tornam-se uma onda.

Aqui no Brasil, desde a ditadura, é clássico que esse impulso e paixão e sentimento e vontade de mudar se materializem no sangue jovem. Universitários, secundaristas e relativos se manifestam em coletivo nesses momentos, unidos por um grito maior.

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A imagem abaixo mostra por que é tão difícil, agora, no momento, definir pauta. Por que está sendo difícil fazer uma manifestação focada e com objetivos politicamente definidos. É por que é muita coisa. O impulso que bate é o de querer resolver tudo de uma vez, como é típico dos brasileiros. Talvez seja a passionalidade do sangue latino (que eu conheço bem, por que eu passional, impulsiva e violenta muitas vezes).

Mas o que eu quero acreditar, sinceramente, é que esse seja apenas o primeiro momento. Como com as Jacqueries; que seja o momento de o povo expulsar a fúria contida. Mas que depois disso possamos ter uma conscientização, especialmente nas urnas. Que o grito do povo chegue as urnas. Lá é onde a mudança verdadeira acontece. Que se estenda para outras coisas, que as causas “menores” se articulem e resolvam fazer movimentos contestatórios próprios, façam-se ouvir.

Agora, alguns pontos dos críticos que eu não concordo; Dizer “O povo que votou foi o mesmo que está reclamando“. Eu não votei no prefeito atual da minha cidade. Nem no prefeito passado. Acho que outros jovens também não votaram. Eu só votei em 2 eleições; posso ser culpada por um passado político totalmente deturpado de nossa nação? É muito fácil abrir a boca e generalizar.

Estão fazendo as coisas por que Rio e São Paulo fizeram“; não deixa de ser verdade, mas Belém sempre teve, como outras capitais, movimentos políticos, pois tenho amigos que participam do movimento vegano e feministas e sempre encabeçam, estimulam e mostram esse tipo de coisa. Marcha das Vadias tem há anos nessa cidade.  As manifestações de agora apenas reúnem mais pessoas por que fazem parte de um movimento maior  e mais divulgado.

Vocês não tem objetivo“; como expliquei nas linhas acima; o problema não é a falta, mas o excesso de pautas. Dá vontade de resolver tudo? Dá, mas lembremos que é apenas o primeiro momento, talvez a seguir possamos todos sentar e pensar, definir tudo com mais calma e ver como o que foi definido vai se materializar e refletir na realidade de nosso país.

Mas o que eu acredito é que, como as Jacqueries; as revoluções populares na época dos Tudors, o movimento da meia passagem na década de 80-90, a guerra civil russa, a mudança tem que começar de algum lugar. Talvez estejamos mesmo sendo movidos por uma paixão animal, cega e alienada agora, sim, mas esse sentimento, eu tenho fé, vai evoluir para alguma coisa mais concreta e que pode gerar frutos materialmente benéficos a todos nós.

E se essas manifestações não serviram de nada, serviram para me mudar de certa forma. E se a mudança interior começou em mim, pode ter começado em outros.

E o importante é cada um fazer a sua parte. Nem que seja um pouco.

A Divina Imagem – Lecter e Blake.

Idéia obtida a partir de uma das citações de “O Dragão Vermelho” de Thomas Harris.

 

Uma Imagem Divina

A Divine Image

Cruelty has a human heart,

A Crueldade tem um peito humano,

Clarice

And Jealousy a human face

E uma face humana invejosa

verger

Terror the human form divine,

O Terror a Divina Forma Humana

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And Secresy the human dress.

E o Segredo, a veste da humanidade.

Segredo

The human dress is forged iron,

A veste humana é forjada em ferro

Hannibal

The human form a fiery forge,

A forma humana, uma forja de fogo.

Hannibal

The human face a furnace sealed,

A face humana, um forno selado

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The human heart its hungry gorge. 

 O coração humano, uma gorja faminta.

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William Blake

E muito antes de Ronda Rousey

Ronda Rousey

Ronda Rousey

(Antes de começar esse post, quero dar uma palavrinha; se você não gosta do UFC, de MMA, de Artes Marciais e acha que tudo é pura brutalidade, por favor não leia-o até o final. Todo mundo tem todo o direito de ter opiniões diferentes, mas por favor não saia escrevendo ou falando merda sobre as Artes Marciais, que tem milênios de tradição e pregam o respeito, a não-agressividade e a disciplina acima de tudo. Respeito o que você não entende. Não venha falar mal da Ronda, do UFC, da Liz Carmuche com comentários baixos, por favor; não venha falar que lutas são casadas-compradas, não venha falar de máfia. O futebol tem tudo isso e eu não fico esfregando na cara de quem não gosta. Apenas entendam algo sobre Artes Marciais: Existem pessoas que precisam lutar. Precisam da brutalidade. Do perigo. Que estão dispostas a arriscar suas vidas. Por uma escolha própria. Você não precisa aprovar ou não, apenas respeitar, por que essas pessoas estão lutando entre si, sem incomodar ninguém e até canalizando a agressividade de uma forma construtiva.)

A moça do sorriso iluminado da foto acima foi protagonista de um momento histórico das Artes Marciais. A primeira luta feminina do UFC, depois de 19 anos da primeira edição do evento.

Rousey lutou um round de mais de três minutos contra uma adversária de peso: Liz Carmouche. Foi uma luta de tirar o fôlego que ofuscou brincando a luta do karateka Lyoto Machida. Ambas as atletas provaram que o MMA feminino tem pernas fortes e que mulher luta bem sim. Muito mais que isso; que mulher luta bem e que não precisa ser masculina ou cair num esteriótipo de “mulher-macho”, até por que a própria Rousey é considerada um símbolo sexual nos EUA.

Infelizmente, não achei qualidade melhor do que essa daqui, para a luta:

Fiquei orgulhosíssima, como praticante de uma Arte Marcial, de ambas. O que importou aí não foi vitória ou derrota, mas na verdade a derradeira (e mais que atrasada) estreia das mulheres no maior evento de MMA do mundo.

UFC 157

UFC 157

Foi um passo de extrema importância. Falo por todas nós, mulheres. Mais uma importante vitória. Falo por nós mulheres E praticantes de Artes Marciais, que enfrentamos preconceitos e o desprezo do ego masculino. Mulheres dispostas a lutar (sim, eu morro de vontade de competir em um evento oficial de Muay Thai, um dia). Que nos esforçamos tanto quanto qualquer homem e queremos o mesmo espaço, o mesmo reconhecimento. Foi mais um degrau vencido; o passo de abertura para outras mulheres, outras lutas femininas, para mais atletas femininas surgirem, para mais eventos, para mais patrocínio, para aceitação da mídia.

É legal, pra mim, ver a reação masculina. E não digo da mídia, não. Mas do círculo social, dos meus amigos e colegas. Eles ficam deslumbrados, encantados e aterrorizados, amedrontados. Achar fêmeas de uma beleza estonteante e com a capacidade de quebrar o braço deles em menos de 5 minutos é algo que seu cérebro masculino ainda vai ter que processar e digerir em lentas etapas.

O negócio é que as ancestrais de Ronda Rousey existem há milênios, muito antes da loura pisar no octógono final de semana passado.

Antes, vou deixar claro. Sou muito orgulhosa do meu sexo, da condição de fêmea, de mulher. Minha avó, minha mãe, minhas amigas, são algumas das criaturas mais fantásticas que já conheci. Mas na sociedade, no coletivo, predomina uma imagem feminina contra a qual eu luto. Um esteriótipo. Claro que anos de luta do movimento feminista derrubaram muita coisa. Mas ainda temos a mulher tida como a romântica babaca, temos revistas femininas que falam basicamente de qual a posição sexual que mais vai agradar seu namorado, temos homens que temem mulheres que consigam ir a luta e fazer por si, criados para temer mulheres independentes. A idéia do casamento como um final inevitável, a idéia da mulher “solteirona”, o preconceito contra lésbicas… Temos ainda muito pelo que lutar. Muito mesmo. É contra essa imagem de “mulher, essa idéia do que é “feminino”, que eu luto. Que fique bem claro.

Muito desse esteriótipo veio da imagem romana e cristã de mulher que o Ocidente tem há milênios.  Mulher virou sinônimo de protetora do lar, mãe das crias, parceira fiel e monogâmica, sempre em busca da estabilidade e segurança.

Só que nem em todas as sociedades foi assim.

Eu iria restringir esse post e dizer que as mulheres celtas iam contra esse padrão. Mas acabei, depois de longa pesquisa, que não são apenas as mulheres celtas, mas as mulheres bárbaras (das  tribos consideradas “selvagens” pelos romanos, incluindo tribos germânicas-saxônicas, etc), quem fogem totalmente desse padrão criado pelo mundo pós-romano e pós-Cristão em que vivemos. Os próprios romanos, ao se depararem com essas fêmeas que eram assustadoramente o oposto da “mulher -objeto” da sociedade que viviam (embora houvessem muitas exceções de mulheres poderosas, mesmo entre romanos, mas via de regra, predominava a cultura da mulher como um bem quase móvel e usado para fazer ligações entre famílias e para parir descendentes, preferencialmente homens), caíram num choque semelhante aos homens de hoje vendo Rousey dentro do octógono.

Seguem os relatos, todos de fontes históricas fidedignas  (achadas depois de muita labuta no Google):

Cartimandua, Queen of the Brigantes was a Client Queen of Rome, that is an ally of the Romans occupying Britain, possibly from 43AD. When her consort Venutius rebelled against her the Romans sent troops to help her keep her throne. Although Roman law was generally very much against the idea of women as rulers the Romans in Britain obviously took a more pragmatic approach and accepted established British Matriarchies.

Cartimandua, Rainha dos Brigantes, era uma Rainha Cliente de Roma, e também aliada do Império durante a ocupação da Bretanha, possivelmente em torno de 43 A.C. Quando o esposo dela, Venutius, se rebelou contra ela, os Romanos enviaram tropas para ajudá-la a manter o trono. Embora a Lei Romana fosse geralmente contra a idéia de mulheres como governantes, os Romanos na Bretanha obviamente escolheram uma abordagem mais pragmática e aceitaram estabelecer o Matriarcado Britânico.

Bouddicca (or Bodiecia, Bouddica, Voadica, Voada) was the widow of King Prasutagus of the Iceni (a Client King of Rome). She was regent for her two daughters who inherited half of the kingdom, while the other half was given to Rome. The Romans objected to being given only half of the kingdom and provoked a revolt in 61AD. According to Tacitus, Suetonius, the general who finally defeated Bouddicca, told his troops that “in their ranks there are more women than fighting men.” Boudicca was eventually defeated and according to the Roman chronicler, Dio Cassius, the Britons gave her “a costly burial”.

Bouddica (ou Bodiecia, Bouddica, Voadica, Voada) era a viúva do  Rei Prasutagus dos Icenos (Um rei cliente de Roma). Ela era regente das duas filhas, que herdaram metade do reino, enquanto a outra metade foi dada a Roma. Os Romanos objetaram a receber apenas metade do reino e provocaram uma revolta em 61 A.C. De acordo com Tacitus, Suetonius, o general que finalmente conseguiu derrotar Bouddicca, disse as tropas que entre os celtas havia mais mulheres lutando que homens. Boudicca foi derrotada e de acordo com o cronista romano, Dio Cassius, os bretões deram a ela um “enterro memorável”.

Boudicca responded by leading a revolt of her  people’s forces and those of several other tribes that had grown resentful of the invading  Romans. The rebels leveled the Roman administrative center of Londinium (modern-day  London) and sacked two other Roman towns before being defeated.

Bouddicca

Bouddicca

Boudicca respondeu liderando a revolta do povo dela e muitas outras tribos rivais dos invasores romanos. Os rebeldes tomaram o centro administrativo de Roma, Londinium (hoje em dia, Londres) e saquearam mais outras duas cidades romanas antes de serem derrotados.

Diodorus Siculus wrote “Among the Gauls the women are nearly as tall as the men, whom they rival in courage.”

Diodorus Siculus escreveu: “Entre os gauleses, as mulheres são quase tão altas quanto os homens, a quem rivalizam em coragem.”.

The Roman historian Plutarch described a battle in 102 B.C. between Romans and Celts: “the fight had been no less fierce with the women than with the men themselves… the women charged with swords and axes and fell upon their opponents uttering a hideous outcry.”

O historiador romano Plutarco descreveu a batalha entre romanos e celtas em 102 A.C.: “A luta não foi menos dura com as mulheres do que com os homens… As mulheres lutavam com espadas e machados e caiam sobre os oponentes com gritos guturais e assustadores.”.

A Roman author, Ammianus Marcellinus, describes Gaullish wives as being even stronger than their husbands and fighting with their fists and kicks at the same time “like missiles from a catapult”.

“Um autor romano, Ammianus Marcellinus, descreve as esposas gaulesas ocmo sendo até mais forte que os esposos e lutando com socos e chutes ao mesmo tempo “como mísseis de uma catapulta.”.

“…a whole band of foreigners will be unable to cope with  one [Gaul] in a fight, if he calls in hiswife, stronger than he by far and with  flashing eyes; least of all when she  swells her neck and gnashes her teeth, and poising her huge white arms, begins to rain  blows mingled with kicks, like shots discharged by the twisted cords of a catapult”. 

“… Um bando inteiro de estrangeiros não será capaz de lidar com um [Gaulês] em uma luta, se ele chama sua mulher, mais forte do que ele, e com olhos brilhantes, muito menos quando ela incha o pescoço e range os dentes, e equilibra os seus enormes braços brancos, começa a chover golpes misturado com chutes, como tiros descarregados pelos cordões trançados de uma catapulta “.

Então, se você ficou chocada/chocado com a violência do armlock (ou armbar, como eles chamam nos EUA) de Ronda Rousey, ficaria estarrecidíssimo com a violência e a força das mulheres bárbaras.

O que realmente me impressiona sobre as mulheres bárbaras (das tribos, celtas, germânicas e etc) é a total oposição da idéia da mulher clássica, a mulher romana e a grega, que, apesar de suas exceções, ainda eram muito submissas dentro do sistema social. Falando especificamente da mulher celta, é impressionante a liberdade e os direitos da mulher numa sociedade de milênios atrás: Direito a divórcio, a poligamia, a propriedade privada, independência financeira, direito a trabalhar em qualquer profissão, direito a exercer poder religioso… É muito impressionante. E fascinante. Elas quebram totalmente o esteriótipo de feminilidade-submissão que se perpetuou no Ocidente.

Nós, mulheres modernas, devemos nos inspirar na mulher celta-bárbara. A idéia da mulher livre, da mulher independente e guerreira não é uma idéia moderna. É uma idéia escondida.

E Ronda Rousey abriu precedentes, pois o UFC atualizou o ranking e inseriu uma divisão feminina. A luta de Ronda e Liz sem dúvida vai dar força ao MMA feminino, vai abrir verba pra patrocínio, vai derrubar preconceitos e mudar visões de machos idiotas. E que o exemplo se expanda a todas as outras modalidades esportivas. E a outras categorias não-esportivas.

Somos mulheres. Somos livres.

E, como as mulheres bárbaras, somos guerreiras.

 

Referências/Complementos:

 

SAVINO, Heather – “The Lives of Ancient Celtic Women”

Women’s Story: Bouddicca

Lothene.org: Women Warriors in the Roman and Celtic World.

Ronda Rousey fala sobre o MMA feminino (vídeo em inglês)

2 broke girls (e por que eu amei essa série)

Eu nunca fui muito de comédias. O formato nunca me atraiu da forma como séries épicas ou sobrenaturais. No máximo, eu vi algumas temporadas de The Big Bang Theory e alguns episódios de Two and a Half Man nas madrugadas do SBT. Mas nunca de verdade eu tinha gostado, amado profundamente uma comédia.

Acho que tudo mudou com 2 Broke Girls.

2 Broke Girls

2 Broke Girls

Basicamente, é a história de 2 garotas falidas tentando montar um negócio de cupcakes para sair da vida quebrada que levam. O negócio é que uma delas, Caroline, é filha de um ex-milionário acusado de roubar o dinheiro público e que foi preso, tendo todos os bens congelados e deixando a filha na miséria. Ela então encontra Max, uma garçonete do Brooklyn que é baby sitter nas horas vagas e nunca conheceu um quarto do luxo de Caroline. Max e Caroline começam a trabalhar e morar juntas e tudo começa.

Bom, o enredo não é brilhante, os clichês são recorrentes aos de vários outros seriados do gênero, mas acho que o que ME fez amar a série não foi nada disso, mas por que a série me fez rir de mim mesma. É o equivalente feminino ao Two and A Half Man.

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Apesar de certos parâmetros esdrúxulos e extremos característicos do exagero das séries do tipo, Caroline e Max são bem reais. Pelo menos para mim; eu vi um pouco de cada uma em cada uma das minhas amigas quando parei para pensar. Seja física ou psicologicamente; eu vi ali o humor da Bianca, o pessimismo da Cris, as confusões da Bia, o estilo da Helen.  Não são coisas irreais, eu vi um mosaico das minhas garotas delineado na série.

max cartas

Eu vi as situações pela quais nós já passamos; primeiro por que todo universitário é pobre de natureza. Então a Caroline e a Max dividindo uma batata frita de pobre é bem eu e as meninas juntando moedas depois da aula pra comprar um lanche no mercadinho perto da parada; a Max dormindo com um facão me fez lembrar a dona da venda aqui perto de casa que trabalha com um teçado atrás do balcão pra se defender dos bandidos.

epic quote

Puxar briga pela sua amiga, consolá-la por causa de sua vida amorosa, viver presepadas no ônibus (no caso de Carol e Max, no metrô). Quem nunca?

maxx

Fora os personagens coadjuvantees, Han, Johnny, etc. Todos são engraçados e lembram alguém da vida, alguém que a gente conhece. O colega de trabalho tarado, o bonitão não fode-nem sai de cima com quem você se enrolou (E eu nem vou comentar essa parte por que seria demasiado pessoal, mas a vida amorosa da Max e a minha estão bem próximas u.u), o seu chefe pé no saco. Tá todo mundo ali. Todo mundo.

momento Hannibal

E acho que a boca solta, o realismo e jeito barraqueiro da Max são meio que coisas com quem eu me identifiquei bastante. Sou bem famosa pelo meu gênio explosivo. Mas a Max tem seus defeitos; ela é realista demais, tem medo demais, acredita demais estar confinada aos limites que a vida lhe impôs. Carol é uma patricinha falida, mimada e com uma personalidade bem “Patricinha de Beverly Hills”, mas ao mesmo tempo é muito inteligente, ousada e investidora. Max e Carol se completam. Onde uma cai, outra se levanta. Onde uma falha outra acerta.

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Enfim, não vou falar mais. O seriado é uma delícia. Rende boas gargalhadas.

fatos reais

E muitas reflexões.

O Regicida e Sua Sombra

Jaime

Jaime Lannister

… Em cada rua povo! e povo! e povo! a praça
apinhada em silêncio; o juiz que espedaça
a vara, e aos pés ma atira! aquilo é o campanário,
que lá me está chorando o dobre funerário!
Tomam-me; atam-me as mãos; chegam-me ao cepo, sente
cada um no seu colo o golpe ao meu pendente…

Fausto – Goethe

“Um leão branco correu por pastos mais altos do que um homem.”
A Fúria dos Reis –  As Crônicas de Gelo e Fogo – George R. R. Martin
“Antes de procurar o homem é necessário ter a lanterna. – Será necessariamente a lanterna do cínico?”
O viajante e sua sombra – Nietzsche
Esse  texto conterá SPOILERS sobre As Crônicas de Gelo e Fogo e Game of Thrones.
Sor Jaime Mão de Ouro, O Leão de Lannister, Senhor Comandante da Guarda Real. Também conhecido como o Regicida.
Um homem que matou o rei que jurou proteger; o homem que fode a própria irmã; o homem que jogou uma criança do alto de uma torre. Quando ele vira as costas, os homens sussurram “Regicida”. Conhecido como  o homem mais sem honra dos Sete Reinos.
Mas também um herói, o homem que evitou que a cidade inteira fosse queimada. Que se jogou na arena para salvar uma donzela indefesa e decidiu se manter num posto que todos achavam que seria-lhe impossível ocupar. Um espadachim que perdeu a mão da espada e ainda assim não desistiu de tentar lutar. Um homem que teve a coragem de fazer um inventário dos próprios pecados. Um pecador, sim, mas ao mesmo tempo um cavaleiro, bravo e destemido,  o mais novo a entrar na Guarda Real.
Jaime Lannister é sem dúvida um dos personagens mais complexos com que eu me deparei em toda minha vida.
Ninguém consegue amar o Jaime de primeira; nosso primeiro reflexo em relação ao Regicida é a aversão profunda. A gente só enxerga um homem ruim e com um ego enorme. Como naquela frase Vanitas vanitatum homo. A gente enxerga Jaime como o mais vaidoso de todos.
Mas depois que Jaime é preso pelos Stark e depois que Catelyn o manda com Brienne de volta a Porto Real, o personagem ganha um ponto de vista próprio. E aí a coisa muda de perspectiva. O ponto de vista de Jaime é um tapa na cara da sociedade; muito fácil é apontar o dedo ao outro, mas como seria estar na pele dele? Então, a gente vê o Jaime por dentro.
Descobre-se que a vaidade é um escudo; que há ali embaixo um menino frustado que apenas queria ser um cavaleiro como Sor Athur Dayne, mas pelos desvios e percursos da vida, se tornou igual ao criminoso louco Cavaleiro Sorridente.  Descobre-se um amor quase devoto, um amor além da carne pela irmã Cersei, a leoa de Jaime, sua contraparte feminina; um amor tão leal que Jaime não se permite ter outra mulher além daquela que veio ao mundo junto a si. E quando Jaime faz a Brienne a derradeira confissão de que Aerys planejava queimar Porto Real no exato instante que Tywin Lannister atinge os portões, descobre-se que Jaime é, da sua forma torta e desconcertada, um herói.
Burn Them All

Burn Them All

 

Jaime Lannister é assombrado pelas últimas palavras de Aerys; “queime-os, todos.”.

Jaime Lannister é o ubbermensch de Nietzsche, sim. O super homem. Só que do avesso, o Super Homem das Sombras.

The hour when you say, ‘What matters my happiness? It is poverty and filth and wretched contentment. But my happiness ought to justify existence itself.’

A hora que você diz, “Do que importa minha felicidade? É pobreza e sujeira e contentamento miserável. Mas minha felicidade deve justificar a própria existência.

The hour when you say, ‘What matters my reason? Does it crave knowledge as the lion his food? It is poverty and filth and wretched contentment.’

A hora que você diz, “Do que importa minha racionalidade? Ela anseia pelo conhecimento como o leão anseia por sua comida? É  pobreza, sujeira e contentamento miserável.

The hour when you say, ‘What matters my virtue? As yet it has not made me rage. How weary I am of my good and my evil! All that is poverty and filth and wretched contentment.’

A hora que você diz, “Do que importa minha virtude? Só evitou que eu me enfurecesse. Como estou cansado do meu bem e do meu mau! Toda a pobreza, sujeira e contentamento miserável.

 

Esse excerto é de Nietzche; “Sobre o Super Homem“, do Zaratrusta de Nietzche. No livro A Tormenta de Espadas, Jaime passa pelo seu calvário pessoal; perde a mão direita que, para um cavaleiro e espadachim, é basicamente o que lhe torna homem; descobre que Cersei lhe engana e provavelmente não o ama de verdade; encara friamente o modo como todas as suas tentativas de mudança ruírem tristemente. Tudo que Jaime vê a sua volta é pobreza e sujeira e contentamento miserável. Jaime, o Regicida, então tem que olhar para dentro de si mesmo, encarar todas as suas trevas e pecados. E ressurgir. Como um novo homem, um novo Jaime. Um Jaime que está disposto a tomar suas próprias decisões. Um Jaime renascido pra lutar com a mão esquerda.

 

Jaime, Regicida, o homem sem palavra, sem honra. O super homem vindo das trevas.

Jaime